Economia

Emprego industrial esquadrinha
realidade econômica da Província

DANIEL LIMA - 08/07/2014

Jornais impressos e digitais da região dão ênfase excessiva à geração de empregos de comércio e de serviços com carteira assinada. Os editores deveriam ler a entrevista de páginas amarelas desta semana da revista Veja. Li, embora não precisasse. Desde que me entendo agente de informação da economia regional nunca dei bola demais aos postos de trabalho do terciário.


 


Primeiro porque o que dita a economia regional são os empregos industriais, sobre os quais mantenho faro de perdigueiro. Segundo porque os empregos de comércio e serviços, em grande escala, são empregos sem valor agregado. 


 


Tanto é verdade que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa que o refluxo quantitativo do emprego da indústria de transformação ao longo das duas últimas décadas não foi compensado economicamente pelo emprego do terciário, que avançou em números absolutos e relativos de forma expressiva. Resultado: a queda do PIB (Produto Interno Bruto) e do Potencial de Consumo medido pelos especialistas da consultoria IPC prova o quanto perdemos em qualidade de vida e rebaixamento da mobilidade social nas camadas de classe média convencional, além dos ricos.


 


Ótima leitura


 


As páginas amarelas de Veja são uma ótima leitura. O entrevistado da semana é Roberto Giannetti da Fonseca, que, por nove anos, atuou como diretor de Relações Internacionais e Comércio Exterior da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo). Ele se afastou da entidade no ano passado. A revista não explica. Talvez seja porque o presidente Paulo Skaf já estivesse em combinação com o PT para servir de linha auxiliar da candidatura de Alexandre Padilha ao governo tucano do Estado. O tiro saiu pela culatra, ou está saindo, porque Padilha já começou a ser esvaziado pelo próprio PT por fadiga de material entre os paulistas. 


 


O PT vai fazer fita, mas descarregará votos em Paulo Skaf. O presidente da Fiesp será espécie de Paulo Pinheiro de São Caetano, a quem o PT, sem possibilidade de sucesso eleitoral, ofereceu todo apoio à eleição. O importante era ficar com um naco da administração municipal. O agora candidato a deputado estadual Luiz Fernando Teixeira, homem de Luiz Marinho, foi o operador do esquema. 


 


Mas, voltando ao foco do emprego industrial, a reprodução de alguns trechos da entrevista de Roberto Giannetti da Fonseca mostra o tamanho da encrenca estrutural em que a Província do Grande ABC se meteu, encalacrada numa conjugação de fatores que, ao mesmo tempo em que concentra exageradamente os cartuchos na indústria automotiva, observa sem reação o desinteresse de empreendedores de outros setores em fazer do território regional destino de investimentos. 


 


Sem contar outros empreendedores, aqui estabelecidos, que continuam a dar no pé. Principalmente agora que mais um trecho, leste, do Rodoanel, cristaliza-se como rota de fuga. Uma rota de fuga que só os despreparados acreditam que ganhou a forma de logística interna a ser potencializada como ferramenta de novo surto industrial. Até parece que os formuladores (formuladores?) de políticas desenvolvimentistas (políticas desenvolvimentistas?) da Província prepararam o terreno macrorregional para receber o Rodoanel.


 


Leiam, portanto, alguns dos trechos das declarações do ex-diretor da Fiesp:


 


 Mais que olhar esse número (de desemprego baixo no País), é preciso observar a qualidade das vagas. Os melhores empregos são os industriais, que exigem uma formação profissional. Anualmente, o Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) forma 3,5 milhões de técnicos no País. A questão agora é por que investir neles se depois não haverá emprego na indústria? Nosso setor de eletroeletrônicos, por exemplo, sumiu. Em 2006, o Brasil exportou 2,6 bilhões de dólares em celulares. No ano passado foram apenas 147 milhões de dólares, segundo a consultoria Teleco. Milhares de bons empregos desapareceram. As vagas que estão em ascensão são aquelas de meio período, de baixa qualidade, sem produtividade. O brasileiro que pensa que isso não tem nada a ver com sua qualidade de vida no futuro está enganado. O salário que ele conseguirá e o valor dos produtos que terá condições de comprar dependem diretamente da solução ou não desse problema. Esse é o ponto.


 


Encaixe regional


 


O leitor mais exigente e provavelmente o leitor menos antenado pode argumentar que as declarações de Giannetti não seriam assim tão específicas sobre a economia da Província do Grande ABC. Quando se pretende tirar da seringa, qualquer argumento serve. Então vamos a outras declarações do empresário, também na Veja desta semana:


 


 Uma das desvantagens competitivas das empresas brasileiras atualmente é que elas não têm acesso facilitado a vários mercados. Nossos produtos, por pagarem taxas de importação maiores, tornam-se caros e são preteridos por consumidores e indústrias de outros países. Nossos concorrentes mexicanos, chilenos, colombianos ou malaios, que fizeram tratados de livre-comércio, vendem seus produtos mais barato em todo o planeta. Em geral, as indústrias brasileiras perdem para esses rivais tanto em preço quanto em tecnologia. Antigamente, os carros produzidos no Brasil eram bastante competitivos. A Fiat, a Volkswagen e a General Motors vendiam automóveis à China, à Europa e à África. Hoje é impossível imaginar isso. Na comparação com outros veículos, o nosso é muito caro, porque todos os insumos têm preço elevado e trazem uma tecnologia defasada. Nossa dificuldade de exportar manufaturados está criando uma situação perigosa, que é a especialização da produção. Em vez de o Brasil ter uma indústria diversificada e ampla, passa a se concentrar em alguns nichos, no agronegócio e na produção de minérios. Eu não sou contra o desenvolvimento dessas áreas. O problema é que elas não são suficientes para um País do porte do Brasil.


 


Desdenhando a riqueza


 


Os administradores públicos da Província do Grande ABC seguem a desdenhar os efeitos colaterais da quebra contínua do emprego industrial. Houve uma recuperação numérica durante o governo Lula da Silva, após a catástrofe de mais de 85 mil postos decepados nos oito anos de Fernando Henrique Cardoso. Mas os anos Dilma Rousseff estão se tornando uma calamidade. No ano passado perdemos 1.687 postos de trabalho. Nos primeiros cinco meses deste ano chegamos ao déficit de 6.351.


 


Somados esses números às 25.509 carteiras de trabalho que restaram de contabilidade negativa após os oito anos de Lula da Silva, agora alcançamos um acumulado de 33.547 desde 1994. Dá mais ou menos 10 fábricas da Bridgestone Firestone, sediada em Santo André. Não é pouca coisa. E olhe que essa é uma contabilidade do Ministério do Trabalho e Emprego. Não tem nada a ver com os indicadores da Fiesp, sempre mais preocupantes porque envolve os trabalhadores informais do setor.


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