Economia

Uma esteira para dar um
nó no gargalo logístico

WALTER VENTURINI - 09/06/2006

A combinação de logística, siderurgia e turismo pode acontecer no alto da Serra do Mar e gerar desenvolvimento para Santo André. O projeto do TCLD (Transportador de Correia de Longa Distância), a maior esteira de carga do Brasil, desafogaria o transporte de carga por ferrovia e, de quebra, incentivaria o fluxo de visitantes à Vila de Paranapiacaba. Ao contrário de obras como o Rodoanel, que provocam polêmica entre defensores do meio ambiente, a construção da esteira é vista como alívio aos índices de poluição do ar.


 


O projeto está planejado para transportar por ano cerca de seis milhões de toneladas de minério de ferro de Minas Gerais para os fornos da Cosipa (Companhia Siderúrgica Paulista), em Cubatão. Com 18 quilômetros de extensão, a esteira vai ampliar a capacidade de transporte ferroviário entre a Grande São Paulo e a Baixada Santista. Atualmente a carga é levada à siderúrgica pela linha férrea que desce a Serra do Mar pelo sistema de cremalheira, que utiliza um terceiro trilho dentado e engrenagens para movimentar os vagões e tornar a viagem segura. Com a linha livre, cargas com maior valor agregado também poderão subir a serra de trem. Esse transporte hoje é feito por pesadas carretas.


 


A mudança de modal possibilitará economia de combustível -- o transporte ferroviário é em média 30% mais barato que o rodoviário -- e menos poluição, com a redução de gases expelidos por caminhões. “A cremalheira representa um gargalo para o transporte ferroviário de cargas em direção à Baixada Santista e ao Porto de Santos por causa da limitação de capacidade. O TCLD vai permitir que novas cargas e novos clientes utilizem o transporte ferroviário, com ganhos para o meio ambiente e redução do Custo Brasil” -- afirma o superintendente de Planejamento da MRS, Félix Lopes Cid. A obra, com custo estimado em 120 milhões, deverá ser financiada pela MRS, empresa controlada por grandes siderúrgicas como Usiminas, CSN (Companhia Siderúrgica Nacional), Gerdau e Vale do Rio Doce. Não por acaso, a Cosipa é também controlada pela Usiminas. Em outras palavras, existe grande interesse que a obra seja realizada. “É uma solução logística para o crescimento da nossa economia e para o fortalecimento do transporte ferroviário” -- avalia Félix Lopes Cid.


 


A previsão inicial da MRS era de que a obra começasse no primeiro semestre deste ano, mas o processo de licença ambiental ainda está em curso. A empresa conseguiu licença prévia com o Estudo de Impacto Ambiental e apresentou o documento ao Consema (Conselho Estadual de Meio Ambiente). O estudo prevê medidas de compensação como criação de museu e estímulo ao ecoturismo. “O projeto da esteira representa série de elementos favoráveis. É um investimento que abre perspectivas e desobstrui um gargalo na logística. A gente tem alguns atrativos do ponto de vista de áreas e de qualificação do Eixo Tamanduatehy” -- analisa o secretário de Desenvolvimento Econômico e Ação Regional de Santo André, Luiz Paulo Bresciani.


 


Caro e demorado


 


Os elogios ao projeto advém de razão simples: a esteira vai substituir um transporte caro e demorado entre a Usiminas e a Cosipa. A operação para transportar o minério para a Cosipa envolve composições com até 130 vagões que vêm de Minas Gerais e passam pelo centro de São Paulo de madrugada. Assim que os vagões chegam a Paranapiacaba, a composição começa a ser dividida em comboios menores para vencer o desnível de 800 metros até Cubatão. A MRS traz de Minas Gerais 100% do minério consumido pela usina de Cubatão.


