Sei que pouco vai adiantar escrever sobre o assunto. O Clube dos Prefeitos é uma ficção como ferramenta de desenvolvimento econômico que só se materializa com obras pontuais quando entra dinheiro federal e estadual na jogada e com isso desencadeia planos mirabolantes de investimentos supostamente restauradores da competitividade da região. Entretanto, não posso deixar escapar a oportunidade. Trata-se do seguinte: depois de CapitalSocial revelar que a Província do Grande ABC ocupa a Série B do Campeonato Brasileiro de Emprego e Renda, não teria passado da hora de o Clube dos Prefeitos organizar força-tarefa para estudar a fundo as desigualdades desse indicador na região e, com isso, com o suporte de especialistas, iniciar ação de médio e de longo prazo para dar uma ajeitada no tamanho da encrenca?
Os números revelados pelo IFDM (Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal) com base nos bancos oficiais das mais respeitadas instituições de pesquisas do Estado são de um impacto tão forte na autoestima regional que provocaram reação instantânea: todo mundo se meteu debaixo da cama do acovardamento e do silêncio porque não tem respostas à sociedade. Somos uma região das montadoras e dos sistemistas de altos salários e de uma classe média tradicional consolidada em cima de altas rendas mas comemos o pão que o diabo amassou com montanhas sociais que até outro dia se achavam emergentes.
Dizer que integramos a Série B do Campeonato Brasileiro de Emprego e Renda é sim uma forma de jogar na cara dos podres poderes regionais que quem defende heresias em forma de triunfalismo não passa mesmo de ilusionista programado para enganar o distinto público. Não faltam poderosos de plantão que insistem em propagar bobagens com o cinismo dos malandros. Falam pelos cotovelos em defesa de dados distorcidos. Série B de Emprego e Renda é vexame regional que poderá se caracterizar como fracasso generalizado quando ingressarmos na Série C, ou seja, na Terceira Divisão. O que não está distante, principalmente porque nosso PIB anda caindo pelas tabelas.
Situação muito pior
O pior de tudo é que mesmo a Série B não reflete em detalhes a situação em que nos encontramos no ranking nacional de emprego e renda. Vamos de mal a pior. São Caetano é a que apresenta a melhor colocação entre os mais de 5,5 mil municípios brasileiros, classificando-se em 137o lugar. Os demais conseguem oferecer colocações ainda piores: São Bernardo em 325o, Santo André em 566o, Diadema em 459o, Ribeirão Pires em 1651o, Mauá em 1744o e Rio Grande da Serra na 5048a colocação.
Será que o Clube dos Prefeitos que focaliza temáticas que resultam em liberação de recursos financeiros que só Deus sabe a magnitude ética de uso não poderia dar pelo menos um exemplo de responsabilidade social para valer, sem outras conotações, convocando ou convidando gente que entenda razoavelmente do assunto em busca de saídas? Como os dirigentes do Clube dos Prefeitos não estão nem aí com esses detalhes, porque o substantivo é mesmo o naco de dinheiro grosso que viria para investimentos em acessibilidade, qualquer interlocução que pretenda levar àquela arena institucional um projeto de avaliação da qualidade de vida econômica da região entrará por um ouvido e sairá por outro.
Mexer no vespeiro de emprego e renda possivelmente não interessará aos sindicalistas entre outros motivos porque os números detalhados mostrarão a cara dos resultados obtidos pelas categorias profissionais relacionadas às montadoras de veículos ao longo dos tempos, sempre graças às pressões dos sindicalistas de dentro e de fora das fábricas, e a maioria das demais categorias, entre indústria, comércio e serviços, que vivem muito aquém dos holerites propagandeados como referências do sucesso dos movimentos sindicais.
A repetição monocórdia de ganhos adicionais dos metalúrgicos das montadoras, em forma de PLR (Participação nos Lucros e Resultados) mostra o quando a mídia é descuidada porque só enxerga um lado de moeda, enaltecendo-o além da conta e extrapolando efeitos também além da conta. Poucos se tocam que os trabalhadores de primeira classe das montadoras de veículos são uma porção excepcionalmente favorecida num ambiente de depreciação da mão-de-obra e da escassez do emprego com valores agregados. Daí o afundamento permanente dos índices de desigualdade social.
E as adversidades?
É claro que não estou aqui a pregar o fim dos benefícios históricos dos trabalhadores metalúrgicos das montadoras e de sistemistas. O que se coloca em pauta é o quanto isso significa de adversidades aos demais trabalhadores da região. Não só por conta de afugentarem novos investimentos industriais, porque a espada da equiparação de conquistas sindicais sempre vai pairar sobre a cabeça dos interessados. Mas também porque as desigualdades salariais impõem um jogo de pressões e contrapressões no entorno das montadoras a ameaçar as relações trabalhistas em empresas de menor porte e com muito menos capacidade de negociação da carga fiscal federal em situações específicas de retração do mercado.
Os sindicalistas usam muito bem e com marketing invejável a grandeza histórica das negociações trabalhistas e os elevados vencimentos e benefícios de uma minoria de trabalhadores protegidos por uma rede de forte influência nos chãos de fábrica. Mas omitem o outro lado da moeda que os números oficiais coletados e dimensionados pelos especialistas da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro não deixam dúvidas: há evidente degradação do equilíbrio social na Província do Grande ABC porque os níveis salariais entre outros quesitos que medem a qualidade do emprego com carteira assinada são discrepantes e completamente fora dos próprios preceitos de igualitarismo que os sindicatos tanto desfraldam para efeitos apenas pirotécnicos.
Não teria o Clube dos Prefeitos controlado pelo Partido dos Trabalhadores, tendo à frente o titular do Paço de São Bernardo, Luiz Marinho, a ousadia institucional conectada com os anseios da sociedade de investigar para valer as razões que nos levam a posicionamento grupal tão sofrível e a posicionamentos individuais tão vexatórios.
O que interessa de verdade aos sindicalistas da região e também aos agentes políticos que gravitam em torno dos sindicatos mais organizados é que os privilégios de alguns sejam uma vitrine de reconhecimento às batalhas vencidas no passado e que, entoadas ainda hoje, permanecerão assim num futuro duradouro. A sociedade como um todo que se lasque.
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04/02/2026 OSASCO E VIZINHANÇA GOLEIAM GRANDE ABC