A desindustrialização continua em Santo André. Não bastassem principalmente os anos 1990, quando o Município outrora líder de produção industrial no Estado, atrás apenas da Capital, sofreu duríssimos reveses, o novo século segue a dilapidar o patrimônio produtivo de forma tão agressiva quanto negligenciada pelos gestores públicos. Não à toa quase metade da População Economicamente Ativa do Município trabalha fora. Santo André virou um endereço quase fantasma se o critério de cidadania for levado a sério.
Quem trabalha fora numa metrópole de mais de 20 milhões de habitantes surrados diariamente pela fragilidade da mobilidade urbana não tem tempo para cuidar da casa. Muito menos para vigiar os podres poderes. Quando o gato da participação diária sai de casa, os ratos do oportunismo politico fazem a farra.
Nem mesmo a parcial recuperação econômica regional a bordo da indústria automotiva turbinada pela política de consumo do governo federal nos anos 2000 alivia as dores de Santo André. O outrora “viveiro industrial” ocupa a última posição no G-20, o grupo das 20 maiores economias do Estado, quando é medido o desempenho da indústria de transformação.
Ou seja: o PIB Industrial de Santo André é um horror que nenhuma Administração Municipal deu tratamento preferencial ao longo dos anos. E afeta também o PIB Geral. A indústria é a principal geradora de riqueza numa região em que o terciário é de baixo valor agregado. Não temos consultorias econômicas, indústria do entretenimento, sistema financeiro, casas de espetáculos e tantas outras atividades que fazem da Capital a Cinderela que o gataborralheirismo regional tanto inveja.
Legado destroçado
A Administração Celso Daniel pelo menos deixou planos e projetos que os sucessores na Prefeitura de Santo André tanto torpedearam. O prefeito Carlos Grana está anunciando a destruição do Eixo Tamanduatey. A necessária atualização do projeto com arte e em sincronismo com os pressupostos com que foi concebido será substituída pela tentativa de industrialização a qualquer preço, derivada da reunião de leigos em urbanismo e macrogestão econômica instalados no chamado Conselho de Desenvolvimento Econômico comandado pela vice-prefeita e secretária da pasta, Oswana Fameli. A especialidade de Oswana Fameli ao longo da vida foi dirigir uma opaca e quase inútil entidade que tratava dos interesses das escolas privadas da região.
Oswana Fameli foi catapultada à vice-presidência da Acisa (Associação Comercial e Industrial de Santo André), entidade avalista da candidatura de Carlos Grana ao Paço Municipal e recompensada com vários cargos públicos. Uma pena que a Acisa não tenha proposto um único plano viável para a reconstrução econômica de Santo André. E que se tenha utilizado exclusivamente de uma obra de marketing (o fato de Oswana Fameli ser mulher) para a composição de uma chapa eleitoralmente correta.
Se o indexador inflacionário do PIB Industrial do G-20 for o IGPM (Índice Geral de Preços do Mercado), da Fundação Getúlio Vargas, historicamente utilizado por CapitalSocial, o resultado de Santo André tendo como base 1999 e se estendendo até 2011, é ainda mais catastrófico. Contra uma inflação de 165,67% acumulada de janeiro de 2000 a dezembro de 2011, o setor de transformação industrial de Santo André alcançou apenas 108,47% de aumento nominal. Ou seja: perdeu feio para o desgaste da moeda. Uma queda histórica de 34,52%, ou média de 2,87% por ano. Essa contabilidade leva em conta a comparação ponta a ponta entre o valor registrado pelo PIB Industrial de Santo André em 1999 e o consumado em 2011.
Perdas históricas
A situação de Santo André só não seria apropriada a uma UTI econômica se o passado anterior ao estudo não fosse igualmente constrangedor à letra do hino oficial do Município. Nos anos 1970 a então capital econômica da região contabilizava mais de 50% do PIB Industrial no interior do PIB Geral. Uma dependência excessiva, confortada pelo fato de que o setor irradia desenvolvimento econômico na sociedade ao dinamizar comércio e serviços. O refluxo industrial de Santo André é processo contínuo. Parece não ter fim. E muito menos alternativas satisfatórias.
Querem um prova do crime de que os gestores públicos e as entidades de classe empresarial e sindical brincam com o futuro de Santo André (e também com o futuro da região, porque outros municípios locais não apresentam dados confortáveis no G-20 após a contínua catástrofe dos anos 1990) ao não darem prioridade absoluta à recomposição do tecido produtivo?
