Existisse uma bolsa de apostas cujos resultados e premiações fossem esticados para os próximos 20 anos, em quem o leitor apostaria todas as fichas se estivesse em jogo o valor da marca da Província do Grande ABC e da Zona Leste de São Paulo?
Está certo que uma pesquisa na Região Metropolitana de São Paulo sobre o patamar de uma e outra marcas, provavelmente colocaria a Província do Grande ABC em larga vantagem, contando para isso com o empurrão de Capital automotiva. Mas será que nos próximos 20 anos os resultados seriam os mesmos ou a Zona Leste daria um drible da vaca e ultrapassaria a região?
Sei lá o que vai se passar nas próximas duas décadas, mas não tenho dúvidas de que se o ponto de partida levasse em conta o marco zero deste 2013, e o passado fosse esquecido, jogaria todas as fichas na Zona Leste. E razões não faltam.
A visibilidade que o Itaquerão corintiano proporcionará vai se juntar a investimentos da Administração paulistana e também do governo do Estado e do governo Federal. Enquanto isso, na legítima e insofismável condição de Gata Borralheira, socorrida apenas nos últimos anos pelo governo petista de Brasília, a Província seguirá senão marcando passo, mas andando no compasso de tartaruga. E uma das razões principais é o divisionismo territorial, político e administrativo que inviabiliza o futuro, paralisa o presente e explica muitas bobagens do passado.
A bem da verdade verdadeira, devemos agradecer a supremacia da marca Grande ABC em relação à marca Zona Leste apenas por conta do passado de esplendor econômico e de vanguardismo político-sindical, bem como ao esquecimento daquela área paulistana por administradores elitistas e despreparados. Mas a biruta virou. A Zona Leste de 3,9 milhões de habitantes, contra 2,7 milhões da Província do Grande ABC, território físico de 300 quilômetros quadrados contra 840 da região, ganhou luz própria. Descobriu-se, finalmente, que o peso demográfico faz muita diferença na hora do voto, como o fez em favor de Fernando Haddad nas últimas eleições. Daí um passo automático a investimentos públicos que atraem empreendedores privados.
Corinthians, carro-chefe
Fosse a mídia paulistana menos preconceituosa, descuidada e irritantemente centralizada no cotidiano dos bem-aventurados ou na espetacularização da desgraça dos excluídos, muito do que a Zona Leste oferece como potencial de crescimento econômico e de qualidade de vida já estaria disseminado. Mas não haverá como resistir à transformação porque o carro-chefe da atratividade será o estádio que o Corinthians constrói em Itaquera, uma das áreas mais carentes daquela região. Mais carente que os bairros mais carentes da Província do Grande ABC. Assim como a Província do Grande ABC não tem a exuberância de alguns dos bairros mais ricos da Zona Leste, casos específicos do Tatuapé e da Mooca, locais em que o metro quadrado imobiliário, sempre um medidor de qualificação urbana, supera largamente os pontos mais valorizados da Província, muitos dos quais sedes de torres residenciais e comerciais que viraram micos.
A principal diferença entre a Província do Grande ABC e o conjunto da Zona Leste de São Paulo, nossos vizinhos territoriais, é que aqueles bairros paulistanos vivem processo de descobrimento e de potencialização econômica, enquanto já somos mais que manjados e não oferecemos em termos de futuro senão uma torcida alucinada para que a biruta do setor automobilístico, o mais disputado do mundo, não vire demais e nos desloque ao acostamento da competitividade que, a bem da verdade, já foi atingida faz muito tempo.
Como são rarefeitas as informações sobre a Zona Leste, transpira-se a impressão de que aqueles bairros não tenham o sentimento de regionalidade da Província do Grande ABC, mesmo que a regionalidade sugerida esteja longe do sentido cidadão que tanto cobramos. Ou seja, a Zona Leste da Capital não tem a unidade regional que a marca induz no grau senão praticado pelo menos percebido na Província do Grande ABC. Seriamos potencialmente uma grande e única cidade, como no passado, enquanto a Zona Leste encontraria dificuldades para considerar-se algo senão um conglomerado de localidades sob a marca máster de São Paulo.
Pedaço da Capital
Por ser apenas um pedaço – o pedaço demográfico mais importante da Capital, embora o pedaço econômico e o pedaço cultural estejam longe dali, na Zona Oeste da classe média-média e classe média-alta, a Zona Leste não conta com dados estatísticos transparentes e confiáveis. Isso dificulta operações de marketing para o chamamento de investimentos produtivos. Mas nada é impeditivo ao desenvolvimento local. Há uma fartura de espaços físicos para a atração de empresas de todos os setores, de modo a manter em seu território mais mão de obra do que atualmente, em grande escala deslocada diariamente a outras áreas da Capital, principalmente o Centro e a Zona Oeste.
