Uma entrevista do presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC (que abrange São Bernardo e Diadema), disponível nas páginas digitais do jornal ABCD Maior, fortalece a certeza de que as soluções para os emaranhadíssimos problemas da economia da Província do Grande ABC não passarão tão cedo pelos representantes dos trabalhadores empregados. Rafael Marques, bancado pelo prefeito e ex-sindicalista Luiz Marinho para comandar a quase inútil Agência de Desenvolvimento Econômico, tem os olhos fixos, o coração entregue e a alma amalgamada nos interesses corporativos.
Tudo está concentrado nos trabalhadores empregados que integram em larga escala o quadro de associados. O sindicalismo, notadamente o dos metalúrgicos com atuação proeminente nas montadoras de veículos de São Bernardo, bem como nas autopeças de maior porte, é historicamente parte das complicações econômicas e sociais da Província do Grande ABC. Não com a força dominadora que muitos lhes atribuem, mas também não tão distante dos efeitos colaterais como seus representantes querem fazer crer.
O problema do sindicalismo regional, redundância proposital à parte, é que não contribui em nada com a resolução dos problemas que ajudou a criar e a consolidar, os quais poderiam ser sintetizados no aprofundar contínuo da Província integrante da Segunda Divisão do Campeonato Brasileiro de Competitividade Industrial. O chamado Custo ABC, expressão rebocada do Custo Brasil mas com implicações ainda mais graves, porque menos sujeitas a correções, muito dificilmente entrará na pauta sindical. No final dos anos 1990 tentou-se algo revolucionário, uma espécie de encontro das águas, em reunião que acompanhei atentamente. Não mais que um encontro no gabinete do então prefeito Maurício Soares, em São Bernardo, resistiu à intransigência sindical.
Competitividade à deriva
A competitividade industrial da Província do Grande ABC está indo à bancarrota há muito tempo porque os referenciais dos sindicatos de metalúrgicos são incompatíveis com outras atividades econômicas da atividade produtiva. Inclusive do próprio setor metalúrgico de menor porte, fora da órbita das montadoras como parceiros preferenciais de fornecimento de insumos. Disse Rafael Marques ao ABCD Maior que o momento econômico do País é conjuntural, não estrutural.
“Trabalhamos para aperfeiçoar as políticas industriais voltadas ao setor automotivo, como o Inovar Auto, importante política para frear a entrada de importados no Brasil, assim como o Inovar Peças será importante para aumentar a participação das autopeças nacionais na produção de veículos”.
Rafael Marques se esqueceu de dizer que, quanto mais decolarem esses programas especiais do governo federal que visam dar espaço às indústrias instaladas no País, mais a atividade automotiva vai sofrer na Província do Grande ABC. As novas instalações industriais, como se tem provado com a enxurrada de montadoras que aportaram no País nas duas últimas décadas, vão se distanciar ainda mais dos custos desta Província, encalacradíssima na Região Metropolitana de São Paulo.
O cerne da questão que o novo presidente de uma casa de metalúrgicos que começou a ganhar as manchetes com Lula da Silva no final dos anos 1970 não enxerga é que a Província está muito aquém dos níveis de competitividade das demais áreas geográficas do País que atraíram montadoras e autopeças. Perdemos o bonde da história e vivemos num gueto produtivo que atravanca o incremento de outras atividades. O comportamento do PIB Industrial da Província, que vasculhamos permanentemente, comprova essa assertiva.
Debandada ecumênica
A debandada de indústrias da região ao longo dos anos não é obra exclusiva de prefeitos incorrigivelmente desatentos, de governo estadual inoperante em políticas econômicas regionais, nem tampouco de governos federais abusivamente condescendentes com a guerra fiscal, entre outras aberrações que retaliam qualquer pretensão à isonomia. Também estamos comendo o pão que o diabo amassou porque os sindicalistas locais só veem o próprio umbigo e contam com as costas largas do governo federal em medidas protetoras às montadoras e também aos trabalhadores excedentes nos chãos de fábricas. O Brasil sobrerrodas paga a conta sem que, e estudos comprovam, as benesses reflitam em ganhos gerais.
Também esqueceu o novo presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de dizer que, ao se referir às “autopeças nacionais” como beneficiárias do Inovar Peças, a grande maioria é de capital estrangeiro porque políticas esdrúxulas de proteção às montadoras nos anos 1990, ante a paralisia sindical, praticamente destruíram as autopeças de capital nacional. Na Província do Grande ABC a tragédia se prolongou por muitos anos. Boa parte da classe média de verdade, formada por pequenos empresários do setor automotivo, foi dinamitada não só porque políticas econômicas sempre privilegiaram as grandes empresas, principalmente multinacionais, mas também porque os sindicatos locais colocavam no mesmo saco sem fundos de reivindicações empresas de tamanhos distintos. Demandas iguais para empresas desiguais só poderiam dar no que deu.
Se ao presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC faltou tratar com realismo o quadro econômico industrial da região com base no jogo de xadrez de interesses amplos que movem as ambições capitalistas e sindicalistas, quando se refere à política eleitoral o desastre é total. Leiam o que ele disse ao ABCD Maior: “A economia aponta uma possibilidade de retomada, mas o que está atrás disso é a eleição. Os bancos paralisam parte da economia, como o nosso segmento, que depende do acesso ao crédito. Quando vemos a queda da presidente Dilma em pesquisas e, paralelamente, ascensão das ações de certas empresas, simboliza uma clara doença da democracia brasileira. O Brasil ainda é um país imaturo do ponto de vista político porque o mundo financeiro não pode mudar o ambiente econômico prejudicando o emprego dos trabalhadores”.
Besteirol completo
Cá entre nós: a declaração de Rafael Marques é que deveria constar de alguma nova versão de manual dos perfeitos ingênuos, para não dizer outra coisa. O PT, partido ao qual os sindicalistas de São Bernardo estão vinculados historicamente e que há 12 anos comanda o governo federal, é a razão da retração econômica. Não vou descer a detalhes macroeconômicos e microeconômicos para não cansar os leitores, mas o comportamento do mercado reflete os desatinos de políticas econômicas equivocadas.
Se a Bolsa de Valores sobe quando Dilma Rousseff cai nas pesquisas eleitorais, nada é mais fácil de explicar: o governo federal é uma acachapante decepção em matéria de desenvolvimento econômico. O País vive os estertores da farra do consumo, que, combinada com a distribuição de renda em frondosos programas sociais, turbinou a aprovação do governo Lula da Silva. Agimos como cigarra. A conta chegaria um dia, e acabou de chegar.
Seria mais adequado ao presidente do Sindicato dos Metalúrgicos não se meter num assunto sobre o qual parece não ter a menor intimidade, porque assim não escorregaria na casca de banana de uma análise que foge completamente ao domínio de informações defensáveis. O ponto nuclear que os sindicalistas da região tanto temem abordar é simples e foi motivo de reportagem deste jornalista há muito tempo, entre tantas outras matérias, e cujo texto segue abaixo no link: é preciso que os representantes dos trabalhadores empregados retomem a pauta interrompida de reduzir a carga da desigualdade de renda e de benefícios dos trabalhadores da Província do Grande ABC. Somos o paraíso dos trabalhadores de primeira classe, mas não podemos desprezar uma verdade inconveniente – a grande maioria dos trabalhadores de segunda e de terceira classe paga o ônus disso tudo.
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04/02/2026 OSASCO E VIZINHANÇA GOLEIAM GRANDE ABC