Seria irritantemente provocativo, estupidamente surreal, descuidadamente ignorante ou sinceramente equivocado? Façam suas escolhas, porque, como se nada houvesse ocorrido no Grande ABC principalmente da última década do século passado, ainda há quem — instado pela Imprensa que segue à risca o modelo conservador de não se meter em declarações insustentáveis — consiga pronunciar enunciados descolados da realidade. As declarações equivalem a médicos dizerem que todo tipo de câncer tem cura, a cronistas esportivos jurarem que Biro-Biro jogou muito mais que Pelé e a cronistas de arte subordinarem o talento de Paulo Autran à plástica do bonitão Reynaldo Gianecchini.
Quem considera exagero todas essas possibilidades, provavelmente não acompanhou as declarações de dois entrevistados do Diário do Grande ABC. O descalabro em forma de erudição econômica foi publicado na edição de 2 de outubro como complemento de matéria da tão escandalosa quanto inegável desindustrialização da região.
Apesar de todas as evidências, de todas as estatísticas sérias e de tantas comprovações, ainda há quem, como lunáticos, colocam dúvidas sobre a debandada industrial em direção a outros endereços interioranos e nacionais. Nem precisaria o obituário de empresas que não resistiram à tempestade de areia da globalização.
Vejam o que afirmou ao Diário o doutor em filosofia Marcelo Carvalho, coordenador do curso de Filosofia da Umesp (Universidade Metodista de São Paulo) e professor de Análises Econômicas do Imes (Universidade Municipal de São Caetano), depois de dizer que é equívoco conferir ao Grande ABC processo de desindustrialização:
“A região tem um perfil clássico por qual passaram todas as grandes cidades do mundo. Com o processo de evolução tecnológica, as empresas implantaram a distribuição de plantas produtivas, o que não significa que houve queda da participação da indústria na riqueza da região. Algumas fábricas faliram porque não acompanharam o desenvolvimento tecnológico e outras mudaram em busca de mão-de-obra mais barata, na mesma medida em que novas empresas entraram no mercado” — avalia Carvalho.
Mais imprecisão
Na mesma reportagem do Diário, surpreende o trecho relativo a outro acadêmico provavelmente egresso de alguma galáxia especial onde já constaram congêneres manipuladores como João Batista Pamplona, importado diretamente da Capital, e outros genuinamente locais, sempre a serviço de governantes de plantão que pretendiam transformar o quadrado do esvaziamento econômico em redondo de manutenção das plantas produtivas.
A transcrição da matéria do Diário sobre o depoimento de Marcos César Barros, do Observatório Econômico (da Prefeitura de Santo André), a respeito da desindustrialização: “Existem muitas opiniões a respeito e nunca se chegou a uma conclusão sobre o assunto. Avalio que o Grande ABC tenha seguido processo de desenvolvimento comum às regiões metropolitanas, como a descentralização das indústrias, o que resultou na situação em que se encontra hoje — mais produção com menos empregados” — descreveu o Diário do Grande ABC.
Embora não tenham sido poucas as análises desta publicação sobre a derrocada industrial do Grande ABC, cujos resultados afetaram sobremaneira toda a geografia econômica e industrial da região, é provável que seja necessário recuperar algumas informações para que os dois acadêmicos que vivem no mundo da lua não cometam mais o desatino de endeusar Biro-Biro, de sugerir que câncer é simples mal-estar e que Gianecchini é extraordinário ator.
Diferentemente do que afirma o professor Marcelo Carvalho, o Grande ABC não reúne o modelo clássico de todas as grandes cidades que passaram por evolução tecnológica. Esse é o grande problema regional. E está fundamentado na simples razão de que os sete municípios do Grande ABC são vistos do ponto de vista negocial como periferia da Capital paulista, o maior conglomerado humano e econômico da América Latina. Por isso, em todos os indicadores econômicos, o Grande ABC sofreu dores mais doídas que São Paulo. Carrega-se aqui o fardo sempre pesado da suburbanidade.
Valor agregado
Falta ao Grande ABC para amoldar-se ao figurino clássico das grandes cidades que passaram da industrialização prevalecente à industrialização coadjuvante sem comprometimento social além dos limites exatamente o que o então prefeito Celso Daniel, homem público sempre de olho no futuro, cansou de propagar: estender à indústria setores de serviços de valor agregado.
Em vez de estrutura mambembe de subsistência que proliferou a partir da perda líquida de 100 mil empregos industriais com carteira assinada nos anos 1990, o setor de serviços do Grande ABC deveria reunir infinidade de atividades que atendessem à escalada de terceirização e de desverticalização das indústrias. Seriam empresas de desenvolvimento de projetos de engenharia, do setor financeiro, bancários, hotelarias, entretenimento, consultorias jurídicas, entre outras.
