Vou ensinar um truque, por assim dizer, aos leitores menos suscetíveis às mensagens cifradas, embora não tão cifradas assim, do mercado imobiliário: quando tudo parecer mais azul, mais se esconderá o vermelho. No caso, o azul significa bons ventos. E o vermelho, complicações. Nenhuma conotação cromática com partido político, que fique bem claro.
Poderia usar o preto e o branco, mas correria o risco de ser chamado de racista. Principalmente se o preto fosse equivalente ao vermelho. Antes, portanto, ser chamado de antipetista, anticolorado, antitricolor, anti qualquer coisa, do que me imaginarem a lançar bananas nos estádios. Bananas, em sentido figurado mas com outros objetivos, lanço aqui mesmo.
A macacada empoleirada nos altos escalões públicos e também nas divisões superiores das instituições privadas e sociais é alvo predileto de quem não suporta mais tanta imprevidência, quando não, safadeza.
Não faltam sinalizadores alarmantes de que a maré de negócios no setor imobiliário não está para peixe. O ciclo considerado extremo de seis anos de crescimento contínuo esgotou-se. Cadernos especiais nos jornais e reportagens contemporizadoras, como a matéria de capa desta quinzena da revista Exame, uma de minhas leituras obrigatórias, seriam até dispensáveis como fontes de desconfiança. As ruas falam por si.
Quem anda um pouco pela região e quem consome informação fora do circuito da mídia comprometida com a carga publicitária do setor imobiliário sabe que não há mais confluência harmoniosa entre oferta e demanda. O Estadão de hoje publicou que as vendas de imóveis novos em São Paulo caíram 45% no primeiro trimestre. Buscam, os representantes do mercado imobiliário, mil explicações recheadas de semânticas para o contrafluxo cantado neste espaço havia muito tempo.
Aliás, por aqui, pela Província, os micos estão espalhados por todos os cantos, ante o silêncio de conveniência e o disfarce da malandragem. Há um festival de ofertas ainda às escondidas ou já declaradamente públicas com preços na bacia das almas. Os eventuais interessados em comprar e que veem imóveis como investimentos sabem que por mais que a mesa seja farta e apetitosa, o melhor é esperar porque faltam comensais. O descolamento entre oferta e demanda vai se acentuar e com isso agravar ainda mais os prejuízos dos apressados e dos ignorantes que caíram no conto de que a Província é uma maravilha, quando maravilha já foi e mesmo assim, quando foi, não era assim uma Brastemp.
Multiplicidade de shows
A reportagem de capa da revista Exame é um show de jornalismo para quem não entende do riscado de jornalismo, é um show de marketing para quem é especialista em marketing, é um show de entusiasmo para quem integra o mercado imobiliário é um show de complicações aos leitores que pretendem orientação adicional sobre o setor.
Por fora da reportagem, em forma de títulos, de manchete, bela viola. Por dentro, em forma de informações, de textos, pão bolorento. É um trabalho de arte cênica que poderia concorrer a um prêmio que tanta falta faz ao jornalismo, o prêmio de dissimulação com classe. Sem contar que há dois pontos que subvertem os enunciados subjetivos de que haveria muito espaço ainda para se refestelar no mercado imobiliário.
Primeiro, a fonte primária dos dados do guia de imóveis da revista Exame é uma empresa especializada em divulgar ofertas dos produtos tendo a Internet como catalizadora das propostas. Desconsideram-se valores de vendas efetivadas; superestimam-se valores anunciados. O caminho entre pretender vender um imóvel por “x” e o de efetivamente vender por “x” é povoado de contragolpes.
Segundo, os números sobre as mais de 80 cidades pesquisadas referem-se a dezembro do ano passado. Nos últimos quatro meses agravou-se de tal forma a distância entre preço solicitado e preço vendido que a matéria tornou-se mais que defasada. Esse período de queda não está contabilizado no valor dos imóveis da pesquisa.
Portanto, com essa dupla inconformidade, o conteúdo informativo da revista Exame não passa, em larga escala e com todo respeito a uma publicação que contribui imensamente para o jornalismo verde-amarelo, de uma narrativa que poderia ter saído do departamento de publicidade. É claro que não imagino Exame a dar tratamento jornalisticamente contundente aos percalços do setor imobiliário. Não se pode esquecer os vínculos da editora com o capitalismo. Até admito que a produção editorial tenha sido um primor em manipulação de subjetividades. A arte de escrever e de editar, principalmente de editar, reduz a poucos especialistas a possibilidade de sustentar a credibilidade de um produto comprometido com o conceito de gerar receitas e lucros acima de qualquer outro referencial.
O setor de construção civil não é o maior financiador dos partidos políticos por acaso. E também não está entre os principais anunciantes da mídia porque gosta de perder dinheiro.
Há publicações que sabem lidar com o mercado imobiliário sem sugerir que esteja entregando a rapadura da seriedade e da independência, mesmo que a olhos mais astutos infrinjam certas regras éticas. A maioria, entretanto, não passa de caricatura. Mentem descaradamente, manipulam estupidamente, omitem vergonhosamente.
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04/02/2026 OSASCO E VIZINHANÇA GOLEIAM GRANDE ABC