Já que estamos em tempo de Seleção Brasileira, e também em tempo de seleções de outros países que disputarão a Copa do Mundo mais tumultuada da história, a Copa do Mundo num País que festejou o anúncio da corrida pela sede e que agora sofre com possibilidades de reações populares embananarem o evento, já que estamos em tempo de seleções, decidi montar uma seleção de problemas que atravancam a atividade industrial na Província do Grande ABC.
Somos a periferia de uma região metropolitana que, como todas as regiões metropolitanas mais importantes do País, sofre com o esvaziamento econômico ditado pela fuga de atividades da indústria de transformação em direção ao Interior. Poderemos reagir? Duvido, porque essa é uma tendência mundial e não encaixamos, e dificilmente encaixaremos, um contragolpe que nos faça dar um cavalo de pau na mesmice improdutiva das instituições covardemente omissas.
A Seleção de Problemas da Província do Grande ABC é composta pelos seguintes craques de complicações:
1. Custo de mão de obra
2. Cultura manufatureira
3. Sindicalismo bravio
4. Deseconomia de escala
5. Qualidade de vida
6. Educação pública
7. Relações familiares
8. Centros de treinamentos
9. Corrupção explosiva
10. Identidade fugidia
11. Despreparo administrativo
Para convocar o selecionado de complicações, fiz uma mixagem entre o conhecimento que detenho da Província, plugado a realidades externas, e uma matéria que o jornal Valor Econômico publicou na edição de ontem. O Valor publicou dados sobre o destino da maioria dos empregos formais no País, comparando as seis principais regiões metropolitanas com o Interior. Tudo com base em cálculos do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre-FGV), com insumos do Cadastro geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho.
As regiões metropolitanas estão cada vez mais encalacradas. Particularmente a Província do Grande ABC vive há mais tempo situação muito pior, porque não passa de periferia da Capital mais rica e problemática do País. A proximidade geoeconômica que poderia e até nos beneficiou grandemente durante longo período foi atropelada pela infraestrutura tremendamente desvantajosa à eficiência. Vamos, então, ao selecionado.
1. Custo da mão de obra. Goste-se ou não, os empreendedores de setores que agregam mais capital, e por isso mesmo pressionados a dar respostas efetivas aos acionistas, olham com desconfiança para a Província entre outros motivos porque as montadoras de veículos são indesejáveis referenciais de custos trabalhistas. Não foram poucas as indústrias que abandonaram a região por conta da explosão de custos ditados pelas vantagens trabalhistas conquistadas pelos sindicatos junto às montadoras. É de conhecimento geral que as fabricantes de veículos são uma ilha de prosperidade econômica porque, entre outros motivos, contam com um ministério informal no governo federal, seja qual for o governo federal, para resolver seus problemas. Os valores cumulativos de rendimentos dos trabalhadores das grandes empresas automotivas, inclusive as sistemistas, que atuam mais diretamente com as montadoras, estão muito acima da média nacional das companhias que chegaram mais tarde ao País e que, estudadamente, fugiram das badaladíssimas (e cada vez mais cenaristas) vantagens da Província.
2. Cultura manufatureira. O que parecia tremenda vantagem no passado, tornou-se obstáculo no presente. Por mais que as grandes empresas, sobretudo as montadoras, tenham investido em tecnologia desde a abertura dos portos no começo dos anos 1990, ainda estamos longe de apagar as marcas de vícios típicos do pioneirismo manufatureiro. Ainda não fizemos a transposição completa de um estado de produção debilitado ante parâmetros internacionais e um modelo plugado em tecnologia de Primeiro Mundo, como grande parcela das fábricas que assentaram bases em outras áreas do Estado e do País. O que era vantagem competitiva no passado, porque cultura produtiva sugeria produtividade maior, tornou-se inibidor de lances mais ousados de competitividade.
3. Sindicalismo bravio. Especialmente na área metalúrgica, e apesar de diferenças de relacionamento trabalhista entre empresários e lideranças sindicais do setor automotivo e de outros setores sem tanta influência, as ações entre capital e trabalho na Província do Grande ABC adquiriram viés de desconforto ambiental que induz a pisadas no freio de investimentos, além de afugentamentos. Há uma concepção generalizada entre as principais consultorias na definição de áreas geográficas palatáveis a novos empreendimentos -- a Província do Grande ABC, também por conta do sindicalismo, é um local a ser evitado.
4. Deseconomia de escala. Já se foi o tempo em que a Província do Grande ABC bradava a vizinhança da Capital, e consequente proximidade do mercado consumidor, como ponto exploratório do marketing de desenvolvimento econômico. A Região Metropolitana de São Paulo tornou-se um caos, mas o caos maior está à Sudeste, da Província encalacrada pela Serra do Mar e por uma logística cada vez mais sufocada. Caímos no conto do vigário do trecho sul do Rodoanel, proclamado pelos populistas de plantão como pó de pirlimpimpim. Com apenas três acessos e um serpentear tangencial dos limites territoriais, o Rodoanel se transformou num bumerangue. A situação só perde em gravidade para o miolo do sistema viário da região, completamente inadequado aos preceitos de competitividade. Quilômetros de congestionamentos diários, turbinados pela ocupação oportunista, fraudadora e especulativa do mercado imobiliário com torres e mais torres de apartamentos e escritórios, fizeram da Província endereço a ser evitado.