 


A esteira terá capacidade para transportar 1,8 milhão de toneladas por ano, potencial que não deve demorar muito para ser integralmente explorado. O projeto do TCLD se inscreve em perspectiva de crescimento das atividades da MRS. No ano passado a empresa transportou cerca de 110 milhões de toneladas de carga, 12% a mais do que em 2004. Até 2009 de atingir 180 milhões de toneladas.


 


A esteira tem papel estratégico ao crescimento planejado. Santo André poderá ganhar muito com o novo modal. “A linha atualmente operada pela CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) e MRS Logística ficará aberta para o transporte de cargas com maior valor agregado, de produtos mais qualificados. Com isso, os terrenos do Eixo Tamanduatehy passam a ser opção como centros de logística. Temos de lembrar que hoje a logística não só armazena, mas também embala e coloca no container. Temos a oferecer área e know-how de administração pública e ação política junto a eventuais parceiros e clientes” -- lembra o secretário-adjunto de Desenvolvimento Urbano e Habitação, Fernando Bruno. Já o secretário de Desenvolvimento Econômico e Ação Regional, Luiz Paulo Bresciani, faz questão de enquadrar o projeto do TCLD no conjunto de ações na área de transporte que devem causar impacto no Grande ABC. “A esteira representa um plus à potencialização do sistema que inclui o Rodoanel e o Ferroanel” -- pondera o secretário.


 


O trajeto da esteira começa no distrito de Campo Grande. A MRS planeja construir uma estação de transbordo de carga e silos para armazenagem para evitar que o minério em contato com o terreno atinja os mananciais. A passagem pela Vila de Paranapiacaba será contornada por meio de um túnel para preservar o sossego local. Em audiência pública realizada em maio com moradores da Vila, a MRS apresentou as linhas gerais do projeto. Ao contrário de reuniões semelhantes para a discussão de obras como o Rodoanel, quando as críticas foram diversas, na reunião sobre a esteira foram feitos alguns reparos ao projeto. Nada que não seja contornável na fase de execução da obra ou como compensações a serem oferecidas pela empresa.


 


O TCLD será construído sobre a velha funicular, antiga estrada de ferro que movimentava os vagões com sistema de cabo de aço. A estrutura foi abandonada depois da construção da cremalheira, em 1976, sistema em que os vagões se locomovem por meio de rodas dentadas e engrenagens. O sistema funicular e o conjunto ferroviário da Vila de Paranapiacaba constituem exemplar único no mundo, exemplo da técnica e tecnologia britânicas do século XIX.


 


É o capital histórico-turístico da Vila que terá valor agregado com a esteira. “O projeto cria uma nova atração para a Vila, como uma passarela até Cubatão. É muito interessante porque possibilitará a visualização da Serra do Mar e as obras de arte de engenharia da ferrovia” -- aposta o subprefeito de Paranapiacaba, João Ricardo Guimarães Caetano. A passarela é via exclusiva para pedestres que acompanham o traçado da funicular e conhecem detalhes arquitetônicos do caminho que durante mais de um século foi responsável pela passagem de boa parte das exportações brasileiras. A SPR (São Paulo Railway), empresa de capital inglês que explorava a linha funicular, foi a ferrovia mais lucrativa em toda a história econômica do Brasil.


 


Além do turismo, a esteira da MRS vai desenvolver também perspectivas de emprego em Paranapiacaba, onde vivem cerca de 3,8 mil pessoas -- duas mil das quais na área urbana. A obra virá em boa hora em um local que sofreu com a desvalorização do transporte ferroviário e a exclusão da linha Santos-São Paulo para passageiros. “A esteira gera nova dinâmica para a Vila de Paranapiacaba na medida em que aumenta o volume de carga que vai repercutir em mais empregos para a região” -- afirma o subprefeito João Ricardo. A secretária de Desenvolvimento Urbano e Habitação, Rosana Denaldi, também está otimista. “Acredito que há uma ação para transformar a região de Campo Grande em área apta à implantação de indústrias, mesmo com as exigências de legislação ambiental” -- observa.


