Economia

Quero passear com o professor da
Metodista entrevistado pelo Diário

DANIEL LIMA - 09/05/2014

É isso mesmo: quero dar uma passeada com o professor Sandro Maskio, coordenador do Observatório Econômico da Universidade Metodista, de São Bernardo. Ele deu uma entrevista ao Diário do Grande ABC sobre o mercado imobiliário da região. Disse o que não devia. Se conhecesse o assunto ficaria no mínimo em cima do muro. Mas como tem gente que não resiste a uma pauta pretensamente aquecedora de otimismo, mesmo que um otimismo forjado, deu no que deu: o professor, que parece um cara sério, pisou no tomate e escorregou na maionese do desconhecimento.


 


Se quiser agendar uma turnê pelos municípios da Província do Grande ABC e visitar em companhia deste jornalista que é muito mais brincalhão no convívio diário do que sugerem estas linhas rabugentas, caro professor, estou à disposição. É claro que nos momentos de trabalho sou um cara chato, às vezes impertinente, porque a vida profissional assim o exige. Mas prometo que nos intervalos entre a visita a uma torre de apartamentos e uma torre de escritórios comerciais, vou contar piadas, falar de minha visão sobre o mundo e ouvir atentamente o que o professor tem a dizer, por exemplo, da Metodista, escola que prezo muito. Até o Itaquerão vai entrar na pauta informal da visita. Vou dizer para o professor o que acho de certos dirigentes esportivos quando se referem ao estádio do Corinthians. Até minha Lolita pode entrar na pauta.


 


Caro professor Maskio, tome cuidado com o que afirma sobre o mercado imobiliário. Não é por que o Diário do Grande ABC ou qualquer outro jornal planta a semente de suposto extraordinário feito que o senhor deva regar a árvore a ponto de torná-la frondosa. Cuidado, professor, muito cuidado.


 


O Diário do Grande ABC escreveu hoje, sob a manchete “A cada 25 imóveis lançados no País, um está no Grande ABC”, que a região contou no ano passado com o lançamento de 11.195 imóveis comerciais, residenciais verticais e de hotéis. “O número representou 5,7% do total de 196.292 unidades ofertadas no País.” – escreveu o jornal.


 


Declaração infeliz


 


A matéria assinada por Pedro Souza está redonda, redonda. Conta com dados importantes, como o VGV (Valor Geral de Vendas), que, explica, é a soma dos preços cobrados pelas empresas pelas unidades. Só Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra, na Província, estão fora do estudo da Lopes Consultoria e integra o Anuário do Mercado Brasileiro de 2013. O desfalque é irrisório.


 


É aí, após as informações básicas da reportagem, que entra o professor da Metodista. O professor Maskio recebeu telefonema do repórter do Diário que, certamente, lhe repassou todos os dados. Não resistiu a considerações. Disse que a representatividade do mercado imobiliário da região acima, bem acima da participação regional no PIB (Produto Interno Bruto) do País (5,7% contra 1,7%) “é muito positiva”. “Mostra que há potencial de geração de mais riqueza pelo setor e também de empregados” – afirmou.


 


A lógica é exatamente o contrário, professor. Se o mercado imobiliário da região oferece números relativos três vezes superiores à participação no PIB, alguma coisa está errada, não é verdade? A comparação mais adequada, muito mais ajustada à realidade econômica, porque o conceito de PIB reúne deformações terríveis, seria o Índice de Potencial de Consumo, especialidade de Marcos Pazzini e da consultoria IPC. Basta o professor e o repórter do Diário pesquisarem para se surpreenderem: há empate técnico entre a participação da região no potencial de consumo e no Valor Geral de Vendas do mercado imobiliário.


 


Fosse usado como argumento esse resultado não conferiria ao representante da Metodista razão no raciocínio aparentemente apressado para dar conta à demanda do jornalista. O mercado imobiliário da região – e daí vem o convite para que o professor passeie comigo pelas bandas regionais – está completamente desconectado da realidade detectada nos indicadores de potencial de consumo. Há empreendimentos em excesso para uma classe social (ricos e classe média convencional) inferior à oferta e, ainda mais grave, lançamentos excessivos de escritórios. Os negócios na Província andam de lado porque o dinamismo econômico se esvai gradual e inflexivelmente. Somos dependentes e vítimas da Doença Holandesa do setor automotivo e isso é gravíssimo num País que descentralizou a atividade, agora em declínio.


 


Vem comigo, professor Maskio, e vou lhe mostrar, vou lhe provar, que abundam micos imobiliários na Província do Grande ABC. Repito: abundam micos imobiliários na Província do Grande ABC. Não caia, professor, no papo furado de corretores de imóveis. Eles estão para suas especialidades assim como publicitários para os veículos de comunicação: eles têm uma criatividade inesgotável para transformar pedra bruta em ouro maciço.


 


Lançamentos e vendas


 


Nosso passeio, caro professor, pode começar ou pode terminar no Domo, aquela cordilheira de cimento no entorno do Paço Municipal de São Bernardo. São apartamentos e salas comerciais aos borbotões. Os empreendedores deixaram de combinar com os russos da demanda. Há imensidão de imóveis à espera de compradores. Investidores quebraram a cara. Outro dia mesmo um deles, cansado de esperar pelo milagre da multiplicação de lucros projetados, revendeu por R$ 730 mil um apartamento adquirido por R$ 1,350 milhão. Coisa de maluco, professor.


 


É possível, caro professor, que o senhor tenha confundido as bolas, apressado em responder ao Diário do Grande ABC. A maioria confunde lançamentos com vendas. Lançaram-se tantos imóveis na região no ano passado porque se lançaram tantos imóveis na região nos anos anteriores. A Província faz parte da febre imobiliária nacional.


 


Acontece, professor, que a Província não toma jeito, perde força econômica, a mobilidade social entrou em parafuso faz tempo, a mobilidade urbana é uma calamidade, a mobilidade crítica um acinte e, então professor, estamos como estamos: entregues à própria sorte.


 


Se pudesse lhe dar um conselho, professor, se o senhor não ficar chateado com a sugestão, lhe diria que tome cuidado com todos os jornalistas, inclusive com este jornalista, quando for acionado a dar alguma resposta. Da mesma forma que o repórter do Diário cumpriu a obrigação funcional, estou preparando uma cilada em forma de convite a um passeio imobiliário. O que quero mesmo é lhe dar um trança-pé. Não aceite meu convite, caro professor. E das próximas vezes que ligarem de algum jornal, cuidado. Não ofereça sua credibilidade profissional à consecução de uma barbaridade.
 
O mercado imobiliário da Província do Grande ABC está em situação precária. Somos um arquipélago de micos com alguns pontos muito bem definidos de nichos. Nada mais que isso, professor.


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