Para quem que está pegando em movimento o bonde da cirurgia no organismo do mercado formal de trabalho do Grande ABC nos sete anos de governo Fernando Henrique Cardoso, vamos rememorar rapidamente os principais pontos dos três capítulos anteriores para que o desta edição seja compreendido sem dificuldades:
Na faixa acima de 10,1 salários mínimos (de R$ 2.001 em diante, em valores de dezembro do ano passado), o conjunto de municípios do Grande ABC perdeu 85.853 postos de trabalho, passando de 177.044 para 91.261 empregados. Uma queda relativa de 49,48%. Ou seja: o universo dos bens aquinhoados salarialmente desabou de forma impressionante, com imagináveis rescaldos de fissuras sociais e econômicas.
Na faixa popular de até três salários mínimos (R$ 600), o Grande ABC inchou de carteiras de trabalho, passando de 93.305 para 188.044 trabalhadores, com crescimento de 98,62%. Ou seja: proletarizou-se de forma impressionante um mercado de trabalho forjado durante os anos de ouro da indústria automotiva, base de sustentação da economia regional.
Na faixa intermediária de 3,1 a 10 SM (de R$ 601 a R$ 2.000) o Grande ABC praticamente manteve o padrão de empregos formais, pois passou de 228.814 em 1994 para 230.015 em 2001. Ou seja: não perdemos nem ganhamos trabalhadores numa faixa salarial que é incapaz de garantir mobilidade social.
Dissecadas essas três macrofaixas salariais, invadimos agora a microfaixa do Ministério do Trabalho e Emprego que envolve os profissionais com carteira assinada com mais de 20 salários mínimos, ou seja, mais de R$ 4.001. O que teria acontecido com a elite dos profissionais das mais diferentes áreas que em 1994 estavam empregados no Grande ABC? Que rombo o governo Fernando Henrique Cardoso, fartamente analisado aqui e também na edição de novembro da revista LivreMercado, teria provocado no estrato socioeconômico mais indutor de desenvolvimento econômico gerador de riqueza?
Sugiro aos leitores que acompanham estas linhas com atenção permanente que se acautelem e preparem o estômago, porque os estragos são imensos. De 60.977 carteiras profissionais de ouro, isto é, acima de R$ 4.001 mensais, sobrou menos da metade: exatamente 29.124. Perdemos 31.853 empregos formais de rendimentos mínimos anuais de US$ 13 mil. É dinheiro demais para os padrões brasileiros.
O município do Grande ABC que menos sofreu em termos relativos é São Caetano. De 6.848 carteiras de ouro em 1994, último ano do governo Itamar Franco, restaram 5.301 no sétimo ano do governo FHC. A perda relativa de 22,59% esconde distorção que nos próximos dias, como já prometemos, procuraremos esmiuçar: trata-se dos efeitos da guerra fiscal no setor de serviços, que contabiliza empregos formais em São Caetano mas que, de fato, não passam de registros documentais porque parte dos profissionais atua nas sedes paulistanas das empresas seduzidas pela política tributária do prefeito Luiz Tortorello.
Acompanhem um resumo do comportamento do emprego de ouro, de mais de 20 salários mínimos, em cada um dos municípios do Grande ABC. Apresentamos, pela ordem, os empregos formais de 1994, a participação relativa no universo municipal, os empregos formais de 2001 e a respectiva participação relativa interna, isto é, no próprio Município:
São Bernardo contava com 30.345 (15,56%) carteiras assinadas com mais de 20 SM em 1994 e caiu para 16.740 (8,97%) no ano 2001 -- queda relativa de 44,83%.
Santo André registrava 11.508 (9,60% de todos os trabalhadores formais) em 1994 e caiu para 3.215 (2,72%) em 2001, ou seja, menos 72,06%.
São Caetano somava 6.848 (10,68%) e caiu para 5.301 (5,60%) no período de sete anos completado em dezembro, com queda de 22,59%.
Diadema reunia 6.297 (7,48%) e caiu para 2.359 (3,22%), com queda relativa de 62,53% no mesmo período.
