Há gente séria e há gente espertalhona metida na ressurreição de uma idéia tão antiga quanto improdutiva para a economia do Grande ABC: o Pólo Tecnológico.
A idéia é tão improdutiva quanto antiga porque não prosperou, não porque o assunto deva ser descartado do projeto de reestruturação da economia da região.
Apesar de o noticiário pecar por imprecisões e superficialidade (e olhe que vasculhei todas as fontes possíveis) há nítidas impressões digitais de que tem gente querendo vender a possibilidade de que o Pólo Tecnológico é coisa fácil de implementar.
Ainda bem que há vozes ponderadas a puxar o breque de mão da racionalidade. Não faltam barrichellos loucos para tornar o assunto pauta política e partidária. As eleições proporcionais e majoritárias estão aí, ano que vem.
Para azar dos triunfalistas e inconsequentes de sempre ainda há no jornalismo do Grande ABC quem tenha memória e arquivos. E por isso mesmo não se deixa levar por mensageiros de falsas novidades que se utilizam de embalagens novas para ludibriar o distinto público.
Tomara que o Clube dos Prefeitos e a Agência de Desenvolvimento Econômico do Grande ABC não se deixem levar por ilusionistas e oportunistas que ameaçam contaminar os profissionais sérios que ali desenvolvem atividades.
Tomara também que o Clube dos Prefeitos e a Agência de Desenvolvimento Econômico não façam do Pólo de Tecnológico a espetacularização prestidigitadora do marketing regional.
Esse negócio de visitar rapidamente outros endereços que contam com esses centros de inovação tem certo valor, mas, convenhamos, apresenta sentido semelhante ao que alguém que visita o zoológico e se acredita pronto para falar do mundo animal.
Esse pessoal esquece que o mundo da economia é feito de especialistas. Um consultor que tenha intimidade com pólos tecnológicos deveria ser requisitado a toque de caixa até para que mostre aos mais deslumbrados que aquilo que pensam que é um leão não passa de macaco.
É impossível envolver-se com esse assunto sem buscar no passado a argamassa de argumentação. As quase duas décadas da LivreMercado que comandei com uma equipe de jornalistas de primeira classe, doutrinada a refletir e não apenas a informar, é a base da sustentação da afirmativa de que o Pólo Tecnológico que voltou à tona precisa ser mais bem tratado por todos.
E que não pode permitir demagogias eleitoreiras. Pelas manchetes ou quase todas as manchetes que anunciaram a visita do ex-governador Geraldo Alckmin, incrivelmente levado à Secretaria de Desenvolvimento Econômico do governo José Serra, tem-se a impressão de que ingressamos no melhor dos mundos. Até transpira a falsidade de que já temos o Pólo Tecnológico, tal a dificuldade de se encaixar em algumas notícias a diferença entre sonho e realidade.
Para que nenhum leitor seja levado a conclusões enviesadas, avisamos que, por enquanto, o Pólo é de intenções. E repetimos que, a depender de algumas individualidades, deve mesmo ser levado a sério desde que, elementar, se saiba exatamente de que pólo, afinal, trataremos. Pólo de bolinha de gude ou pólo de enxadrismo. Sim, porque se fala tanto em Pólo Tecnológico mas não se tem a vaga idéia da vocação regional. Aliás, a maioria não tem a vaga idéia ou a memória é curta, porque já respondemos a essa questão há muito tempo numa Reportagem de Capa de LivreMercado, sob o título “Nosso Futuro é de Plástico”. Mas isso é assunto para outro capítulo.
Há quase 13 anos entrevistei a pesquisadora Maria do Carmo Romeiro, então coordenadora do Inpes, braço de estudos do então Instituto Municipal de Ensino de São Caetano, o Imes que virou USCS. Sob o título “Mão-de-obra tecnológica exige cruzada regional”, resumi no lide (abertura do texto jornalístico) o conceito que predominou na matéria:
Antes de seguir adiante com este primeiro artigo de uma série que será curta mas profunda para a compreensão do requentamento do Pólo Tecnológico do Grande ABC, faço um parênteses: o acervo de 19 anos de LivreMercado sob meu comando editorial pertence legalmente à empresa que represento, a DLC Editora de Jornais e Revistas. A Best Work Consultoria Empresarial, absorveu num contrato de cessão de direito apenas a marca Livre Mercado.
Sábia decisão do presidente Walter Santos, porque, de fato, de fato, ele jamais entenderia o tesouro de credibilidade, ousadia, determinação e, sobretudo, de reflexão sobre a economia e a sociedade do Grande ABC, tudo sedimentado, repito, por uma equipe de jornalistas da qual sempre tive orgulho. Uma equipe, aliás, culturalmente preparada a escrever para revista dentro das oficinas de LivreMercado.
Voltando à entrevista de Maria do Carmo Romeiro, capturamos vários parágrafos que precisam mesmo ser transportados para o momento, principalmente como prova do quanto o Grande ABC nada, nada, nada faz de fato:
É dispensável lembrar que tudo o que foi projetado jamais foi sequer equacionado, mas num ponto discordo da previsão da pesquisadora: o Grande ABC jamais alcançou o surto de empregos tecnológicos que muitos esperavam. Muito pelo contrário, como estamos demonstrando em vários capítulos da série “Metamorfose econômica”: vivenciamos no período de governo de Fernando Henrique Cardoso uma autêntica hecatombe no mercado de trabalho, com a sinistra combinação de desemprego elevadíssimo, rebaixamento do contingente de assalariados de classe média em níveis exorbitantes e preenchimento de vagas de baixíssimas remunerações.
Esta nova minissérie deverá ter no máximo quatro capítulos. Um dos quais será reservado ao que se está pretendendo fazer do Pólo Tecnológico do Grande ABC, inclusive com declarações sensatas de gente séria e declarações óbvias quando não procrastinadoras dos trapalhões de sempre que ocupam alguns postos estrategicamente importantes em institucionalidades do Grande ABC.
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04/02/2026 OSASCO E VIZINHANÇA GOLEIAM GRANDE ABC