O APL (Arranjo Produtivo Local) do Plástico se prepara para superar fronteiras e quebrar paradigmas. Pela primeira vez, um grupo formado por micro e pequenos empreendedores da cadeia de terceira geração vai encarar viagem internacional em busca de novos mercados, tecnologias e experiências. Mais especificamente 20 representantes de 15 empresas embarcam para Düsseldorf, Alemanha, onde participam da Feira K -- o maior evento setorial do planeta programado entre 24 e 31 de outubro. “É a primeira viagem transcontinental para a maioria dos empreendedores” -- explica Joelton Gomes Santos, coordenador de Projetos do APL. Mas essa não é a única iniciativa além das fronteiras regionais. Paralelamente à excursão européia, o APL do Plástico manterá estande institucional na Mercopar -- Feira de Subcontratação e Inovação Industrial, entre 23 e 26 de outubro na gaúcha Caxias do Sul.
Só quem conhece o comportamento padrão de micro e pequenos empreendedores da terceira geração de plástico consegue captar o simbolismo da excursão técnica à Alemanha: cronicamente superatarefados com acúmulo de funções em nível inversamente proporcional à falta de estrutura, empreendedores demonstram resistência para participar de eventos no próprio Grande ABC, quanto mais do outro lado do Atlântico. “A excursão representa a quebra de paradigma” -- anima-se Joelton Gomes Santos.
Pode-se argumentar que o grupo expressa parcela diminuta de estimadas 500 empresas no Grande ABC. Mas a totalidade poderá ter acesso aos conhecimentos internacionais, mesmo que maioria esmagadora dos empresários não coloque os pés fora do Brasil. Ao voltar, os viajantes devem atuar como multiplicadores. “Vamos promover três ou quatro seminários para que repassem experiência aos que ficaram” -- explica Joelton Gomes Santos.
Repassar conhecimento
O compromisso de multiplicar o que aprenderem é espécie de contrapartida. A viagem internacional custa R$ 6,2 mil, mas os empreendedores pagaram apenas metade do valor graças à injeção de recursos por parte dos gestores do APL: Agência de Desenvolvimento Econômico do Grande ABC, Suzano Petroquímica, Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) e IFC (International Finance Corporation) vinculado ao Banco Mundial. Além da passagem aérea de ida e volta, estadias e traslados, o pacote inclui contratação de oito intérpretes -- medida providencial em evento que reúne representantes de cerca de 60 países.
A Feira K é prato cheio para quem busca fontes de matérias-primas, aprimoramento tecnológico e oportunidades para exportar. São mais de três mil expositores entre produtores de insumos, fabricantes de equipamentos, provedores de serviços, clientes potenciais e transformadores.
Já a Mercopar, que contará com estande do APL do Plástico do Grande ABC, tem foco mais restrito. A feira gaúcha realizada desde 1992 é voltada a subcontratações -- ou fornecimento a grandes compradores potenciais como montadoras e sistemistas de autopeças. “Além do APL, pelo menos uma empresa do setor plástico e duas de ferramentaria devem representar o Grande ABC na Mercopar” -- garante Joelton Gomes Santos.
Ao mesmo tempo em que patrocina participação em eventos dentro e fora do Brasil, o APL do Plástico acelera o ritmo dos trabalhos de diagnóstico das empresas. Mais da metade das 42 organizações que formam o chamado grupo piloto já passaram por consultas com técnicos do Centro Universitário da FEI (Fundação Educacional Inaciana Pe. Sabóia de Medeiros), da Ganzelevitch & Vargas e do Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) Mário Amato nas áreas de gestão administrativa, financeira, recursos humanos, marketing, comercialização, vendas, gestão de processos e design. “Os diagnósticos tiveram início em agosto e devem se estender até o final de novembro. Na sequência entram em cena trabalhos de consultoria para preencher lacunas identificadas” -- explica Joelton Gomes Santos.
Pequenos e vulneráveis
O dirigente comenta que consultorias valem ouro especialmente quando se considera a natureza do setor. “A maioria dos empreendedores da cadeia plástica criou o próprio negócio com recursos do Fundo de Garantia e verbas indenizatórias após perder empregos na indústria. Como se tratou de ingresso por necessidade de sobrevivência e sem planejamento, há espaço enorme para aperfeiçoamento de procedimentos nas mais diversas áreas” -- contextualiza, ao expor cenário semelhante ao que provocou inchaço no varejo regional.
As ações convergem para a seguinte comparação sacada por Joelton Gomes Santos: da mesma forma que o Pólo de Cosméticos de Diadema se tornou referência em produtos de beleza, o Grande ABC reúne condições para virar referência nacional e internacional em desenvolvimento e transformação de plástico. A região tem cerca de 500 das 8,3 mil empresas espalhadas pelo País e conta com instituições respeitadas como Senai Mário Amato, Centro Universitário da FEI, Instituto Mauá de Tecnologia e Fatec (Faculdade de Tecnologia). “Mas é preciso aproximar as instituições das necessidades das empresas de modo a eliminar a ruptura” -- destaca Joelton Gomes Santos, para quem a UFABC (Universidade Federal do ABC) precisa engrossar o desejado pelotão de convergência. “É preciso trazer a empresa para dentro da universidade e a universidade para dentro da empresa a fim de criar ambiente propício à geração de inovações.”
