Economia

Primo rico, primo pobre

DANIEL LIMA - 07/10/2009

Quem quer entender e, mais que isso, quem quer fazer qualquer tipo de projeção sobre o futuro próximo do Grande ABC com base no movimento das pedras da recomposição do tecido econômico, não pode deixar o passado de lado. Mais que isso: o passado é fundamental para a compreensão dos fatos e, também, para impedir excessos de otimismo e ajustar as contas com a realidade. O setor moveleiro é prova disso.

Acompanhei atentamente em setembro o noticiário que envolve o setor moveleiro de São Bernardo, principalmente no ABCD Maior. Mais que acompanhar, imprimi todo o material e o arquivei. A conclusão a que cheguei é que a atividade praticamente não saiu do lugar nos últimos 10 anos. Como nos 20 anos anteriores também pouco fez para ser sacudida por conta da concorrência nacional e internacional, não é estupidez afirmar que está atrasadíssima.

Se acham os leitores que estou exagerando, utilizo as declarações do presidente do Sintracom, Cladeonor Neves da Silva: “Em entrevista ao ABCD Maior, o sindicalista disse que nos últimos 20 anos as indústrias moveleiras locais perderam 50% da mão de obra. A previsão é que essas empresas deixem de existir nos próximos cinco anos caso nenhuma medida seja tomada” — escreveu a repórter Cinthia Isabel na edição de 22 de setembro último.

Dois dias antes, foi ouvido o presidente do Sindicato dos Moveleiros, Hermes Soncini. Suas declarações não foram menos dramáticas. “O setor como um todo passa uma fase de transição muito difícil. Percebemos que os móveis ainda não são o objeto de desejo das famílias. A população visa o carro, a casa própria e a televisão de 42 polegadas. A compra de móveis ainda não é prioridade na vida da maioria das famílias” — disse Soncini à mesma jornalista.

Da mesma forma que jamais me fiz de rogado em atribuir às respectivas fontes informações relevantes, procuro compartilhar ou colocar a compartilhamento o conteúdo de matérias que tenha produzido diretamente ou por outros jornalistas que atuaram comigo.

Exatamente por isso recupero do acervo de LivreMercado (revista que dirigi por 19 anos na área editorial e que, desde março último virou “Deus me livre” com Walter Sebastião dos Santos) um denso trabalho publicado na edição de maio de 1998. Malu Marcoccia e Walter Venturini (este, hoje, no ABCD Maior) escreveram o equivalente a 10 páginas de revista sobre o passado e os planos da indústria moveleira no Grande ABC, particularmente em São Bernardo. Esse material estará disponível a partir desta sexta-feira.

Ao colocar ao alcance de todos os leitores aquele texto sob o título “Moveleiros prontos para virar o jogo” na categoria “Economia” deste site, o propósito é mostrar alguns pontos sobre os quais deve girar o senso crítico.

Primeiro, ao contrário do que uns e outros pregam, aquela revista não deixou jamais de acreditar nas possibilidades de fortalecimento da economia do Grande ABC, abrindo páginas para os agentes representativos das mais distintas áreas. Por isso mesmo costumo dizer que erramos mais quando confiamos demais. Segundo, a publicação não se furtou também a contrapor-se às expectativas fraudadas.

A decisão tomada durante o seminário regional do setor moveleiro, encerrado no final de setembro, encaminha-se para a criação de um Grupo de Trabalho no âmbito da Câmara Regional. Segundo o ABCD Maior, um conjunto de 20 propostas foi retirado daquele encontro. Questões de emprego e renda, relações de trabalho, relações com as empresas, responsabilidade social e qualidade de vida saltaram dos discursos para o agendamento.

Tomara que tudo isso saia do campo da abstração, da idealização, e ganhe formas concretas, porque, conforme mostra aquela matéria que inseriremos neste site nesta sexta-feira, praticamente quase nada do que se projetava e do que se ensaiava realizar foi avante. Com um ou outro reparo, aquela matéria está atualizadíssima.

O Grande ABC tem uma vocação irrefreável a industrializar ideias e a produzir vazios.

O que me preocupa é o espaço institucional anunciado para a composição do Grupo de Trabalho do Setor Moveleiro. Salvo apagão mental, a Câmara Regional do Grande ABC entrou para o obituário institucional há muitos anos. Pelo menos nos moldes com que foi concebida, com influência visceral do governo do Estado. O desaparecimento do governador Mário Covas contribuiu muito para isso, assim como de Celso Daniel, no âmbito regional.

Talvez a refundação do estatuto da Câmara Regional seja a melhor saída para a utilização da marca, já que a escassez de realizações descarta o legado sob a liderança de Celso Daniel. As idiossincrasias políticas e partidárias estraçalham os objetivos regionais.