Fosse alguma coisa que já fui em Redação diária e não tenho o menor interesse, saco e outros atributos mais para repetir, convocaria um jornalista de primeira linha, desses com faro de repórter e talentoso texto, para vasculhar todas as entranhas da Zona Leste agora que o desabrochar de novos tempos parece evidente.
Uma série de reportagens especiais, invadindo a áreas de todos os temas, permitiria a construção de um perfil riquíssimo que, mais tarde, consubstanciaria a lógica que só os elitistas fazem questão de negar: o estádio do Corinthians, conjugado com investimentos federais, municipais e estaduais em infraestrutura física e também em equipamentos sociais e educacionais, alterará completamente aquele espaço urbano nos próximos 20 anos.
E é aí que se dará o confronto com a Província do Grande ABC, incapaz de proporcionar perspectivas alvissareiras porque vive num marasmo de dar dó desde que Celso Daniel se foi há uma década, desde que a indústria automobilística foi descentralizada, desde que os pequenos e médios industriais foram varridos pela globalização, desde que dormimos no berço esplêndido da grandiosidade que se esvai continuamente.
Uma senhora pauta
Trocando em miúdos, a Zona Leste é uma senhora pauta jornalística sob o prisma de positividade, de cavoucar o futuro e de sucatear o passado, enquanto a Província do Grande ABC não passa de uma viagem no túnel do tempo para quem quer emoção e simbolismos desenvolvimentistas.
A Zona Leste é um artefato repleto de modernidades rumo ao espaço de avanços significativos numa Região Metropolitana tão desigual e violenta. A Província do Grande ABC não passa de uma Maria-Fumaça a acreditar que é pura fantasia essa história de trem-bala.
Querem um exemplo prático no campo educacional? Enquanto nos lambuzamos de triunfalismo idiota com a Universidade Federal do Grande ABC, tratada com reverência equivalente à escassez de políticas curriculares que contemplem a economia regional, a Zona Leste vai ganhar um novo curso de engenharia voltada a interesses e riquezas internos. No caso, o curso de Engenharia de Computação da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. A Escola de Engenharia é uma reivindicação da comunidade local desde a inauguração do campus da USP.
Escreveu o jornal O Estado de São Paulo de ontem que, quando foi criada, em 2005, a USP Leste sofreu críticas por não oferecer cursos tradicionais como Engenharia, Administração e Direito, que atenderiam às demandas da população local. O argumento, segundo o jornal, era de que as regras da universidade impediam que o mesmo curso fosse oferecido por duas unidades na mesma cidade. Mas a decisão também foi vista como um modo de apressar a abertura da unidade para servir de bandeira eleitoral do governador Geraldo Alckmin na eleição de 2006. Enquanto isso, a UFABC segue a velha toada de produzir cérebros em primeiro lugar para o Brasil, em segundo lugar para o Brasil e em terceiro lugar para o Brasil. Uma migalhinha de marketing aqui e acolá para contemplar a Província do Grande ABC é suficiente para enganar os bobos regionais.
Densidade política-eleitoral
A Zona Leste da Capital também está à frente da Província do Grande ABC no quesito político-eleitoral porque, diferentemente do viés esquerda versus direita daqui, forjado nos embates trabalhistas, os paulistanos daquela área são movidos principalmente por demandas econômicas que se traduzem em qualidade de vida.
Como também o volume de moradores da Zona Leste com renda inferior aos estratos mais aquinhoados na mesma área é muito maior que embate semelhante na Província do Grande ABC, ou seja, como a desigualdade social é maior lá do que aqui, há um potencial explícito de retorno dos investimentos públicos em forma de votos muito mais seguro do que o que poderíamos oferecer em contrapartida aqui. E como a Zona Leste está inserida numa Capital que monopoliza a mídia de massa da Região Metropolitana de São Paulo, os efeitos populares dos investimentos projetados e aplicados são muito maiores e mais compensadores. Essa, aliás, é a diferença entre a periferia da Zona Leste e a periférica Província do Grande ABC.
Sem contar que, ao abraçar o Corinthians com mais de 50% de preferência torcedora, a zona leste vai ganhar o estádio e a agenda do Timão de presente a partir provavelmente do final deste ano, enquanto seguiremos aqui uma luta árdua para dar um mínimo de representatividade social aos nossos clubes fortemente prejudicados pela escuridão midiática de massa.
Fosse um cavalo de corrida, ou melhor, fossem dois cavalos de corrida cujos páreos se desenrolariam ao longo de 20 anos, etapa por etapa, em quem o leitor apostaria na reta final?
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04/02/2026 OSASCO E VIZINHANÇA GOLEIAM GRANDE ABC