Está nos jornais de hoje que o FMI (Fundo Monetário Internacional) faz um alerta sobre a possibilidade de estourar uma bolha imobiliária no mercado brasileiro. O FMI está atrasado, porque aqui na Província do Grande ABC, embora tudo se faça para esconder a realidade que incomoda os donos do dinheiro e do poder político, a bolha imobiliária faz tempo que inquieta muita gente. Há nichos de investimentos que deram com os burros nágua. Vieram empreendedores que mal sabem distinguir São Caetano de Mauá ou Diadema de Santo André. Sem contar as especificidades geoeconômicas de bairros. Só poderiam mesmo cair do cavalo.
É claro que há movimentos estratégicos para dissimular as vicissitudes que estão a saltar mesmo aos olhos mais descuidados. Basta um mínimo de sensibilidade e senso de observação para enxergar o que está na cara de todos: há apartamentos demais à venda e compradores de menos. As placas de vende-se são escamoteadas para não vulgarizar a desgraça, mas a agitação nos faróis, os telefonemas incômodos em horas mortas, os anúncios cada vez mais raros nos jornais sempre lenientes, a panfletagem cada vez mais ousada e os bônus aos eventuais interessados colocam as cartas na mesa. Não há um zape salvador a aliviar a barra dos afoitos. Muita gente gananciosa veio para a Província com fome pantagruélica e pode se submeter a rações emagrecedoras.
As informações sobre o Fundo Monetário Internacional estão em dois dos jornais que recebo de madrugada e leio de manhã, o Valor Econômico e o Estadão. A reportagem do Valor Econômico é mais completa, embora a manchete de página interna do Estadão (“FMI alerta para expansão de crédito e risco de bolha imobiliária no Brasil”) tenha condimentos mais contundentes. O Valor vai numa linha mais suave e hermética (ao leitor comum) em manchete: “Nível de gasto do brasileiro com dívida bancária preocupa o FMI”.
Notícia incômoda
Duvideodó que o site da Associação dos Construtores do Grande ABC, do eterno e centralizador presidente Milton Bigucci, exponha as vísceras apontadas pelo FMI, porque aquele espaço é para o que os poucos responsáveis chamam de “notícias boas”. O dirigente da entidade que anda a fazer malabarismos para se tentar provar útil à classe (escreveremos sobre esse outro assunto qualquer dia desses) é um propagador pouco cuidadoso do mercado imobiliário. Em artigos sempre mal-ajambrados, Milton Bigucci não cansa de afirmar que o crédito imobiliário no Brasil é muito baixo em relação ao PIB (Produto Interno Bruto) e que, por conta disso, o mercado imobiliário estaria longe de qualquer surpresa. Quem consome suas afirmações bota fé, porque ele está à frente de uma entidade supostamente importante, embora não passe, na verdade, de uma sucursal da corporação privada que é presidida pelo dirigente.
Tomara que Milton Bigucci tome mais cuidados no futuro quando se referir ao crédito imobiliário de baixa octanagem no País, porque suas declarações não passam de meias-verdades, assim como de outros representantes do setor que utilizam o mesmo argumento: tornou-se praxe pinçar apenas o pedaço informativo que interessa à categoria. Seria ótimo se Milton Bigucci consumisse as informações do FMI disponíveis no Valor Econômico de hoje. Para que não haja qualquer dúvida, reproduzo alguns parágrafos sobre o assunto:
De acordo com dados citados pelo FMI, o endividamento do brasileiro não está entre os mais altos, hoje na casa dos 30% de toda a renda disponível. Entretanto, o nível de comprometimento da renda com os serviços da dívida, ou seja, com o pagamento das parcelas mensais, está entre os maiores do continente americano. Por aqui, 23% da renda mensal das famílias é gasta com o pagamento de juros e amortização da dívida, enquanto no México, na Colômbia e no Peru essa relação está ao redor ou abaixo de 10%. Até mesmo nos Estados Unidos, onde o endividamento total corresponde a 100% da renda disponível, a relação dos gastos mensais com as prestações toma apenas 10% da renda dos americanos a cada mês, ou seja, menos da metade dos brasileiros. Em outras palavras, o brasileiro tem baixo endividamento, mas mesmo assim compromete uma expressiva parcela de seus ganhos mensais com suas dívidas. Por conta disso, qualquer queda na renda ou piora do emprego, em uma conjuntura mais difícil, poderia ser explosiva para as famílias, como alerta o Fundo.
E seguem as conclusões do Fundo Monetário Internacional na página do Valor Econômico:
“Apesar de parecer sustentável por enquanto, com os altos níveis de emprego e renda, as famílias podem se mostrar altamente endividadas em um cenário de desaquecimento econômico”, diz o Fundo. “Além disso, a tendência atual do crédito e da inadimplência sugere que alguns segmentos de dívida podem já estar sob pressão”. O que explica a diferença entre os números do Brasil e do restante dos países são as taxas de juros elevadas, quase três vezes maiores do que em países como México e Chile, e os prazos dos empréstimos, bem mais curtos que os demais – nesse caso como consequência do baixo volume de financiamento imobiliário na comparação internacional. E não é apenas o endividamento que preocupa o FMI “Há indícios de crescente tensão em alguns setores e classes de ativos, com destaque para o endividamento das famílias e o rápido aumento dos preços dos imóveis nas principais regiões, como São Paulo e Rio de Janeiro”. (...) A expansão acelerada do crédito nos últimos anos apoiou o crescimento interno e o aumento da inclusão financeira, mas essa expansão também pode gerar vulnerabilidades: “Existe o risco de que o sistema financeiro se torne vítima de seu próprio sucesso no País”, diz Demekas (Dimitri).
Tenho sérias dúvidas sobre os desdobramentos da mídia verde a amarela às recomendações do FMI. A maioria dobra-se vergonhosamente aos interesses econômicos e o mercado imobiliário tem tentáculos poderosos. A Província do Grande ABC é apenas a síntese desse desequilíbrio, mas já foi pior porque, antes de CapitalSocial, praticamente nada se expunha sobre os desarranjos e manipulações do setor.
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