Escrevi em dezembro de 2012 que o condomínio residencial e comercial Domo, ao lado do Paço Municipal de São Bernardo, era um dos mais escandalosos micos imobiliários da região. Houve uma chiadeira de gente orquestrada para combater a verdade. Os jornais se calaram, convenientemente. Comecei a ganhar mais fama entre os empreendedores do setor. Os bons empresários me mandam flores. Os prevaricadores, mais que conhecidos, querem me ver preso. Na melhor das hipóteses.
Agora o Diário do Grande ABC anuncia, quase envergonhado, que 181 apartamentos e salas comerciais novos do Domo serão levados à leilão da Justiça Federal. O jornal tenta minimizar a situação ao agir quase que como corretor de imóveis. Realça o empreendimento e procura transformá-lo em oportunidade de negócio extraordinária. Tudo não passa de uma grandiosíssima enrascada. O outro lado do jogo imobiliário, a demanda dos interessados, está na retranca por falta do gás chamado dinheiro. E também porque o mercado financeiro é mais interessante.
Fosse o jornalismo, de maneira geral, algo muito mais comprometido com a sociedade, sem truques marquetológicos de tentar vender a ideia de que é socialmente responsável só porque realiza pesquisas eleitorais, o caso do Domo da edição de hoje do Diário do Grande ABC deveria ser alçado à manchetíssima de primeira página como ponta de iceberg de algo muito mais estrutural e grave: a Província do Grande ABC vive situação dramática com a combinação de recessão persistente de quatro anos (2011, 2012, 2013 e 2014) e um mercado imobiliário despreparado para compreender as sacolejadas da economia. O excesso de oferta numa área impactada pelo baixo desenvolvimento econômico é a receita perfeita para o desespero.
Drama ainda maior
Sobram micos por todos os cantos da geografia regional. No País como um todo também. Só que o País como um todo não mergulhou em perdas do PIB (Produto Interno Bruto) como a Província do Grande ABC. Tudo muito bem escondidinho pela mídia cor-de-rosa, quando não avestruz.
Costumo dizer aos amigos mais chegados que minha consagração como jornalista que se antecipa aos fatos regionais (são dezenas e dezenas de situações) não tem nenhuma qualidade excepcional. Não sou um gênio à solta a clamar reverências de especialistas mundiais em mentes dos bens dotados. Longe disso. Apenas tenho a liberdade e a dedicação de quem não nasceu para se conformar com pratos feitos e geralmente mal temperados, porque enganosos e manipulados a favorecer grupos organizados.
Tenho acertado sempre e sempre sobre a economia da Província do Grande ABC porque a Província do Grande ABC não passa mesmo da Província do Grande ABC. As situações que se apresentam são tão claras à produção de interpretações mais que óbvias para quem se dedica a estudar os números e a realidade das ruas sem preconceitos e privilégios que somente é possível tropeçar quando, na função de comunicação social, se permitem prevaricações.
Pressão total
Sei o que já passei depois de afirmar que o Domo é um barco furado de empreendimento imobiliário, como tantos outros que desafiam os cuidados de locadores e compradores na região. Naquela área do entorno do Paço Municipal encontramos uma cordilheira de apartamentos e salas comerciais que são um atentado ao urbanismo e à mobilidade urbana, quando não à baixa dinâmica econômica da Província.
As autoridades públicas que ocuparam o Paço Municipal no passado e também o atual mandatário, Luiz Marinho, trafegam em termos de decisões na área imobiliária entre o oportunismo que deveria ser apurado detalhadamente pelas autoridades ministeriais e judiciais e a irresponsabilidade de total desdém pela comunidade.
A reportagem de hoje do Diário do Grande ABC sobre o leilão programado para 181 apartamentos e salas comerciais do Domo, por conta de dívida da Fiação e Tecelagem Tognato, ex-proprietária do terreno, expõe as vísceras de um empreendimento cujo desastre econômico vem sendo sonegado à sociedade.
A matéria do Diário do Grande ABC teria todos os contornos de serviço público aos leitores se não descambasse para o marketing publicitário de dar trela ao leiloeiro e também se não enfeitasse um pavão mais que depenado. A legenda da foto na qual desfilam torres do empreendimento é um atentado ao estado de desespero que os corretores de imóveis vivem nestes dias. Vejam só: “OPORTUNIDADE. Com preços bem abaixo do mercado, unidades são opções para investidores”.
À aposta, senhores
Para não dizerem que estou a ver fantasmas, faço uma aposta pública com qualquer que seja o interessado. Trata-se do seguinte: pago o dobro do que for me oferecido se o lote de 181 imóveis que vão a leilão dia 13 próximo obtiver o preço mínimo do metro quadrado para as salas comerciais no valor de R$ 7.837 e para os apartamentos de R$ 5.284. A redução dos valores em 40% em mais que provável segunda etapa do leilão, previamente programado para o dia 27, estará mais próxima da realidade mas, mesmo assim, tenho dúvidas sobre o sucesso do leiloeiro.
O Domo é um mico gigantesco e sistêmico. Mesmo com desconto. E isso, como tantos outros empreendimentos do setor, foi escondido o tempo todo pela imprensa da região. Como se os leitores não fossem consumidores, moradores, investidores, cidadãos com direito a saber o que supostamente a mídia tem obrigação de informar.
Mas o que se pode fazer se a mídia prefere deixar a transmissão de informações tão relevantes, que mexem com o orçamento familiar durante décadas, aos abutres encastelados em entidades de classe que nasceram e floresceram com o único objetivo de grudar na sociedade adesivos que remetem a algo de orelhas grandes que carregam muito peso, não reclamam e estão prontos ao sacrifício inclusive com a engorda da pauta de exportações.
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04/02/2026 OSASCO E VIZINHANÇA GOLEIAM GRANDE ABC