Para entender o grau de dificuldades que enfrenta para escalar o poço profundo de perdas industriais, os últimos 12 anos contados entre janeiro de 2000 e dezembro de 2011 são emblemáticos: além de registrar o menor aumento nominal de valores monetários provenientes do PIB Industrial (que envolve produção, salários, impostos), Santo André assistiu passivamente a uma drástica redução de participação relativa do setor no PIB Geral, que abarca comércio, serviços privados e serviços públicos: em 1999 o PIB Industrial de Santo André equivalia a 32,88% do PIB Geral, enquanto em 2011 caiu para 26,24%.
Nenhum dos integrantes do G-20 ao menos resvalou em tamanho declínio. Mesmo o Estado de São Paulo como um todo passou quase incólume em termos de participação relativa do setor industrial no PIB Geral: caiu de 25,68% para 22,53%. Na região, Diadema caiu de 39,06% para 38,64%, Mauá caiu de 34,71% para 33,32%, Rio Grande da Serra de 39,64% para 39,54%, São Bernardo de 33,92%v para 33,68%, São Caetano subiu de 21,29% para 31,81% e Ribeirão Pires subiu de 30,13% para 34,51%.
Esvaziamento silencioso
O fenômeno da desindustrialização convencional neste novo século não foi suspenso em Santo André. Muito pelo contrário. Isso significa que boa parte das 20 maiores empresas, que geram cerca de 80% da riqueza industrial, está deixando de investir na cidade. Quando se contabilizam ganhos tecnológicos de produção, além de investimentos em qualificação de mão de obra, fatores que aumentam a produtividade, o mínimo que se pode desenhar é que os rombos do PIB Industrial em Santo André são muito mais expressivos.
Quando a produtividade do trabalho introduzida principalmente no chão de fábrica é insuficiente para estancar as perdas monetárias da cadeia de produção, tudo indica que a debandada industrial a outros endereços do Estado e do País é muito mais intensa. Há, portanto, um insidioso, resistente e implacável processo de depauperação industrial de Santo André mesmo num período de respiro da atividade na região movida sobrerrodas.
A soma da participação relativa do setor industrial nos sete municípios da Província do Grande ABC (cinco dos quais são integrantes do G-20 Paulista) praticamente se manteve inalterada no período de 12 anos, mesmo com a debacle de Santo André: eram 32,91% em 1999 e passou a 32,61% em 2011.
Isso quer dizer que, após profundas imersões por conta da descentralização industrial por vários pontos do Estado e do País, a Província do Grande ABC, sempre graças ao setor automotivo, ao menos manteve pelo menos internamente o tônus de produção industrial. Não fosse Santo André com perdas pesadíssimas, a Província teria registrado melhoria relativamente satisfatória.
Como os tempos de bonança ficaram no passado recente, quando o País viveu ventos macroeconômicos mais que favoráveis que incentivaram o consumo e fizeram emergir uma classe média popular, os dados dos últimos três anos (2012, 2013 e deste 2014) vão revelar muitos estragos na região. Principalmente em Santo André, campeã absoluta em desidratação industrial do G-20.
Abaixo de todos
A perda da indústria de transformação de Santo André entre 2000 e 2011 não tem paralelo entre os grandes municípios paulistas. Quem menos cresceu nominalmente no período, mas acima de Santo André, foi São José dos Campos, com 131,69%. A maioria ultrapassou a marca de 200%. Não é a primeira vez que CapitalSocial alerta dirigentes públicos e privados sobre as desvantagens competitivas que acrescentamos anualmente ao portfólio de complicações. Os esparadrapos logísticos como o trecho sul do Rodoanel não escondem os hematomas do enfraquecimento econômico. Muito pelo contrário: se transformaram em portas de saída aos incomodados com o Custo ABC. Perdemos a guerra de guerrilhas de desenvolvimento econômico.
Só a indústria automotiva tem salvado a região, mas isso é um paradoxo inquietante: quanto mais o setor se mantiver importante internamente, mais cavamos a própria sepultura. Os referenciais de salários e ganhos extraordinários ditados pelas montadoras e sistemistas (empresas que giram diretamente no entorno das fabricantes de veículos) afugentam investimentos de outros setores.
Ninguém quer se aproximar dos custos automotivos sem contar com as vantagens comparativas do setor em forma de lobby que reduz a carga fiscal de forma cíclica. Santo André é menos dependente do setor automotivo e isso tem sido péssimo porque não criou alternativas econômicas para contrabalançar as deserções ao longo dos anos. Santo André, portanto, fica apenas com o ônus da desindustrialização que outros municípios locais amenizam no novo século com a sequência de recordes de produção de veículos. Não somos uma Detroit, escandalosamente dependente dos automóveis, mas também estamos longe, muito longe, de recolher algumas vantagens potenciais de quem está tão próxima da Capital.
Voltaremos ao assunto na próxima segunda-feira.
Total de 1995 matérias | Página 1
04/02/2026 OSASCO E VIZINHANÇA GOLEIAM GRANDE ABC