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ANDRE MARCEL DE LIMA - 03/05/2007

O Grande ABC concentra 28,44% do Valor Adicionado estadual do segmento de material de transporte -- predominantemente composto de montadoras e autopeças -- e 17,33% do VA da indústria plástica, representada por produtoras de resinas e transformadoras da terceira geração petroquímica. Embora seja considerada a capital do mobiliário, São Bernardo responde por apenas 2% da produção de móveis no Estado. Essas são algumas conclusões extraídas do Atlas de Competitividade da Indústria Paulista, lançado pela Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) em parceria com a Secretaria de Desenvolvimento e Fundação Seade (Sistema Estadual de Análise de Dados).


 


Disponível na Internet pelo site www.seade.gov.br/projetos/fiesp, o Atlas é prato cheio para pesquisadores, jornalistas, investidores e formuladores de políticas públicas que rezam a cartilha do desenvolvimento sustentado. Que essa nova e bem-vinda ferramenta sirva mesmo de plataforma para o planejamento de ações setoriais que coloquem governo do Estado e empresariado no mesmo barco de ações estratégicas, conforme projetam os idealizadores. Afinal, a participação do Estado de São Paulo no PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro caiu de 38% no final dos anos 80 para 31% em 2004. Um tombo de sete pontos percentuais especialmente dramático na Região Metropolitana de São Paulo.


 


Ao entrar no endereço eletrônico basta digitar o nome de um Município para que sejam apresentados dados relativos a seis tópicos: território e população, demografia e saúde, infra-estrutura, educação, emprego e rendimento e economia. Densidade demográfica, porcentagem da população com menos de 15 ou mais de 60 anos, taxa de natalidade, coeficiente de médicos ou leitos do SUS por mil habitantes, renda per capita, consumo de energia elétrica industrial, média de escolaridade da população, valor das exportações, PIB per capita e rendimento médio dos empregados ocupados na indústria, comércio e serviços são alguns dos indicadores municipais que surgem na tela acompanhados das médias da respectiva região administrativa e do Estado para facilitar comparações.


 


Ao escolher São Bernardo, por exemplo, é possível saber que na cidade administrada por William Dib a indústria emprega 42,3% da força de trabalho formal — índice quase duas vezes superior aos 23% do Estado. E que uma parcela ainda maior, de 42,9%, está nos serviços e 12,7% no comércio. É possível saber também que o rendimento médio dos trabalhadores nas indústrias de São Bernardo é R$ 2.663, três vezes mais que o salário médio de R$ 844 no comércio e mais que o dobro dos R$ 1.213 recebidos pelos ocupados na prestação de serviços.


 


Mas é apenas o começo. O passeio virtual se torna ainda mais interessante -- e surpreendente -- ao se acessar variáveis de VA (Valor Adicionado) relacionadas a 30 atividades industriais que vão de artigos de borracha a vestuário e acessórios, passando por itens como bebidas, combustíveis, fumo, madeira, material de transporte, móveis, papel e celulose, plásticos e químicos.


 


Basta escolher o Município, a atividade industrial e uma das cinco variáveis: Valor Adicionado de 2005 em reais, variação nominal do Valor Adicionado entre 2001 e 2005 em termos percentuais, coeficiente de concentração do VA, coeficiente de especialização do VA e coeficiente de localização do VA. O coeficiente de concentração mostra quanto do VA de determinada indústria está presente em determinado Município. Para chegar à conclusão de que o Grande ABC concentra 17,33% do VA paulista da indústria plástica, é preciso somar os coeficientes de concentração de seis das sete cidades da região: Santo André (5,53%), Diadema (4,49%), Mauá (3,43%), São Bernardo (3,39%) e Ribeirão Pires (0,15%). Rio Grande da Serra não tem participação no segmento.


 


A mesma mecânica se aplica para saber que o Grande ABC concentra 28,44% do VA estadual do segmento de material de transporte. É só somar os coeficientes de concentração de São Bernardo (18,17%), São Caetano (5,32%), Diadema (2,49%), Mauá (1,31%), Santo André (0,95%) e Ribeirão Pires (0,20%). A participação de Rio Grande da Serra no setor de material de transporte também é nula.