Exemplos de oportunidades que podem ser aproveitadas com entrelaçamento de interesses técnicos e empresariais não faltam. O segmento de embalagens para cosméticos cresce 15% ao ano e o de pet food (embalagens para rações) amplia-se ao ritmo de 20% ao ano, embora represente apenas 1% do mercado. “A cadeia plástica do Grande ABC não pode e não vai deixar de ser grande fornecedora de componentes técnicos para a indústria automobilística, mas temos de olhar para os pequenos mercados que crescem a taxas mais elevadas” -- considera Joelton Gomes Santos, cujo currículo comprova seleção por critérios meritocráticos. Técnico em plásticos pelo Senai Mário Amato e tecnólogo pela Fatec, Joelton Gomes Santos acumula 20 anos de experiência em empresas como Plásticos Univel (adquirida pela Valeo em meados da década de 1990), Cofade, atual CGE, TRW, Saint-Gobain e Arteb. Além disso, une a prática no comando do APL ao curso de Gestão de Projetos e Processos na Fundação de Apoio à Tecnologia vinculada à Unesp (Universidade Estadual Paulista).
O chamamento por inovação e exploração de mercados alternativos adquire dimensão especial quando analisado à luz do furacão asiático. A balança comercial brasileira cronicamente deficitária em plásticos tem cada vez mais o dedo de China e companhia. A Ásia respondeu por 23% do déficit de US$ 362 milhões no ano passado, de acordo com a Abiplast (Associação Brasileira da Indústria do Plástico). Especialistas prevêem que em alguns anos o Brasil será inundado por produtos chineses de baixíssimo custo, num fenômeno semelhante ao que soterrou o setor nacional de brinquedos.
“A única solução é a cadeia plástica do Grande ABC se especializar em produtos de alto valor agregado. Não temos escala para competir com os chineses, e mesmo que tivéssemos não seria interessante: a disputa baseada exclusivamente em preços geraria efeitos negativos como queda da remuneração da força de trabalho e do potencial de consumo da região” -- observa.
Distorção tributária
O coordenador de Projetos do APL considera a distorção tributária do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) o principal empecilho à expansão da cadeia plástica na esteira da ampliação do Pólo Petroquímico do Grande ABC. A ampliação de 200 mil toneladas anuais na capacidade de produção de resinas da Polietilenos União tem potencial para agregar 12,5 mil empregos na terceira geração, porque cada 16 toneladas na segunda geração representam um posto a mais na terceira. Número próximo dos 15 mil empregos mantidos pelas cerca de 500 empresas da região.
Mas é preciso que o sobrepeso tributário seja equacionado para que os investimentos não migrem. Estudo do Grupo Unipar mostra que São Paulo é o único Estado que cobra 18% de ICMS nas vendas internas, isto é, dentro da unidade federativa. A alíquota é de 10% no caso da Bahia, 12% no Rio de Janeiro e 12% no Rio Grande do Sul. Ainda de acordo com o levantamento, as taxas das vendas interestaduais também são desfavoráveis ao Grande ABC: 12% contra 6% no Rio de Janeiro e 5,1% na Bahia.
A esquizofrenia tributária é apenas uma das arestas que precisam ser aparadas no âmbito da governança local -- expressão chique que se traduz no ideal de envolvimento de parcela representativa dos atores públicos e representantes dos trabalhadores, além das próprias empresas. A questão fundiária é igualmente essencial, concorda Joelton Gomes Santos. É imperativo que as prefeituras ofereçam áreas bem localizadas a preços convidativos para instalação e expansão de negócios. Avenida Industrial e Avenida dos Estados acenam com terrenos a perder de vista. Entretanto, faz-se necessário criar mecanismos que promovam o descongelamento de áreas que já acolheram indústrias e permanecem embargadas por pendências judiciais.
O APL do Plástico coordenado por Joelton Gomes Santos corresponde à segunda fase da iniciativa associativista. Na primeira etapa, concluída em maio deste ano, o APL foi coordenado pela Agência de Desenvolvimento Econômico e contou com apoio técnico do Sebrae. Menos de 20 empresas participaram de trabalhos de diagnóstico, incluindo do setor metal-mecânico, além de plásticos. Agora as perspectivas são mais otimistas.
O ingresso de Suzano Petroquímica e IFC do Banco Mundial no comitê gestor garantiu aporte de R$ 4 milhões até 2010. “Pelo menos 30 empreendedores dos 42 que formam o grupo piloto participam de reuniões quinzenais na sede da Agência de Desenvolvimento. Além disso, os empreendedores começaram a se integrar em almoços de confraternização e participação em palestras de motivação” -- destaca Joelton Gomes Santos.
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04/02/2026 OSASCO E VIZINHANÇA GOLEIAM GRANDE ABC