5. Qualidade de vida. A insanidade impera nas regiões metropolitanas e pesa muito mais nas franjas geográficas, como a Província do Grande ABC. Cada vez mais trabalhadores da região encontram saída ao desemprego na Capital tão próxima fisicamente mas tão longe logisticamente. Segundo os mais recentes estudos, 20% da População Economicamente Ativa da região têm atividades em São Paulo. Internamente, ou seja, entre os municípios locais, o índice de fuga é quase três vezes maior. Calcula-se que metade da população trabalhadora de Santo André, cidade mais fragilizada economicamente nos últimos 30 anos no País, atua em outro Município. As condições de transporte individual e coletivo são precárias quando se coloca na balança o tempo que se consome de casa para o trabalho e do trabalho para casa e o que resta em forma de ocupação extratrabalho, o seja, pessoal e familiar.
6. Educação pública. A precariedade da qualidade de vida nas regiões metropolitanas reduz fortemente o grau de produtividade educacional. Há mais que indícios, há estudos que asseguram melhor nível educacional das escolas públicas do Interior, onde as condições de vida são notoriamente superiores às das metrópoles.
7. Relações familiares. Também emergem de consultorias especializadas em definir a localização de novas plantas industriais estudos que garantem relações familiares muito mais próximas e afetivas em pontos distantes do turbilhão metropolitano. Há no Interior do País uma abordagem mais intensa de questões familiares e comunitárias, porque a proximidade física não é atropelada por fatores externos como o impacto frenético de pessoas que correm contra o tempo. A disponibilidade de compartilhar o tempo com filhos e parentes próximos convive em grau muito mais elevado com as funções profissionais quando não se tem o cotidiano desgastante das metrópoles.
8. Centros de treinamentos. Tanto as empresas investidoras em novas fronteiras industriais como instituições tradicionais de ensino técnico quebraram a cara do discurso prepotente de que a mão de obra de áreas industriais mais tradicionais asseguraria níveis de atuação fartamente compensadores aos custos salariais mais elevados. A roda girou na direção do Interior. O monopólio de produzir mão de obra qualificada deixou de ser prerrogativa das regiões metropolitanas e também de sub-regiões metropolitanas, como a Província do Grande ABC. Grandes empreendimentos industriais recorrem sistematicamente a três modalidades de suprimento de profissionais: criando centros de treinamentos próprios, estabelecendo parceria com instituições reconhecidamente especializadas e, também, ao requisitarem talentos que não hesitam em trocar áreas metropolitanas congestionadas por lugares bucólicos.
9. Corrupção explosiva. A metástase da corrupção nos setores públicos é muito mais intensa e deletéria nas regiões metropolitanas. As pressões contra empresas por agentes fiscais de todas as instâncias governamentais e o assédio do Poder Público de plantão formam uma corrente de desconforto suportada até que se encontre uma saída em forma de deslocamento da linha de produção a regiões menos acintosamente despudoradas. É enorme a diferença entre ter uma empresa numa região de baixa densidade de empreendimentos e numa área congestionada de negócios como a Província do Grande ABC, onde o séquito de fiscais devoradores de receitas extraordinárias não pode ser considerado irrelevante.
10. Identidade fugidia. Para regiões periféricas como a Província do Grande ABC, nada pior que a sistemática quebra da identidade cultural. Mais e mais se acentua o esfacelamento da cultura local e regional por conta da fragmentação social ditada pela dispersão dos postos de trabalho e pela turbulência da mobilidade urbana. O que se pode esperar de um Município como Santo André que, tendo metade dos trabalhadores fora de seus limites geográficos e sufocado pela deseconomia de escala, senão o correspondente nível de esqualidez na produção de identidade própria, que vem a ser a capacidade de organizar-se coletivamente para debater, questionar e buscar soluções locais? Uma cidade ou uma região sem capacidade de se interagir permanentemente, porque envolta em dar conta do recado de ganhos profissionais, é uma cidade ou uma região sem alma. É uma grande família desgarrada de politicas públicas e de iniciativas empresariais que fortaleceriam laços de cidadania e de comprometimento com o futuro. Sem pressão social, as instituições privadas e sociais tendem à fragilização e, pior ainda, à adesão aos poderosos de plantão.
11. Despreparo administrativo. A Província do Grande ABC distancia-se de qualquer indicador de indução à industrialização. Ainda navegando em águas artificiais de suposta riqueza orçamentária solapada por montanhas de demandas sociais, os administradores públicos locais não se dão conta de que há muito a fonte da industrialização está minguando. Já se foi o período em que Santo André reservava mais de 50% do orçamento anual para investimentos. Outros municípios locais também flertaram com esses números. A margem de manobra se estreita a cada ano. O avanço dos custos vegetativos do funcionalismo público colide frontalmente com o refluxo arrecadatório, mesmo que turbinado pelo aumento da carga tributária própria e em detrimento dos recursos da população. A desindustrialização deixa rastro de perdas tributárias tão evidente e insofismável quanto o enunciado em contrário, de que a industrialização gera novos caudais de receitas. A Província do Grande ABC ainda não aprendeu a lição básica do desenvolvimento social: sem desenvolvimento econômico, não existe saída.
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