A reinstalação do setor moveleiro na prateleira de prioridades do Grande ABC é uma das inovações da administração de Luiz Marinho à frente da Prefeitura de São Bernardo. Embora a divulgação dê conta de que a iniciativa partiu do Sindicato dos Trabalhadores presidido por Cladeonor Neves da Silva, de fato foi a administração Luiz Marinho quem botou fogo na canjica.

Tanto que o diretor de Fomento à Indústria da Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Turismo, Nilson Tadashi Oda, é o coordenador do projeto. Estranha-se a ausência entre os líderes da ação o titular do sindicato dos empresários do setor, Hermes Soncini. A explicação parece simples: mais próximo do ex-prefeito William Dib, o dirigente não teria demonstrado o comprometimento esperado, mas nem por isso os empresários estão fora do processo.

É bom saber que a administração Luiz Marinho não está procurando dourar a pílula. Um artigo assinado no ABCD Maior por Jefferson José da Conceição, secretário de Desenvolvimento Econômico e Turismo, dá o tom de seriedade. Jefferson da Conceição critica a ausência de políticas públicas e privadas para dinamizar o setor nos últimos anos. Ele escreve:

  • Exemplo claro dessa ausência de cooperação entre os atores da cadeia produtiva e entre estes e o setor público é a Rua Jurubatuba, em São Bernardo. Apesar da proximidade geográfica das mais de 70 lojas de móveis nesta rua, a cooperação efetiva é ainda muito baixa. A Jurubatuba não conta sequer com um site na Internet para informar aos clientes as lojas e as ofertas dos produtos. Não há um posto de atendimento ao cliente. O estacionamento continua a ser um problema crônico. As lojas de móveis não são circundadas de uma diversidade de lojas afins (por exemplo, lojas de cortinas; faça fácil; eletrodomésticos etc), para ampliar o interesse dos consumidores — escreveu o secretário municipal.

Talvez o melhor resumo da ópera histórica dos moveleiros de São Bernardo seja a citação de um quadro humorístico que ganhou fama nos tempos em que a Radio Nacional do Rio de Janeiro cumpria o papel de mídia de massa desempenhado na sequência pela TV Globo, espaço no qual, aliás, a criação artística foi devidamente adaptada. Trata-se do primo rico e do primo pobre.

A diferença é que quando da chegada das montadoras de veículos em São Bernardo, o slogan “Capital do Móvel e do Automóvel” era mais que justificado e por isso mesmo ganhou o mundo. Até então, referia-se aos primos ricos do desenvolvimento econômico local. Mas o tempo passou e tudo o que aconteceu (e que Malu Marcoccia e Valter Venturini capturaram) acabou por antagonizar o primo rico automotivo e o primeiro pobre moveleiro. “Capital do Móvel e do Automóvel” ainda faz parte do dicionário dos desatualizados.

Tomara que a iniciativa do governo municipal de São Bernardo tenha o alcance necessário. Já se foi o tempo em que a cadeia automotiva do Grande ABC com empregos de primeira classe contaminava outras atividades por conta de conquistas sindicais que sobrecarregavam os custos das empresas. Primo pobre e primo rico têm dietas distintas e distintamente devem ser tratados.


Leia mais matérias desta seção: Economia

Total de 1995 matérias | Página 1

04/02/2026 OSASCO E VIZINHANÇA GOLEIAM GRANDE ABC
03/02/2026 LULA ZERA ESTRAGO DE DILMA APÓS NOVE ANOS
29/01/2026 NÃO RIAM: COLÔMBIA É A GRANDE SAÍDA REGIONAL
22/01/2026 METRÔ PODE REPETIR DANOS DO RODOANEL
19/01/2026 UM SINDICALISTA COM A CABEÇA NO PASSADO
15/01/2026 IPTU AVANÇA SOBRE FORTE QUEDA DO ICMS
13/01/2026 IPTU EXAGERADO INIBE ECONOMIA REGIONAL
12/01/2026 GALPÃO E PÁTIO NÃO MUDAM GRANDE ABC
05/01/2026 LULACÁ-LULALÁ NO RITMO DE FRACASSOS
22/12/2025 PIB CATASTRÓFICO DE SANTO ANDRÉ
19/12/2025 ATENÇÃO! PIB SEGUE DERROCADA DE DILMA
15/12/2025 SÃO CAETANO TEM MAIS DO MENOS
10/12/2025 QUANDO MAIS É CADA VEZ MENOS
02/12/2025 SÃO BERNARDO AINDA DEVE 92.372 VAGAS
27/11/2025 SANTO ANDRÉ TIRA PELE DOS MORADORES
26/11/2025 CARGA TRIBUTÁRIA EXPLOSIVA E CRUEL
24/11/2025 DIADEMA É MESMO PIOR QUE SANTO ANDRÉ? (5)
20/11/2025 GRANDE CAMPINAS GOLEIA GRANDE ABC
19/11/2025 FICAREMOS SEM AS MONTADORAS?