O comportamento da indústria de transformação da Província do Grande ABC é preocupante quando enfrenta os principais endereços paulistas, mas particularmente Santo André é ainda mais problemático. Desde a implantação do Plano Real, em meados de 1994, esse que é um dos 20 principais municípios da economia estadual (e que por isso mesmo integra o G-20), só conhece reveses. A queda média anual do PIB industrial, como poderia ser definido o Valor Adicionado, peça-chave à distribuição do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) alcança 2,30 pontos percentuais ou 8,9% no período. Já Sorocaba cresceu ao ano 27,29 pontos percentuais e 105,39%. O rendimento negativo de Santo André só é inferior no G-20 ao de Mauá, também na Província. Comparar o desempenho de Santo André com Sorocaba, por exemplo, é um choque pedagógico à compreensão do deslocamento do eixo produtivo ao Interior do Estado -- especialmente às regiões da própria Sorocaba, de Campinas e de São José dos Campos.
No primeiro ano do Plano Real, os dados da Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo apontam que o Valor Adicionado de Santo André (R$ 2.309.978 bilhões) era 37,12% superior ao de Sorocaba (R$ 1.452.355 bilhão). Dezessete anos depois, em 2011, o Valor Adicionado de Sorocaba (R$ 13.134.118 bilhões) superava o de Santo André (R$ 9.266.521 bilhões) em 29,44%. Uma catástrofe nada surpreendente. Movimentos extremamente antagônicos se registraram no período: enquanto Santo André, que acumulava perdas desde o início dos anos 1980, perdia a força industrial principalmente de pequenas e médias empresas, Sorocaba e municípios do entorno passaram à condição de favoritos a investimentos. As regiões metropolitanas de Campinas e de São José dos Campos seguiram a mesma trilha.
Triunfalismo resistente
O que se passa de forma mais grave com Santo André (e ainda mais agudamente com Mauá, que perdeu em média ao ano 1,66 ponto percentual ou 28,27% no período de produção industrial) nada mais é que a consequência de um triunfalismo regional que não cessa nem diante da realidade das ruas. Ainda se vive na região a falsa farra de desenvolvimento automático, que implicava em recepção dos investimentos pela força de gravidade do setor automotivo. Mas a roda do mundo girou, novas configurações se estabeleceram e o que se verificou ao longo das duas últimas décadas, mesmo com recordes de produção de veículos no País, é uma Província cada vez mais debilitada. E permanentemente negligente à mobilização dos administradores públicos. A indicação de uma educadora, Oswana Fameli, também vice-prefeita, para comandar a Secretaria de Desenvolvimento Econômico de Santo André, é caso típico de desfaçatez.
Se Santo André (e também Mauá) é um exemplo emblemático de desindustrialização que só os estúpidos negam, a amplitude da situação ao conjunto dos sete municípios da Província do Grande ABC não é heresia. Pelo contrário: embora de forma menos aguda, a região sofreu seguidas derrotas nos 17 anos contados entre 1994 e 2011. Uma comparação do PIB Industrial da região, sempre em forma de Valor Adicionado, com o conjunto formado por Campinas, Sorocaba e São José dos Campos é esclarecedora. Em 1994 a Província apontava vantagem de 40,51% ante aqueles três municípios do Interior. Já em 2011 a distância caiu para 17,60%. Uma queda relativa de 56,55%. Se a contabilidade incluísse os municípios que integram aquelas regiões metropolitanas, os danos seriam terríveis. Afinal, capitais daquelas regiões, Campinas, Sorocaba e São José dos Campos perdem participação relativa na indústria de transformação porque novas fábricas preferem municípios de menor porte e de melhor qualidade de vida dos respectivos entornos.
Derrotas sequenciais
Quaisquer que sejam os confrontos envolvendo os representantes da Província do Grande ABC no G-20, casos de Santo André, São Bernardo, São Caetano, Mauá e Diadema, os resultados serão sempre desfavoráveis. Os 17 anos contabilizados a partir do Plano Real são desastrosos na média geral e seriam ainda piores se o governo petista originário dos metalúrgicos de São Bernardo não influenciasse o balanço da indústria automotiva. Os incentivos fiscais e as facilidades de financiamento dobraram a produção automotiva do País nos últimos 10 anos. Como representa 20% da produção nacional, a Província do Grande ABC foi fortemente favorecida.
