Tomei emprestados dois artigos publicados na edição de ontem, quarta-feira, da Folha de S. Paulo (não é a primeira vez que faço esse tipo de confronto) para levar os leitores a decidirem sobre quem estaria mais próximo da realidade. Não gosto muito de sair da temática regional, porque temos tanta coisa a esquadrinhar nesta Província do Grande ABC com olhar mais crítico, mais contextualizado, mas vejo nessa nova oportunidade de debater economia nacional e macroeconomia importante suporte às especificidades da vida local.
Coloco frente a frente um jornalista admirável, Elio Gaspari, e um economista notável, Alexandre Schwartsman. A proposta é proporcionar um debate virtual. Acho que vale a pena ler atentamente o que eles têm a dizer em contraponto ao outro, já que seus pontos de vista foram expostos em diferentes cadernos editoriais da Folha de S. Paulo. O articulista do jornal escreveu à página A9 do Caderno Poder, enquanto o doutor em economia pela Universidade da Califórnia e sócio-diretor de uma renomada consultoria especializada, manifestou-se à página B7 do Caderno Mercado.
Pincei as principais sentenças dos dois artigos sem, acredito, tolher-lhes a autenticidade de pensamento, a justeza do conteúdo, a conexão sequencial e a precisão interpretativa. E como em experiências anteriores, quando esse tipo de confronto contou com meu veredito, me mantive longe de eventual omissão, embora me definisse pelo empate técnico entre o jornalista e o economista.
As exposições que os dois articulistas fizeram aos leitores da Folha de S. Paulo sem qualquer combinação porque seguiram programações pré-estabelecidas, apresentam apenas e tão somente alguns entrechoques temporais, não necessariamente conceituais. A economia brasileira à qual se refere com entusiasmo Elio Gaspari enveredou pelos atalhos que alimentam o consumo, uma avalanche que mantém o PT no poder há 10 anos. Já o economista que também atua no Instituto Insper trafega cautelosamente pela areia movediça da macroeconomia de sinais inquietantes.
Elio Gaspari faz um voo rasante, focalizado, importante à compreensão da realidade brasileira nem sempre capturada em debates de especialistas. Schwartsman faz um voo panorâmico de quem não se conforma apenas com o passado de transformações importantes. Quer enxergar adiante alternativas menos complexas do que as atuais para manter o PIB longe de solavancos.
Elio Gaspari – Pindorama vive uma época de perplexidade vocabular. Primeiro, apareceu uma tal de “nova classe média” depois, uma milagrosa “classe C” que frequenta lugares aonde não ia (aeroportos, por exemplo). (...) Essa “gente diferenciada” veio para ficar. Algum pesquisador poderá confirmar que o aparecimento de 42,5 milhões de novos clientes num sistema bancário é um fenômeno mundialmente inédito. O número foi levantado há poucos meses pelo Banco Central. Ele decorre da ampliação do mercado de trabalho formal, batendo a marca dos 50 milhões de brasileiros.
Alexandre Schwartsman – Durante os anos em que vigorou no Brasil o “tripé macroeconômico” (câmbio flutuante, metas para a inflação e um compromisso sério com o superávit primário), cansei de ouvir economistas que prometiam o paraíso, caso o País abandonasse o regime. (...) Esse desejo de mudança foi atendido. Desde 2009, não sabemos o que é ter inflação na meta (está no intervalo permitido, mas – veja que curioso – sempre na sua parte superior, mais perto do teto que da meta). Já de flutuante a taxa de câmbio só preservou o nome, encaixotada entre R$ 2,00 e R$ 2,10 por dólar. Por fim, em apenas um dos últimos quatro anos a meta de superávit primário foi atingida sem artifícios contábeis. A valer o que esse pessoal assegurava, a economia brasileira deveria estar crescendo a taxas aceleradas, mas bem, sabemos, não é o caso.
Elio Gaspari – Esse trabalhador tem conta em banco, direitos trabalhistas, crédito nas lojas que vendem móveis e fornos de micro-ondas. É um novo cidadão. Está num mercado consumidor onde a taxa de juros média mensal (5,4%) caiu ao menor nível desde 1995, quando passou a fazer sentido acompanhar esse índice. Nada disso teria acontecido sem Itamar Franco, que botou Fernando Henrique Cardoso no Ministério da Fazenda; sem o Plano Real e os oito anos de FHC no Planalto; sem Lula, que abriu o crédito para o andar de baixo; ou sem Dilma, que focou a baixa dos juros. Melhor assim.
Alexandre Schwartsman – Depois de aumento medíocre em 2011, a expansão do PIB (Produto Interno Bruto) não deve ter superado 1% no ano passado e apesar da nova rodada de promessas dos elfos videntes, provavelmente nos encaminhamos para mais um ano de baixo crescimento em 2013 (cerca de 3%). Não bastasse isso, o investimento cresce como rabo de cavalo, caindo por cinco trimestres consecutivos (provavelmente seis, mas isso só se saberá em março). (...) Segundo artigo cometido no jornal “Valor” na semana passada, a culpa pelo baixo crescimento é a “herança maldita”, isto é, o regime de política econômica (“ortodoxa”) que vigorou no país. Sob outras condições, chegaria a ser engraçado: o mesmo regime não impediu a economia de crescer em torno de 4% ao ano (e o investimento, mais do que isso, vindo de 15% para 19% do PIB), mas, em virtude de alguma mágica não explicitada, seria atualmente o responsável pelo baixo desempenho, e isso durante o período em que foi solenemente abandonado.
Elio Gaspari – O que está sobre a mesa da banca é a necessidade de se adaptar a um país que mudou. Trata-se de aproveitar a oportunidade, em vez de reclamar do fantasma da inadimplência. (...) A inadimplência dos brasileiros oscila dentro de uma faixa que vai de 5% (2001) a 8,5% (2009). Hoje está em 7,8%. É mais alta no mercado de venda de carros (8%) e saudavelmente baixa (2%) no crédito imobiliário.
Alexandre Schwartsman – A verdade é que a cada dia se torna mais claro que as promessas de aceleração do crescimento pela adoção de um novo regime de política econômica não se materializarão. Mesmo sabendo que a estabilidade não é condição suficiente para o crescimento acelerado, ela não deixa de ser condição necessária, e os custos do abandono do tripé se tornam crescentemente visíveis, em particular no campo inflacionário, piorando o ambiente em que as empresas tomam suas decisões de investimentos.
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04/02/2026 OSASCO E VIZINHANÇA GOLEIAM GRANDE ABC