Mauá contabilizava 4.550 (7,81% de sua força de trabalho) em 1994 e caiu para 1.313 (3,87%) depois do vendaval FHC, ou seja, queda de 71,14%.
Ribeirão Pires tinha 1.384 (7,81%) em 1994 e despencou para 163 (1,18%) sete anos depois, com queda relativa de 88,22%.
Rio Grande da Serra contava com 45 profissionais que recebiam mais de 20 salários mínimos em 1994 (3,50% da força de trabalho) e caiu para 33 (1,48%) sete anos depois, com queda relativa de 26,66%.
Uma brincadeirazinha (se é possível usar essa expressão para algo tão sério) de multiplicar talvez dimensione melhor o que significam 31.853 empregos de pelo menos R$ 4.001 decepados entre 1994 e 2001. Imaginem os emeiados que cada um desses demitidos recebesse exatamente R$ 4.001 (na verdade, apenas uma parte desse contingente de demitidos recebia esse valor). Multipliquem R$ 4.001 por 13 parcelas (os 12 salários mais o 13º) e chegaremos à contabilidade individual de R$ 52.013 por ano de rendimentos brutos. Agora, para que a conta seja realmente fechada, multipliquem esse valor pelos 31.853 empregos destruídos.
Se sua maquininha de calcular é como a minha, de apenas oito dígitos, esqueça! A elasticidade dos numerais exige que se recorra a software específico que os computadores acondicionam, como sugere uma de nossas assessoras. O número final aparece: R$ 1.656.770.089,00. Traduzindo: um bilhão, 656 milhões, 770 mil e 89 reais de salários brutos que foram para o espaço apenas no ano passado. Daí para cima, porque, como escrevi, colocamos todos os empregos dessa faixa de ouro limitados a R$ 4.001.
Como se vê, mobilidade social é balela quando se trata da economia do Grande ABC. Não bastassem os empregos de classe média (mais de 10 salários mínimos) que evaporaram na esteira das estripulias da política econômica do governo federal, ainda contamos com transbordantes hordas de desempregados, subempregados, desempregos e subempregados disfarçados de autônomos e autônomos de fato.
Como é fácil discursar neste País -- e fazer média de acordo com as circunstâncias -- o presidente da República não poderia perder a oportunidade de mencionar a expressão mobilidade social como legado histórico que seu governo manteve ao apontar para o exemplo do presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva.
Ora bolas, sem qualquer objetivo de desmerecer o novo presidente, até as ferramentas da antiga Villares -- onde Lula perdeu um dedo -- sabem que o ex-metalúrgico não é exemplo coisa alguma de mobilidade social no sentido nato da expressão. Lula da Silva foi fermentado pela mobilidade corporativa -- primeiro de metalúrgico que defendia seus direitos com intensidade invejável, depois como animal político de notório valor. Os metalúrgicos dos tempos de Lula da Silva, e os que vieram depois e que estão empregados, mal passam de classes médias baixas sem futuro dos mais risonhos para si e seus filhos. Os metalúrgicos dos tempos de Lula e de agora, que estão desempregados, subempregados ou viraram autônomos, vivem mesmo mobilidade descendente.
Perda relativa superior
Voltando ao mapeamento dos salários de ouro de mais de 20 mínimos, nota-se que a perda relativa de postos do Grande ABC no período fernandista chegou a 52,53%. Muito mais que os 30,85% perdidos pela Capital paulista, os 38,72% que abateram Sorocaba, os 28,93% que impactaram São José dos Campos e os 32,58% que atingiram Campinas. Vejam os detalhes desses municípios:
Campinas contava com 19.570 empregos de mais de R$ 4.001 em 1994 (8,44% do total interno de empregados formais) e caiu para 13.199 (5,40%) em 2001 -- uma queda relativa de 32,58%.
São José dos Campos registrava 12.894 empregos de ouro em 1994 (12,42% do total local) e caiu para 9.163 (7,97%) em 2001, com rebaixamento de 28,93%.
