Só os ingênuos e os mal-informados insistem em acreditar que o Rodoanel vai melhorar automaticamente a vida econômica da população da Província do Grande ABC. Como o trecho sul, inaugurado em 2010, o trecho leste, em fase de construção, não garantirá à região a combustão espontânea que moveria nossa economia. Muito pelo contrário.
Como o traçado oeste e o traçado sul já têm provado, o conjunto do Rodoanel que ainda não se fechou em obras e inaugurações lembra uma corda pronta a enforcar os sonhos de recuperação econômica e social da região. Tudo porque não temos competência para planejamento territorial voltado ao desenvolvimento. Perdemos de goleada o jogo da competitividade na Região Metropolitana de São Paulo, a qual, por sua vez, perde feio para outras regiões do Estado e várias unidades da Federação.
Nossos administradores públicos têm a péssima mania de se omitirem na preparação de medidas que possam potencializar investimentos em logística. Deixam ao deus-dará da improvisação eventuais e quase nunca confirmados acréscimos do potencial de concorrência ante outras geografias que contam com sistema viário muito mais qualificado. A chegada do trecho sul do Rodoanel nos pegou de calças curtas não porque tenha sido de supetão. A bola foi cantada durante logo período de gestação da proposta. O que nos surpreendeu foi a indolência das autoridades públicas em produzir estudos qualificados para acoplar o viário às necessidade de incentivo ao setor produtivo. Com o trecho leste não será nada diferente. Transplantam-se coração e fígado num corpo que insiste em mergulhar em abusos etílicos de quem continua a viver no mundo da fantasia.
Para variar, numa renitente batucada incômoda de uma nota só, a nota do triunfalismo vazio, o Diário do Grande ABC traz na manchetíssima de primeira página de hoje, no Editorial e na matéria de página interna, informações sobre alguns desdobramentos que o trecho leste do Rodoanel proporcionaria à mobilidade urbana da região.
Afirma o Diário, com base nas informações da concessionária do trecho, que 25,5 mil caminhões serão retiradas todos os dias das ruas da região. Diz também que o percurso entre o topo da Serra do Mar, em São Bernardo, e a região de Guarulhos, será realizado em meia hora, tempo três vezes menor que o de hoje.
Rota de fuga
Faltou ao jornal dizer que a rota de fuga da Província, estimulada pelo trecho sul, será amplamente incentivada. Será mais fácil, ainda, as empresas deixarem o território regional de baixa competitividade numa série de quesitos, entre os quais custo locacional, salários, produtividade do trabalho, qualidade de vida, corrupção endêmica no setor público, sem-vergonhice das instituições privadas aliadas incontestes dos prefeitos de plantão, entre outros. O jornal só vê o traçado físico do trecho leste como só viu o traçado físico do trecho sul que, repetimos, abriu novas porteiras a novas deserções empresariais.
O sequestro da pauta jornalística por agentes econômicos e políticos é um dos maiores problemas dos veículos de comunicação do País. Compra-se com facilidade o discurso enfeitiçador de que determinada obra ou iniciativa será amplamente benéfica à população. O trecho leste do Rodoanel, que contará com apenas uma alça de acesso na região, em Ribeirão Pires, será novo bólido a atingir uma embarcação provinciana que (sempre com base em números irrefutáveis que constavam desta revista digital) terá agravada a queda de riquezas produzidas e consolidadas.
Também sobre isso, basta um passeio rápido por esta revista digital, num recente balanço sobre a mobilidade social após o Plano Real e a descentralização automotiva, entre outros fatores, para verificar o quanto ficamos para trás na geração de famílias ricas e de classe média tradicional. Tudo isso é ignorado porque não convém ao jornalismo açucarado encarar as vicissitudes que nos atingem há pelo menos duas décadas. Vender a ilusão de compromisso com a sociedade regional é um clichê surradíssimo, sem a correspondente prova material de comprometimento.
Tenho cá minhas dúvidas, mais que justas, quanto à projeção de desentupimento das ruas da Província com a chegada do trecho leste do Rodoanel. Estou encafifado não apenas com os números revelados pela concessionária, mas sobretudo porque o Diário do Grande ABC não deu a menor pista do quanto o volume supostamente deslocado diretamente ao traçado do Rodoanel significaria no universo de caminhões que rodam pelas ruas da região. Afinal, 25,5 mil caminhões beneficiados pelo trecho leste do Rodoanel são quantos por cento do total dos veículos pesados que trafegam diariamente pelas ruas locais?
Mais que isso: faltou detalhar como se chegou a esse número de forma que os leitores possam acreditar em algo que tanto pode ser concretamente possível como também não passaria de alquimia.
Seja qual for o resultado, e o passado do trecho sul é prova inconteste, o que teremos de fato e lamentavelmente, porque as autoridades públicas locais são um zero à esquerda em desenvolvimento econômico, é que as indústrias locais ganharão mais e mais motivos para se deslocarem às imediações do novo traçado do Rodoanel para usufruir da velocidade logística combinada com a quebra de custos diversos.
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04/02/2026 OSASCO E VIZINHANÇA GOLEIAM GRANDE ABC