Nas grandes cidades metropolitanas desindustrializadas, como a própria São Paulo, a força das terceirizações e das desverticalizações permitiu amortecimento do impacto da reacomodação de novas equações industriais. Ainda recentemente, a revista The Economist fez abordagem sobre desindustrialização no Primeiro Mundo que, exatamente por ser Primeiro Mundo, não pode simplesmente ser transplantado para a realidade do Grande ABC e do País.
Escreveu aquela publicação norte-americana que, pela primeira vez desde a Revolução Industrial, menos de 10% dos trabalhadores americanos estão empregados em fábricas. “E como possivelmente metade dos trabalhadores de uma indústria típica estão em cargos típicos do setor de serviços, como projeto, distribuição e planejamento financeiro, a real parcela de operários ocupados em produzir coisas que podem se quebrar se caem no chão pode ser de apenas 5%. Será isso motivo de preocupação?” — indagou The Economist.
Queda diferente
Analisou também a publicação semanal que a participação da indústria vem caindo em todas as economias desenvolvidas desde 1970. E que a maioria das pessoas hoje trabalha no setor de serviços: nos Estados Unidos esse número chega a 80%. “Mas essa tendência nada tem de novo. Já em 1900, tanto Estados Unidos como Reino Unido tinham mais empregos no setor de serviços que na indústria. Mesmo no seu pico, no início do Século XX, o emprego na indústria nunca passou de um terço da força de trabalho nos Estados Unidos” — escreveu The Economist.
Segue a análise da publicação: “A despeito das queixas sobre o declínio do setor industrial americano e da migração em massa de produção para a China, a produção real vem subindo à taxa anual de quase 4% desde 1991, portanto mais do que o crescimento geral do PIB. E apesar de a China ser amplamente aclamada como a nova fábrica mundial, os Estados Unidos continuam sendo o maior fabricante do mundo. O Japão vem em segundo lugar, e a China numa distante terceira colocação, produzindo o equivalente a US$ 700 bilhões de bens industrializados, ou seja, meros 50% do total americano” — escreveu a revista.
Rebocar informações sobre a economia dos Estados Unidos e de outros países e confrontá-las com o caso específico do Grande ABC é a melhor maneira para destruir o uso indevido de empacotamentos estrangeiros no debate regional. O nome do fenômeno que coloca os Estados Unidos na dianteira industrial, apesar da perda relativa de participação do emprego no setor, chama-se produtividade. Ou seja: produzir mais com menos empregos.
O Grande ABC, ao contrário do que equivocadamente sugerem os economistas entrevistados pelo Diário do Grande ABC, ainda está longe desse estágio — por mais que tenha melhorado nos dois primeiros anos do governo Lula da Silva por força da recuperação do setor automotivo, coração, pernas, braços e alma da economia regional.
Ampla e irrestrita
Embora a maioria das indústrias que conseguiram resistir à avalanche macroeconômica e permaneceram na região tenha exibido aumento de produtividade, os resultados gerais ainda são típicos de desindustrialização ampla e irrestrita. Entenda-se por desindustrialização ampla e irrestrita a perda líquida de empregos, de produção, de participação absoluta e de participação relativa. A idéia de que o Grande ABC ficou incólume às sacolejadas industriais não corresponde aos números e às cenas do cotidiano de faróis entupidos de jovens em busca de trocados, do comércio informal ascendente, de filas quilométricas de desemprego e, principalmente, de criminalidade irrefreável.
Nenhum outro pedaço do Brasil sofreu tanto com a abertura econômica. Nem poderia, porque as medidas atingiram em cheio o setor automotivo. No livro “República Republiqueta” reservei alguns capítulos para a exumação do esvaziamento industrial do Grande ABC nos anos 90, mas não custa, mesmo que brevemente, resgatar alguns dos principais pontos.
O setor automotivo foi duramente impactado pela abertura das alfândegas que atingiu em cheio autopeças familiares num momento de câmbio artificialmente valorizado. O real chegou a ter cotação superior ao dólar. Qualquer alfabetizado em economia sabe que câmbio superestimado é convite às importações. E foi o que se deu. As taxas de juros dispararam e elevaram a divida pública. Para complicar ainda mais o jogo, mesmo protegidas por alíquotas elevadíssimas, as montadoras locais viram o território nacional ser ocupado por novos concorrentes, atraídos por nababescas vantagens creditícias, fiscais e locacionais. Tantas mordomias as levaram também a construir novas fábricas fora do Grande ABC de mão-de-obra reconhecidamente mais elevada e de infra-estrutura viária encalacrada. Sem contar o desconforto diante de um movimento sindical sempre a fim de medir forças.
