Com os novos números do balanço da indústria de transformação divulgados ontem pelo Ministério do Trabalho, relativos a junho, a Província do Grande ABC acumula perda de 35.289 empregos no setor desde janeiro de 1995. Isso equivale ao desaparecimento de 207 unidades da Rolls-Royce, empresa de 170 trabalhadores que acaba de anunciar desativação em São Bernardo.
Fizeram tanto estardalhaço com a debandada da Rolls-Royce que os incautos poderiam entender que se trata de caso extraordinário. De vez em quando os jornais da região acordam para os infortúnios econômicos locais. São intervenções sazonais instrumentalizadas para propagar como regra de preocupação o que não passa de exceção na agenda editorial voltada à dispersão temática sem entranhamento sociológico com as fragilidades da região.
Desde que passei a acompanhar atentamente os mais diversos indicadores econômicos (e outros tantos de várias áreas) da Província do Grande ABC, sempre pautei observações e interpretações no campo do emprego industrial pelos dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) do Ministério do Trabalho e Emprego.
Há outros indicadores na praça, como os números do Sistema Fiesp-Ciesp, mas os trato com certo desinteresse. Não confio na metodologia e tampouco na abrangência porque as unidades associadas ao Ciesp na região não representam mais que 10% do universo fabril e, diferentemente do Caged, o emprego industrial formal não é o único balizador de informações. Os números dos Ciesps costumam ser mais dramáticos porque alcançam o emprego informal do setor. Não se tem notícia de transparência nas informações. Transparência no sentido de que não se praticam inconformidades que a ferramenta do Ministério do Trabalho e Emprego praticamente elimina.
Dependência automotiva
O emprego industrial em baixa na Província do Grande ABC, após oito anos de recuperação durante o governo Lula da Silva, tornou-se o maior desafio ou o desafio de maior visibilidade a alertar a sociedade como um todo, mas principalmente as instâncias públicas, privadas e sindicais, de que não há perspectiva de alteração do quadro econômico alarmante. Somos dependentes demais da indústria automotiva e a indústria automotiva está cada vez mais competitiva, mais descentralizada e mais seletiva em empregos. Os níveis de produtividade, ainda baixos em relação ao mundo mais atento, deverão ganhar novos impulsos. Isso significa novas baixas de emprego e de exportação, hoje concentradas na instável Argentina.
Os tempos futuros da Província do Grande ABC industrial serão mais complexos e poderão concorrer com os anos Fernando Henrique Cardoso. Naquele período comemos o pão que o Diabo amassou diante da abertura econômica protetora das montadoras e destruidora das autopeças nacionais. Sem contar a guerra fiscal que nos levou centenas de empreendimentos que escaparam da falência e da troca de comando.
O descaramento do Poder Público no trato da economia regional, com reflexos no descaso do governo do Estado e do governo federal, está configurado no noticiário destes dias. Quem não leu no Diário do Grande ABC que a vice-prefeita Oswana Fameli, também secretária de Desenvolvimento Econômico, ocupou manchetes descomunais da área política, valorizadíssima além da conta como integrante de um partido que não é exatamente um aliado eleitoral do PT, a quem está subordinada?
Oswana Fameli, uma obra da engenharia de descalabro negocial da Administração Carlos Grana e a Acisa (Associação Comercial e Industrial de Santo André) retrata com certo exagero mas não muito longe da realidade média o estado de improvisação, descuido, imprevidência e tudo o mais no tratamento da pasta de desenvolvimento econômico na região.
Ceticismo ajuizado
A experiência prática de acompanhar o destino da região há muito tempo torna este jornalista cético sobre o futuro deste território. O barco econômico está afundando enquanto principalmente os agentes incrustrados no movimento Festeja Grande ABC seguem a comemorar êxitos particulares de aproximação geralmente nada republicanas entre as instituições que representam e os podres poderes públicos.
O indicador de emprego industrial formal, ou seja, com carteira assinada, deveria ser juntamente com alguns outros, espécie de painel de controle de um sistema de monitoramento institucional constante para corrigir a rota de desenvolvimento econômico e social da região.
Ao longo das duas décadas e meia de prática jornalística à frente da revista LivreMercado e deste CapitalSocial debruçamo-nos intensamente sobre o comportamento relativo da região em relação a outras áreas do Estado e mesmo do País. As comparações são sempre desvantajosas. Santo André, por exemplo, é imbatível no quesito de reducionismo da força industrial.
A Província como um todo perde feio não apenas para áreas geográficas do Interior do Estado, mas também para o entorno da Capital, na Região Metropolitana de São Paulo. Ou seja: nossa crise econômica não está subordinada exclusivamente aos custos de localização metropolitana, como os ingênuos ou espertos querem fazer crer. Nosso fracasso tem identidade própria. E nada indica que se alterará o grau de perda persistente que tem, repito o emprego industrial como um dos medidores confiáveis.
Salve-se-quem-puder
O que se apresenta em termos de institucionalidade oficial na Província do Grande ABC (ou seja, as prefeituras) e de institucionalidade social (entidades de classe empresarial e sindical) é um regime de salve-se-quem-puder sem o menor pudor humanístico. As próximas gerações vão pagar muito caro pela desídia coletiva dos tomadores de decisões na Província se a trajetória de duas décadas não encontrar um obstáculo benigno a alterá-la.
O livro “50 Tons de Inconformismo”, que estou preparando para lançar no ano que vem e que reunirá 50 textos entre milhares que publiquei nos últimos anos, oferecerá um painel didático a quem pretende compreender por que chegamos aonde chegamos e também por que provavelmente vamos cavoucar ainda mais o buraco rumo ao centro da terra dos ludibriados pelos mandachuvas e mandachuvinhas que se revezam na arte da desgraça festeira.
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04/02/2026 OSASCO E VIZINHANÇA GOLEIAM GRANDE ABC