 


Autopeças


 


Se o Grande ABC concentra as principais montadoras do Estado, incluindo fábricas de caminhões que embutem altíssimo valor agregado, o que explica a participação relativamente modesta de 27% no segmento de material de transporte? A resposta remonta ao fenômeno da interiorização do setor de autopeças, dissecado por LivreMercado com base em números do Sindipeças (Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores) na edição de julho de 2006. Por questões relacionadas a custos e competitividade, muitas sistemistas escolheram o Interior paulista para se instalar a partir dos anos 1990. E, assim, desequilibraram o jogo historicamente favorável à Região Metropolitana de São Paulo e ao Grande ABC.


 


Em 1995 o Grande ABC concentrava 19,2% das 648 unidades industriais de autopeças espalhadas pelo País, pouco menos que os 19% do Interior paulista. Dez anos depois, a região concentrava 14,7% de 548 fábricas de autopeças no País, enquanto a fatia do Interior subiu para 23,5%. No mesmo período a participação do restante da Grande São Paulo permaneceu praticamente inalterada, de 15,9% em 1995 para 15,6% em 2005, enquanto a da Capital paulista despencou de 33,6% para 18,2%.


 


É só navegar no indicador de concentração do VA de material de transporte interiorano para ter a prova dos nove. A participação de Campinas (5,77%) supera a de São Caetano (5,32%), que acolhe fábrica da General Motors. Além disso, várias localidades do Interior concentram mais riqueza que as cidades do Grande ABC no setor que é espécie de símbolo da região. Sorocaba (3,92%) supera Diadema (2,49%), Limeira (2,45%), Valinhos (1,79%), Cruzeiro (1,76%), Campo Limpo Paulista (1,65%), Mogi Guaçu (1,64%) e Vinhedo (1,49%) estão à frente de Mauá (1,31%) e todos, incluindo Hortolândia (1,25%), Jundiaí (1,19%) e Mogi Mirim (1,07%) olham Santo André (0,95%) pelo retrovisor. Na Grande São Paulo se destacam a Capital (8,19%), Guarulhos (3,22%) e Osasco (1,11%).


 


As demais cidades paulistas que acolhem montadoras são São José dos Campos (12,63%), Taubaté (4,35%), Indaiatuba (2,18%) e Sumaré (2,63%). A participação de São José dos Campos no Valor Adicionado é turbinada pela Embraer, já que a produção de aeronaves também está inserida no segmento de material de transporte.


 


Coeficientes


 


Os outros indicadores relativos ao Valor Adicionado são o coeficiente de localização e o coeficiente de especialização. O coeficiente de localização mostra a importância da atividade industrial para determinado Município em relação à média do Estado, o que permite identificar situações em que o setor, embora pouco relevante para o total do Estado, se sobressai na localidade. Já o coeficiente de especialização mede a contribuição de determinada atividade para o VA do Município. Por exemplo: o setor de móveis contribui com 0,29% da geração de riqueza industrial de São Bernardo, embora represente 2% da atividade no Estado, de acordo com o coeficiente de concentração.


 


As variáveis referentes ao Valor Adicionado não esgotam o Atlas de Competitividade. O site oferece ainda panorama igualmente pormenorizado dos empregos, não apenas na indústria mas também no comércio. Traz ainda pesquisa de investimentos anunciados para o Estado de São Paulo tradicionalmente realizada pela Fundação Seade mas que pode ser recortada com base na localidade ou no setor produtivo selecionado.


 


O Atlas da Competitividade foi lançado oficialmente dia nove do mês passado, na sede da Fiesp, durante seminário intitulado Desenvolvimento Industrial Regional, do qual participaram Alexandre Serpa, diretor-titular do Departamento de Ação Regional da Fiesp, José Ricardo Roriz Coelho, diretor do Departamento de Competitividade e Tecnologia da Fiesp, Pedro Benvenuto, da Secretaria de Economia e Planejamento do Estado de São Paulo, Gina Paladino, da Federação das Indústrias do Estado do Paraná, Renato Corona, gerente do Departamento de Competitividade e Tecnologia da Fiesp, Miguel Matteo, técnico da Fundação Seade, o ex-ministro da Fazenda e do Planejamento, Paulo Haddad, além do secretário-adjunto de Desenvolvimento do Estado, Carlos Américo.  


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