A cara de pau da Administração Aidan Ravin extrapola todos os limites -- como denunciei no início deste ano e vou comprovar neste texto. Um assessor do prefeito petebista, Dalmir Ribeiro, diretor do DISE (Departamento de Indicadores Sociais e Econômicos) da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, montou uma arapuca estatística para ludibriar o distinto público consumidor de informações. Ele anunciou em fevereiro deste ano, com base na bobagem que inventou, que a economia de Santo André cresceu 17% em 2011. Agora que os números do Valor Adicionado saltaram das estatísticas do governo do Estado, sabe-se que o buraco é muito mais embaixo. O crescimento do PIB Industrial de Santo André (PIB Industrial é como deve ser traduzido o Valor Adicionado) não passou de avanço nominal (sem considerar a inflação) de míseros 4,77%. Um dos índices mais baixos entre as 20 maiores economias paulistas, exceto a Capital do Estado. Considerando-se a inflação, o PIB Industrial de Santo André registrou índice negativo.
O PIB Industrial anunciado pela Secretaria da Fazenda do Estado não é ainda o formato final do que chamaria de PIB Geral, divulgado a cada ano e com dois anos de atraso pela IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Ainda vão ser considerados para o fechamento numérico os dados relativos às atividades de serviços, setor público, agropecuário e também a carga de impostos diversos. No caso da Província do Grande ABC, ainda fortemente dependente da indústria de transformação, o PIB Industrial é mais que um indicativo, é o roteiro da temperatura econômica a cada temporada. Quando se vai mal no Valor Adicionado, se vai mal no restante. Até porque, aqui ou na China, Valor Adicionado dita o ritmo do restante. Somente nas economias tecnologicamente mais desenvolvidas e maduras, casos de alguns países da Europa e dos Estados Unidos, o PIB Industrial tem impacto menos agressivo nos números finais.
Vassalagem custa caro
Voltando ao Planeta Província do Grande ABC, o caso de Santo André é acintosamente desrespeitoso. O economista Dalmir Ribeiro, moço de boa formação acadêmica e atento intérprete do cenário regional e nacional, caiu na esparrela da invencionice. O INA (Indicador de Nível de Atividade) que ele retirou da cartola da vassalagem ao prefeito Aidan Ravin, é um despautério estatístico.
Fosse mais atento, Dalmir Ribeiro teria abortado a alquimia que anunciou com pompa e circunstância num Teatro Municipal lotado de funcionários públicos, em fevereiro deste ano. Afinal, o simples enunciado de que a economia de Santo André, moribunda há três décadas, crescera 17% em 2011, já denunciava o estado febril que o acometeu sem que se desse conta.
Dalmir Ribeiro fez uma salada de três indicadores para buscar seletivamente algo que desse consistência à inconsistência, ou seja, que repercutisse estatisticamente como um achado de desenvolvimento econômico em Santo André. Maltratou a inteligência alheia e, mais que isso, a prestação de contas que o tempo impinge, porque dados econômicos de fontes variadas não faltarão amanhã como testemunhos implacáveis contra as algazarras de hoje e de ontem.
A lista de prevaricadores que apareceram ao longo das duas últimas décadas na Província do Grande ABC, financiados por representantes públicos e privados para vender ilusões, é imensa. Desmascará-los é simples. Basta ter paciência, dedicação, algum conhecimento e liberdade de expressão. Milton Bigucci e seus números falaciosos do mercado imobiliário da Província do Grande ABC não me deixam mentir. Muito menos Luiz Marinho, agora no campo da propaganda administrativa, com o anúncio de que São Bernardo comportaria um aeroportozão, embora nem aeroportozinho é possível que consiga.
Farra estatística
Já construí uma analogia, em outro artigo, sobre a metodologia adotada por Dalmir Ribeiro ao conceber o monstro chamado INA. Quem entende um pouquinho do riscado econômico e econométrico sabe que um índice que mistura arrecadação do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços), ISS (Imposto Sobre Serviços) e faturamento das exportações tem, como definidor de atividades econômicas, tanto valor quanto uma nota de R$ 3. Foi exatamente isso, misturar alhos com bugalhos para dar um formato científico ao indicador pomposamente nominado que tornou Dalmir Ribeiro mestre das trapalhadas.
Na ponta do lápis, o PIB Industrial de Santo André sofreu no ano passado um novo tranco. A conta é simples: o crescimento nominal de 4,77% é inferior à inflação de 5,1% medida pelo IGPM (Índice Geral de Preços do Mercado) da Fundação Getúlio Vargas. Em 2010, Santo André somou PIB Industrial de R$ 8,829 bilhões. Em 2011, chegou a R$ 9,250 bilhões. Quando se aplica a deflação, os R$ 8,829 bilhões de 2010 passam a R$ 9,743 bilhões. Em números redondos, redondíssimos, Santo André acumulou perda de R$ 500 milhões entre uma temporada e outra. Se alguém conseguir provar que isso significa crescimento de 17%, conforme anunciou o assessor propagandístico da Administração Aidan Ravin, os matemáticos precisam ser eliminados. E os jornalistas metidos a besta, igualmente.
Os valores do PIB Industrial de Santo André não surpreendem e deverão ser confirmados no futuro com grau de certeza de sol após a lua. Para uma economia como a nossa, que depende demais da indústria de transformação e, pior que isso, não conta com atividades de serviços de valor agregado (call center, por exemplo, gera empregos de salário mínimo e baixíssimo entranhamento produtivo), esperar algo diferente num ano, como o de 2011, em que o PIB Geral do Brasil não passou de avanço de 2,7%, é esperar demais.
Mais dados
Voltaremos ao assunto PIB Industrial nos próximos dias, porque o G-20, o Grupo dos 20 Maiores Municípios Paulistas que construímos nesta revista digital, será mais uma vez o referencial do comportamento da Província do Grande ABC em relação a si mesma e também em relação aos demais endereços mais competitivos do Estado de São Paulo.
Ou seja: diferentemente dos manipuladores de sempre, iremos mais uma vez além das fronteiras locais, que não querem dizer muita coisa quando se quer saber o que se passa com desenvolvimento econômico. Limitar-se a olhar para o próprio umbigo dos indicadores dos sete municípios da região tem sentido semelhante a uma classe de alunos medíocres que competem entre si para conferir quem é menos medíocre, enquanto lá fora o dinamismo é outro. Algo só muito pior quando, numa classe de medíocres, aparece o inventor de um indicador que eleva uma das partes municipais do todo regional à condição de uma China muito mais invejável.
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04/02/2026 OSASCO E VIZINHANÇA GOLEIAM GRANDE ABC