Outros setores industriais do Grande ABC também comeram o pão que o diabo amassou com a abertura econômica e com a descentralização incentivada. A indústria têxtil praticamente desapareceu, a indústria química sofreu um bocado e a indústria de máquinas conheceu o inferno. Atividades com dependência mesmo que indireta da demanda automotiva, como o setor de plásticos, também soçobraram.
Números reais
Tudo isso está nos números: entre janeiro de 1996 e dezembro de 2003, o Grande ABC perdeu em termos absolutos 27,02% de Valor Adicionado, espécie de PIB (Produto Interno Bruto). Para comprovar que a crise se concentrou principalmente na região, a Grande São Paulo de 39 municípios acusou baixa de apenas 8,57% de produção de riqueza no mesmo período. Sozinhos, os sete municípios da região representaram 74% das perdas de Valor Adicionado da Grande São Paulo — um total de R$ 11,3 bilhões quando comparados, ponta a ponta, os números de janeiro de 1996 e de dezembro de 2003. A Capital perdeu apenas 5,06%. Se forem confrontados os números do Valor Adicionado nos oito anos do governo FHC, o Grande ABC perdeu 39% em termos absolutos.
A característica suburbana do Grande ABC, à sombra da cosmopolita São Paulo, motivo pelo qual escrevi o livro “Complexo de Gata Borralheira”, está consumadíssima naqueles números do Valor Adicionado, com reflexos em tudo que gira em torno dessa medida de valor de produção. Com VA menor, os repasses do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) sofrem de contínuo enfraquecimento. Num período semelhante ao do estudo sobre o Valor Adicionado, de janeiro de 1996 a dezembro de 2004, o Grande ABC desindustrializado de forma tão comprometedora perdeu R$ 481 milhões de repasse do ICMS. Esse valor não é cumulativo. Refere-se exclusivamente à comparação ponta a ponta do período analisado. No conjunto, os municípios do Grande ABC perderam 38,4% de ICMS no período, contra 28,4% de São Paulo.
A diferença entre a região e a Capital é recorrente em outros indicadores e significa o grau de inserção do setor de serviços na composição industrial. São Paulo sofre de desindustrialização menos traumática que a vizinhança menos ilustre. A qualidade de vida dos paulistanos apequena-se diante de confrontos internacionais com localidades igualmente pujantes entre outros motivos porque o Brasil não viveu outra mecânica senão contínuo e perdulário patinar nas duas últimas décadas de crescimento quase nulo da renda per capita.
Outra realidade
A realidade da Região Metropolitana de Campinas é outra quando confrontada especialmente com a do Grande ABC. No mesmo período em que a região, a Capital e a Grande São Paulo perderam Valor Adicionado por causa da quebra industrial, a Grande Campinas registrou crescimento de 35,70%. Explica-se a situação: o vazamento industrial da Grande São Paulo se deu principalmente em três direções no Estado de São Paulo, além da de alguns Estados brasileiros: a Grande Campinas, a Grande Sorocaba e a Grande São José dos Campos.
Situação semelhante a que vem ocorrendo na Europa Ocidental, preocupadíssima com a força de atração dos membros do lado leste da União Européia de mão-de-obra mais em conta, bem preparada, além de chineses e outros asiáticos de trabalhadores disponíveis na mesma profusão do barateamento dos salários que compensam qualificações técnicas inferiores.
Tudo isso significa que os conceitos de desindustrialização do Primeiro Mundo não valem para o Terceiro Mundo, onde o Grande ABC e o Brasil se encontram. A análise de The Economist afirma, com razão, que: “A queda do número de empregos na indústria é popularmente percebida como sintoma de declínio econômico. Ao contrário, trata-se de um estágio natural do desenvolvimento econômico”. O erro não está na abordagem daquela publicação, mas na transposição acrítica para a realidade regional e nacional, como se exércitos de excluídos sociais e empresariais decorrentes da evasão industrial do Grande ABC fossem miragens.
Seria muito bom se o estágio regional e nacional fosse o descrito pelo The Economist, como o que se segue:
“À medida que um país vai enriquecendo, é inevitável que uma menor proporção de trabalhadores seja necessária na indústria. A primeira razão é que as famílias precisam de um número limitado de carros, geladeiras ou fornos de microondas, de modo que ao enriquecer elas tendem a gastar uma parte maior de sua renda em serviços, como férias, saúde e educação, em vez de adquirir mais bens. Em segundo lugar, é muito mais fácil automatizar funções na indústria que em serviços, substituindo homens por máquinas. O crescimento mais rápido da produtividade implica que o setor industrial precisa de menos trabalhadores. Em contrapartida, isso amplia substancialmente a produtividade geral e, portanto, melhora os padrões de vida” — relatou a revista norte-americana.
