Tudo indica que construtores e incorporadores da Província do Grande ABC vão conquistar mesmo espaço nobre de representação ao substituir o frágil Clube dos Construtores e Incorporadores, oficialmente denominada Acigabc (Associação dos Construtores, Incorporadores Imobiliárias) dirigido há duas décadas pelo empresário Milton Bigucci. O empresário de comunicação do setor imobiliário Fernando César Plazezwski, responsável pela organização de um almoço que reuniu mais de três dezenas de convidados do setor em 13 de maio último em Santo André com a cúpula da Administração Carlos Grana, já encaminha medidas legais para constituir uma entidade com novas características.
Não falta a Fernando César Plazezwski o apoio de vários empresários. Até porque, não bastassem as precariedades históricas de representação do setor na região, a crise ainda disfarçada, quando não negada pela mídia, é uma sucessão de lamentos. Há abundância de micos imobiliários na Província do Grande ABC, entre escritórios comerciais e apartamentos. Excesso de oferta e região cambaleante economicamente não dão liga.
A derrocada do Clube dos Construtores e Incorporadores é um processo sistemático ditado pelo centralismo do empresário Milton Bigucci, que controla o maior grupo do mercado imobiliário da Província do Grande ABC.
Enquanto o esfacelamento do Clube dos Construtores e Incorporadores se limitava a problema meramente corporativo, que levou a maioria dos então associados a afastar-se da entidade, tudo era tratado com discrição. Entretanto, quando Milton Bigucci envolveu-se em série de irregularidades, denunciado pelo Ministério Público do Consumidor de São Bernardo como presidente da empresa que mais comete abusos contra adquirentes, as mudanças começaram. O escândalo do terreno em que está sendo construído um empreendimento da MBigucci, denunciado por CapitalSocial, e também as manchetes que colocaram a MBigucci como integrante da máfia imobiliária que agiu nos escaninhos do poder da Prefeitura de São Paulo, em conluio com a máfia dos fiscais, minaram de vez a sustentação do Clube dos Construtores e Incorporadores.
Combinação perfeita
O campo está fértil e preparado para uma nova entidade do mercado imobiliário da região porque há uma combinação dolorosamente perfeita de desencanto com o Clube dos Construtores e Incorporadores e a preocupação com os rumos da economia. Não há interesse dos empresários em retornarem ou participarem pela primeira vez do Clube dos Construtores e Incorporadores. Eles entendem que a presença de Milton Bigucci será sempre um transtorno para quem pretende estabelecer novos vínculos éticos com os gestores públicos.
Os aliados de Fernando César Plazezwski pretendem ver o próprio apresentador do programa TV Imóveis à frente do Núcleo dos Construtores e Incorporadores. Eles entendem que o relacionamento de Fernando César com o grupo de participantes do almoço e também nas instâncias públicas será muito mais produtivo e equânime.
A queixa geral é de que Milton Bigucci sempre colocou o conglomerado que dirige à frente dos interesses da categoria. Tanto que acabou praticamente sozinho no Clube dos Construtores e Incorporadores.
Há informações de que Fernando César Plazezwski já estaria tomando providências legais para a constituição formal do Núcleo dos Construtores e Incorporadores. Ele não teria resistido aos apelos de grande parte dos empresários que foram ao almoço em Santo André em 13 de maio passado. Aquele encontro, por conta da própria data, que remete à libertação dos escravos, é considerado sarcasticamente por vários empresários do setor como o “marco zero” dos construtores e incorporadores da região. “Marco Zero” é o batismo do empreendimento da MBigucci construído em terreno arrematado de forma irregular num leilão da Prefeitura de São Bernardo em 2008 e até agora não apurado pelo Ministério Público.
Convidado, não protagonista
As relações entre Fernando César e Milton Bigucci já não são as mesmas de antes. O evento em Santo André, do qual o presidente da MBigucci participou como convidado corporativo, não como convidado institucional, gerou desgaste entre eles. Milton Bigucci ficou contrariado porque as pretensões de roubar a cena não deram certo. Ele tentou ocupar o microfone e falar aos convidados. Foi barrado por todas as instâncias formais e informais do encontro. Recorreu até mesmo ao prefeito Carlos Grana para romper o protocolo, mas não obteve sucesso. Grana contava com informações precedentes que indicavam a enrascada em que se meteria se Milton Bigucci saísse da condição de convidado comum para a ribalta. Havia convidados dispostos a se retirar do encontro.
Numa tentativa de repassar a terceiros a imagem de que foi uma das estrelas da festa promovida por Fernando César, Milton Bigucci publicou num jornal da região, o ABC Repórter, ter participado do encontro como representante do Clube dos Construtores e Incorporadores, avocando a importância da entidade. Nada mais antagônico à realidade dos fatos de que aquele almoço era um chute nos fundilhos na inoperância do Clube dos Construtores e Incorporadores.
Um flagrante publicado pelo jornal em que aparece ao lado do prefeito Carlos Grana e de Fernando César induz à interpretação de que Milton Bigucci protagonizou o evento quando, na verdade, tanto o prefeito quanto o apresentador do programa TV Imóveis, ocuparam todas as mesas dos convidados em forma de rodízio.
Fernando César Plazezwski teria ficado irritado com a reportagem do jornal, replicada no site do Clube dos Construtores e Incorporadores. Por isso encaminhou mensagem eletrônica a Milton Bigucci, advertindo-o de que fora convidado como empresário, como tantos outros ali presentes, não como presidente do Clube dos Construtores e Incorporadores. Ou seja, o encontro foi corporativo, não institucional.
Reações esperadas
A movimentação de Fernando César e de vários outros empresários do setor em busca da formalização do que deverá mesmo chamar-se Núcleo dos Construtores e Incorporadores do Grande ABC poderá provocar desdobramentos institucionais. Acredita-se que não faltarão tentativas de congelar a articulação. Milton Bigucci estaria disposto a buscar aliados inclusive no Secovi, o sindicato ao qual o Clube dos Construtores e Incorporadores está ligado e que praticamente sustenta a infraestrutura da entidade com sede em São Bernardo porque o quadro associativo é reduzidíssimo.
Certo mesmo é que o discurso de Milton Bigucci, de que só continuava na presidência do Clube dos Construtores e Incorporadores porque não havia ninguém interessado em sucedê-lo, está praticamente soterrado com o surgimento do Núcleo de Construtores e Incorporadores. O que a classe não quer mesmo é ficar subordinada ao presidente da MBigucci quer como dirigente máximo daquela entidade quer como integrante de uma diretoria que, acreditam, Bigucci tentaria controlar com o viés autoritário de sempre.
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04/02/2026 OSASCO E VIZINHANÇA GOLEIAM GRANDE ABC