A média de remuneração dos trabalhadores privados com carteira assinada em cada um dos sete municípios do Grande ABC é maior que a média brasileira, mas quando se desloca o eixo de comparação para o emprego público, há diferenças consideráveis. Apenas São Bernardo, São Caetano e Diadema conseguem, sempre na média de vencimentos, superar a média nacional. Ou seja: o trabalhador do setor privado do Grande ABC é privilegiado em relação ao trabalhador do setor privado brasileiro. Mas no campo público, há reparos a fazer.
Se o confronto de média salarial do setor privado do Grande ABC for com a média do setor privado dos 645 municípios paulistas, a situação também será diferente, com Diadema, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra ficando abaixo. Já no confronto entre o funcionalismo público de cada Município do Grande ABC e a média estadual, São Caetano, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra caem na tabela. Agora, se a comparação for entre os trabalhadores do setor privado do Grande ABC e o funcionalismo público do Estado, Ribeirão Pires, Rio Grande da Serra e Diadema estão aquém dos valores médios. Ou seja: esses três municípios do Grande ABC perdem no emprego privado para o emprego público do Estado.
Já foi o tempo em que individual e coletivamente o Grande ABC superava largamente tanto a média paulista quanto a média brasileira na administração pública e no emprego industrial. Tempos anteriores ao desmanche da classe média-média durante os oito anos do governo Fernando Henrique Cardoso. A classe média-baixa inventada pelos alquimistas do governo federal não tem nada a ver com a convencional definição de classe média.
Trabalho com dados brutos do Ministério do Trabalho e do Emprego, com base na realidade expressa em dezembro de 2008. As mudanças provocadas pela crise econômica a partir de outubro de 2008 não devem ter afetado a correlação de forças no ano passado a ponto de interferir diretamente na interpretação dos dados.
O Grande ABC colecionava ao final de 2008 contingente de 255.452 empregos industriais com carteira assinada. A cada 100 empregos formais no Grande ABC, 34,82% estavam sob o controle das indústrias, maiores geradoras de riqueza. Tanto são as maiores geradoras de riqueza que o salário médio dos trabalhadores do setor é disparadamente maior em relação a outras atividades econômicas. Menos quando enfrentam o funcionalismo público. Vejam a diferença favoravelmente ao emprego industrial formal no Grande ABC em 2008 em relação à média salarial do universo de trabalhadores de todas as atividades no mesmo Grande ABC:
Santo André, 41,48%.
São Bernardo, 48,42%.
São Caetano, 69,69%.
Diadema, 10,31%.
Mauá, 30,05%.
Ribeirão Pires, 29,25%.
Rio Grande da Serra, 33,09%.
Portanto, quando se ouve ou se lê especialista em porcaria nenhuma proclamando que não há problema com a perda de empregos industriais, porque o emprego do setor de serviços é altamente compensador, desconfiem. Não só desconfiem: descartem. Nesta região e neste País de terciário de baixo valor agregado, a regra geral é de definhamento da média salarial com a quebra da coluna vertebral do emprego industrial com carteira assinada.
A numeralha exibida acima tem de ser observada com certa reserva. Ilações sem conhecimento das especificidades de cada território municipal do Grande ABC têm tanta consistência quanto um prato de gelatina. Algumas conclusões parecem, entretanto, óbvias:
Há forte desequilíbrio em Santo André, São Bernardo e, principalmente em São Caetano, entre a média dos vencimentos dos trabalhadores industriais e a média dos assalariados de todos os setores, incluindo-se a massa de vencimentos do setor público. Mas as razões são diferentes: São Bernardo tem a liderança salarial tão pronunciada do emprego industrial por conta das montadoras e autopeças; São Caetano porque também tem montadoras e autopeças e principalmente porque o setor terciário, principalmente de serviços, é intensamente forte na formalização de empregos de salários baixos; e Santo André porque mantém um grupo de 20 grandes indústrias que passaram por duras transformações, enxugando quadros, e um terciário igualmente de baixo valor agregado dos demais municípios. A desigualdade salarial entre categorias de trabalhadores é um fosso que se consolida nas relações pessoais, comprometendo de vez a potencialidade de desenvolvimento de capital social.
O menor número de trabalhadores industriais — quando se confronta com o total de carteiras assinadas no Grande ABC — está concentrado disparadamente em Santo André e em São Caetano, endereços que mais sofreram com a desindustrialização iniciada nos anos 1980. Dos 174.341 empregos formais em Santo André, apenas 21,23% (37.170) estão nas indústrias. Em São Caetano os números são semelhantes: 23,42% do total de 108.844 trabalhadores formalizados são detentores de empregos industriais (25.494). Em São Bernardo, do total de 263.467 empregos, 37,57% (98.990) são industriais. Os demais municípios, sempre na mesma ordem, de total de empregos e de participação relativa de empregos industriais: Diadema, 102.811 no total e 58.509 (56,90%) na indústria; Mauá, 58.495 no total e 25.379 (43,38%) na indústria; Ribeirão Pires, 22.504 no total e 8.615 (38,28%) na indústria; e Rio Grande da Serra, 3.004 no total e 1.295 (43,11%) na indústria.
No total, o Grande ABC contava com 733.466 empregos com carteiras assinadas em dezembro de 2008, dos quais 34,82% do setor industrial (255.452) e 399.977 (54,53%) de comércio e serviços.
A má notícia é que a tendência de redução da média de participação do emprego formal industrial no Grande ABC não está esgotada. Ainda haveremos de perder novos batalhões, porque a média estadual de ocupação no setor, de 22,51% só está no presente de Santo André e São Caetano. Os demais municípios deverão passar por emagrecimento não só por conta da descentralização industrial em direção ao Interior do Estado mas também porque investimentos tecnológicos e em processos têm a contrapartida da quebra de empregos industriais. Como a média nacional de participação relativa do emprego industrial formal no conjunto da massa de assalariados é ainda menor que a média paulista — exatamente 18,53% — a perspectiva de encolhimento no Grande ABC não é chutometria.
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04/02/2026 OSASCO E VIZINHANÇA GOLEIAM GRANDE ABC