Oitava maravilha
Seria a oitava maravilha do mundo se o Grande ABC e o Brasil tivessem atingido esse estágio, mas entre os muitos mata-burros que cerceiam a cavalgada em direção ao Primeiro Mundo está a asfixiante carga tributária que praticamente dobrou desde 1988, quando foi promulgada a chamada “Constituição Cidadã”. Viu-se que aquela alquimia de deputados e senadores sem lastro para desvendar segredos econômicos deslocou de vez o eixo desenvolvimentista do País, em contraste com o salto quântico de asiáticos no mesmo período. O peso tributário sobre empresas e pessoas torna o Brasil refém do Estado extraordinariamente gastador.
Os desempregados industriais do Grande ABC em larga escala se tornaram deserdados sociais durante e após o período em que o governo Fernando Henrique Cardoso brincou de abertura generalizada do mercado, sem, como ensinam os astutos chineses, impor contrapartidas que conciliassem atualização tecnológica, produtividade e equilíbrio social.
A violência com que foram lançados para fora do mercado de trabalho industrial mais de 100 mil trabalhadores provocou dramáticos rombos sociais no Grande ABC. Nem mesmo o fato de os setores de comércio e de serviços à época de oferta reduzida e provinciana demais para atender o terceiro potencial de consumo do País, amenizou o quadro. Afinal, as demissões em massa coincidiram com a chegada de grandes conglomerados comerciais apoteoticamente saudados por administrações municipais com um olho abertíssimo no aumento de receitas tributárias e outro fechadíssimo à concorrência de menor porte. Jamais se preparou tão bem o alçapão da informalidade, no caso sinônimo de sobrevivência.
É provável que o Grande ABC vivesse em situação ainda mais complicada se o governo Fernando Henrique Cardoso batesse o pé e resistisse ao chamado neoliberalismo. Algo impensável, porque não havia condições de reagir às exigências do FMI (Fundo Monetário Internacional) que, entre outras iniciativas, simplesmente salvou o País durante as crises internacionais que irromperam o governo tucano. Foram aportes que possibilitaram, inclusive, a reeleição de FHC em outubro de 1998. No janeiro seguinte, o Plano Real foi desestruturado com a desvalorização da moeda e o desespero de muitas empresas que, ao recorrerem a financiamentos internacionais, não conseguiram reescalonamento das dívidas.
Menos pior
Tivesse o Grande ABC permanecido inexpugnável à abertura econômica, provavelmente estaria em situação alarmantemente pior à que The Economist sugeriu tanto para a Alemanha quanto para a Itália:
“O fato de a indústria continuar respondendo por uma proporção tão elevada de empregos e de produção na Alemanha e na Itália pode ser um sintoma de fraqueza econômica. Não só ambos os países fizeram leis para tentar proteger empregos industriais, como um emaranhado burocrático também desestimula a criação de novas vagas em serviços. Eles, portanto, sofrerão mais as consequências de crescente concorrência de países emergentes em anos futuros” — escreveu The Economist.
A diferença entre o Estado de Bem-Estar Social que tanto alemães como italianos transformaram em mandamentos sagrados e o Estado de Mal-Estar Social que caracteriza o Brasil e particularmente um Grande ABC impactado por políticas macroeconômicas mal gerenciadas agrava o descuido do governo FHC. Alemães e italianos acabarão por se dobrar às pressões da globalização e elevarão o grau de competitividade industrial com gradual e suportável quebra de direitos trabalhistas e comedido esquartejamento da rede de proteção social. Aliás, é o que com vagar já vem ocorrendo. Bem diferente, portanto, do que se registrou no Grande ABC onde deceparam-se em curto prazo dezenas de milhares de trabalhadores industriais sem qualquer cerimônia e sem mecanismos públicos compensatórios.
Por isso, qualquer avaliação sobre a realidade industrial do Grande ABC, compulsivamente colada na transposição de modelos idealizados ou já executados no Primeiro Mundo, não merece outra resposta senão o compromisso com contrapontos respaldados pelos fatos.
Os autores da tese de negação da desindustrialização provavelmente solicitariam a ajuda de universitários para desistirem da idéia de que Biro-Biro virou Rei do Futebol, de que Paulo Autran solidificou uma carreira de canastrão insuportável e de que a insidiosidade do câncer é contornável com simples analgésico.
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04/02/2026 OSASCO E VIZINHANÇA GOLEIAM GRANDE ABC