Economia

Fora da UTI, mas
sem receber alta

ANDRE MARCEL DE LIMA - 05/04/2007

A principal constatação da 14ª edição do Observatório Econômico reforça uma das principais veredas de LivreMercado: após atingir o fundo do poço nos oito anos de governo Fernando Henrique Cardoso, a região finalmente começou a se recuperar, embora a condição ainda seja desvantajosa. De acordo com o boletim produzido pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Ação Regional de Santo André com suporte do Departamento de Economia da Fundação Santo André, o Valor Adicionado da região cresceu 20% em 2003, 10% em 2004 e 8% em 2005. Mas, como a própria publicação enfatiza, os ganhos recentes não foram suficientes para recuperar a sequência de perdas desde o início da década de 1990, já que o Valor Adicionado de 2005 ainda é 19% inferior ao de 1994. O quadro clínico melhorou, mas a região não está em condição de receber alta porque os sintomas da desindustrialização ensejam cuidados especiais.


 


Embora o Observatório não enverede no campo do porquê, é fácil entender a razão que fez com que o Grande ABC invertesse a tendência a partir de 2003. A resposta está no empuxo proporcionado pelas exportações do setor automotivo. Foi justamente a partir do primeiro ano do governo Lula que os embarques internacionais começaram a crescer de forma mais vigorosa no embalo da desvalorização cambial. Basta recorrer aos dados da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) para reparar que o volume de unidades exportadas saltou de 424 mil em 2002 para 536 mil em 2003, 758 mil em 2004 e 897 mil em 2005. E o Grande ABC é altamente beneficiado porque responde por 62% da produção nacional de caminhões, que embutem alto valor agregado.


 


O problema é que os volumes exportados começaram a cair no ano passado e devem consolidar tendência de declínio neste ano e daqui para frente, como reflexo da exagerada valorização do real. É de se esperar, portanto, arrefecimento ou até queda no Valor Adicionado regional em 2006 e para os próximos anos. A não ser que a região consiga magnetizar investimentos e atrair novas empresas, especialmente indústrias capazes de ampliar a base de geração de riqueza. É propriamente a isto -- alargamento da base de geração de riqueza para não depender de fatores sazonais -- que se dá o nome de desenvolvimento sustentado.


 


Restrições


 


O crescimento do mercado interno bafejado por crédito farto e extenso compensaria o declínio das exportações automotivas, de modo que o horizonte não seria necessariamente nebuloso. Entretanto, o mercado interno absorve predominantemente veículos mais simples e baratos produzidos em regiões mais competitivas em custos, enquanto o Grande ABC é altamente exportador de automóveis de maior valor agregado -- estratégia que serve para compensar custos mais elevados e aproveita o fator logístico garantido pela proximidade do Porto de Santos.


 


A íntima relação entre exportações e comportamento do Valor Adicionado pós-desindustrialização foi dissecada por LivreMercado na edição de janeiro de 2005. Com o título “Somos Reféns do Real Fraco”, a reportagem exibia o seguinte subtítulo: exportações salvaram a lavoura, mas é temeroso apostar todas as fichas no câmbio favorável.


 


O Observatório Econômico mostra ainda que, na contramão da queda de 19% do Valor Adicionado entre 1994 e 2005, a arrecadação própria das sete cidades da região cresceu nada menos que 141,7%. O recrudescimento na cobrança de impostos como IPTU e ISS para cobrir o buraco do ICMS, largamente determinado pelo Valor Adicionado, é outra caçapa cantada por LivreMercado e enriquecida pelos técnicos responsáveis pelo boletim. 


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