   


Teleférico espera


 


O barateamento do transporte de cargas entre a Região Metropolitana de São Paulo e a Baixada Santista tem várias alternativas. Uma das quais foi proposta pelo advogado e ex-deputado estadual Waldir Cartola dos Santos: a instalação de teleférico entre São Bernardo e Cubatão, com a implantação de estrutura logística para agilizar exportações e importações.


 


Em 1997 o então deputado estadual Waldir Cartola conseguiu aprovar projeto que autorizava a criação do Sistema Teleférico de Contêineres. Da lei consta que preferencialmente o projeto deve ser implantado pela iniciativa privada. Apesar de aprovada, nenhuma empresa se manifestou interessada na alternativa. “A proposta está de acordo com as modernas linhas de gestão pública, de parceria com o setor privado. Possibilita rápida viabilização por meio do regime licitatório estadual sobre concessão de obras e serviços” -- garante Cartola.


 


O projeto do Sistema Teleférico de Contêineres prevê a ocupação de faixa de dois mil metros de extensão em linha horizontal, com desnível de aproximadamente 300 metros, entre São Bernardo e Cubatão. A capacidade de carga seria de 320 toneladas por hora. O trajeto seria feito por contêineres de 20 toneladas em aproximadamente 20 minutos. O funcionamento seria ininterrupto com compensação de carga para subida e descida, isto é, a cada container que subisse, outro faria o trajeto inverso. A compensação de carga entre subida e descida é a chave para que o sistema funcione com pouco consumo de energia. De acordo com a proposta de Waldir Cartola, um motor de 60 hp (elétrico e de baixa potência) seria suficiente para movimentar cargas acima e abaixo da serra. Teleféricos de cargas já funcionam com sucesso na Itália.


 


Entre os benefícios listados por Waldir Cartola para defender a implantação do projeto estão a preservação ambiental, com redução da poluição do ar ao se eliminar o transporte por caminhões; barateamento do frete; preservação das pistas do Sistema Anchieta/Imigrantes com a redução do tráfego de veículos pesados; estímulo às importações e exportações; e dinamização da logística de distribuição do Grande ABC. “É uma visão futurista, comprovada pela duplicação da Rodovia dos Imigrantes e com a implantação do Rodoanel. O ideal é a interligação de todas essas vias. O sistema teleférico deve estar ligado ao sistema de logística da Vale do Rio Doce” -- sugere o ex-deputado. A Vale do Rio Doce é uma das controladoras da MRS, empresa que pretende construir o sistema de esteira de carga entre Paranapiacaba e Cosipa.


 


Para Waldir Cartola, a interligação de diferentes modais de transporte de carga enlaça vantagens estratégicas para o Grande ABC. “O teleférico deve vir com a implantação de um porto seco. Se nada for feito, daqui a 20 anos não será possível descarregar nada no Porto de Santos” -- prevê Cartola, que vê na extensa área da planta da Volkswagen, em São Bernardo, terreno extremamente favorável à implantação de pólo aduaneiro para desembaraço de cargas, armazenamento e distribuição. O ex-deputado defende que, da base do teleférico no planalto, as cargas sejam distribuídas por via férrea e rodoviária. No sentido inverso, na Baixada Santista, a proximidade do sistema com as linhas ferroviárias facilitaria o escoamento para o Porto de Santos.


 


Tornar mais rápido e mais barato o transporte de cargas entre o Planalto de Piratininga e o Litoral é equação que está sendo calculada há séculos. No tempo anterior à chegada dos portugueses, os índios transpunham a serra por meio de trilhas. João Ramalho e o padre José de Anchieta mostraram aos colonizadores europeus que era possível a ligação entre Litoral e o sertão das terras descobertas. As ligações permanentes vieram com a Calçada do Lorena, no final do século XVII, Estrada Velha do Mar, no século XIX, Via Anchieta e Rodovia dos Imigrantes, no século passado. Foram esforços de engenharia para vencer 800 metros, barreira que até hoje exige criatividade e investimentos para superá-la.   


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