São Paulo somava 294.939 (8,40%) e caiu para 203.923 (6,36%), com queda relativa de 30,85%.
Sorocaba reunia 5.111 em 1994 (5,84%) e caiu para 3.132 (3,22%) sete anos depois, com variável negativa de 38,72%.
A participação relativa dos empregos formais de mais de R$ 4.001 na grade do Grande ABC em 1994 apontava para 6,88% no Estado de São Paulo. Portanto, acima apenas do percentual de Sorocaba. Para cada 100 trabalhadores de carteira registrada de pelo menos R$ 4.001 no Estado em 1994, 6,88% eram do Grande ABC. Sete anos depois a taxa regional caiu para 4,20%, a menor entre os municípios economicamente mais fortes, depois de Sorocaba. Enquanto o contingente de salários de ouro do Estado de São Paulo foi reduzido em 36,19% (de 539.444 em 1994 para 344.212 em 2001), no Grande ABC a queda, como já vimos, chegou a 52,23%. Conclusão: a crise da mobilidade social é muito maior aqui do que em qualquer outro lugar do Estado e também do País. Em termos domésticos e relativos, em 1994 o grupo de assalariados de ouro participava com 11,85% dos empregos formais na região, contra apenas 5,57% sete anos depois.
Por necessidade
Um dos desdobramentos da precarização do mercado de trabalho formal e do gigantismo do desemprego, do subemprego, da informalidade e do profissional autônomo está mais uma vez estampado nas manchetes dos jornais hoje. Caso do Valor Econômico: "Brasileiro torna-se empreendedor por necessidade, aponta estudo". Alguns fragmentos do texto: "O Brasil está caindo no ranking internacional do empreendedorismo e, o que é pior, sobe quando a avaliação é feita a partir do motivo que leva as pessoas a abrir um negócio: necessidade e não por oportunidade. A dificuldade em encontrar trabalho é a motivação de 55,4% dos empreendedores do País, o que dá ao Brasil a maior taxa de atividade por necessidade (7,5%) dos 37 países pesquisados. A pesquisa é feita desde 1999 pelo GEM (Global Entrepeneurship Monitor), instituição criada pela London Business School e pelo Babson College de Boston (EUA). O Brasil participa desde 2000, via IBQP (Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade no Brasil). O resultado foi apresentado ontem, simultaneamente em Curitiba e Nova York" -- escreveu Miriam Karam, do Valor Econômico.
Na sequência da matéria, a jornalista lembra que na primeira vez em que foi avaliado, junto a outros 21 países, o Brasil foi classificado como a primeira nação em iniciativa empreendedora. No ano seguinte, já com 28 países participantes da pesquisa, ficou em quinto lugar. Agora aparece em sétimo entre 37 nações.
Já há algum tempo, na seção Campo Aberdo da revista LivreMercado, comentamos exatamente a conclusão a que chegou agora o IBQP: a sede de empreendedorismo no Brasil é fortemente marcada pela necessidade de enfrentar a catástrofe do mergulho do mercado de trabalho. Como é evidente, o estudo mostra que, de forma geral, o empreendedorismo por necessidade tende a ser maior entre os países em desenvolvimento, "onde as dificuldades de inserção no mercado de trabalho levam as pessoas a buscar alternativas de ocupação".
Completa a reportagem: "A comprovar a afirmação, apenas três países têm taxas de abertura de negócios por necessidade maior que a taxa de oportunidade -- Brasil, Argentina e China". O presidente da IBQP-PR, Sérgio Prosdócimo, fez um alerta: "Este índice (do empreendedorismo movido pela necessidade) deve servir de alerta para nossa sociedade. O Brasil precisa mudar e rapidamente suas políticas de apoio às micro e pequenas empresas".
Enquanto o País se esfacela -- e particularmente o Grande ABC -- o presidente FHC discursa para intelectuais internacionais que da missa não sabem um terço. São voyeristas profissionais.
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04/02/2026 OSASCO E VIZINHANÇA GOLEIAM GRANDE ABC