Juntando-se a isso a atualização tecnológica da maioria do parque industrial automotivo ao longo dos anos, para fazer frente à competitividade mundial, intervenção que elevou a produtividade, a Província do Grande ABC reduziu os impactos na indústria de transformação. Mas, mesmo assim, considerando-se apenas os cinco municípios locais que integram o G-20, a Província acumulou perda anual de produção industrial de 0,56 ponto percentual ou 2,60% no período. Se forem somados os resultados de Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra, a queda sofreria pequena alteração -- passaria a 0,65 ponto percentual ou 2,51% no período.
Seja qual for o indicador escolhido às perdas industriais da Província do Grande ABC, com ou sem Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra, o resultado sempre será antagônico aos dos demais integrantes do G-20, no caso o G-15 -- o conjunto daqueles municípios registrou avanço médio anual na indústria de transformação de 16,96 pontos percentuais ou 65,50% no período.
Perdas apenas locais
Entre os integrantes do G-20, apenas municípios da Província do Grande ABC acusaram retração na indústria de transformação em 17 anos. Além de Santo André e de Mauá, também São Bernardo ficaram para trás. São Bernardo perdeu por ano em média 0,46 ponto percentual, ou 1,78% no período. Diadema cresceu 5,90 pontos percentuais ou 22,80% no período. São Caetano embora de forma mais discreta também escapou da degola industrial ao crescer por ano 2,78 pontos percentuais ou 10,73% no período. Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra, fora do G-20 mas integrantes da Província, tiveram desempenhos diferentes: Ribeirão caiu 6,57 pontos percentuais ao ano e 25,37% no período, enquanto Rio Grande da Serra subiu 11,45 pontos percentuais e 75,17% no período. O desempenho favorável no período envolvendo Rio Grande da Serra, Diadema e São Caetano não pode ser colocado no mesmo saco de entusiasmo. Afinal, enquanto São Caetano segue dependente em larga escala da fábrica da General Motors e Diadema depende fortemente de pequenas e médias indústrias ligadas a vários setores, principalmente o automotivo, Rio Grande da Serra tem economia tão diminuta que qualquer movimento sazonal altera os números internos, embora em nada interfira no conjunto regional. Se Rio Grande da Serra crescer 100% em média ao ano durante uma década a situação da Província não se alteraria.
Ainda no bloco do G-20, dois municípios cresceram bem acima da média geral: Taubaté e Sumaré, beneficiários de plantas automotivas, registraram 43,18 pontos percentuais e 48,32 pontos percentuais de crescimento médio anual, ou de 166,74% no período, no caso de Taubaté e de 186,60% no caso de Sumaré. A soma da indústria de transformação de Sumaré e Taubaté chega a R$ 12.877.481 bilhões, ou 28% acima do PIB industrial de Santo André em 2011. Em 1994, a indústria de transformação dos dois municípios registrava R$ 102.645 milhões, ante R$ 227.872 milhões de Santo André. Ou seja: o Município representante da Província do Grande ABC detinha setor de transformação industrial 55% superior a Sumaré e a Taubaté. A vantagem não só se desfez em 17 anos como se tornou desvantagem.
Toda a numeralha relativa a Santo André e também à Província do Grande ABC não é novidade conceitual. À frente da revista LivreMercado durante 18 anos e de CapitalSocial há quase cinco anos, multifaces da desindustrialização são um dos temas que mais fascinam este jornalista. Não pelo prazer de ver a desgraça da Província do Grande ABC, onde vivo há mais de quatro décadas, mas pelo inconformismo condenatório à inação das autoridades públicas preocupadíssimas apenas com questões sociais que rendem votos e outras benesses. Planejamento estratégico econômico é algo trabalhoso e geralmente não rende frutos numa ou em duas gestões seguidas -- tempo máximo na escala de valores dos políticos de plantão.
Todos os cálculos inflacionários foram ancorados pelo IGP-M (Índice Geral de Preços do Mercado) da Fundação Getúlio Vargas, que no período de janeiro de 1994 a dezembro de 2011 alcançou 340,29%.
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04/02/2026 OSASCO E VIZINHANÇA GOLEIAM GRANDE ABC