Economia

Tudo vai mudar
após as eleições

DANIEL LIMA - 05/08/1998

A sucessão de Carlos Eduardo Moreira Ferreira à frente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) está antecipadamente definida, por isso a disputa deste 26 de agosto vai ser mesmo pela presidência do Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo). As duas entidades são irmãs siamesas ou podem atuar separadamente, administrando recursos de R$ 700 milhões, algo parecido com o orçamento anual de São Bernardo?


 


A decisão depende de perto de 5,4 mil associados do Ciesp, a entidade formada por empresários. Na Fiesp, composta por sindicatos setoriais, o candidato situacionista Horácio Lafer Piva tem maioria esmagadora de votos. Paradoxalmente, essa supremacia é a arma do adversário, Joseph Couri, cuja campanha está toda voltada para combater o que chama de coronelismo da representação empresarial paulista. 


 


Os titulares das quatro representações do Ciesp no Grande ABC declararam voto em favor de Horácio Piva, mas isso não serve necessariamente como argumento de que Couri é minoria na região. Com 5,5 mil indústrias, o Grande ABC não ultrapassa 800 empresas associadas ao Sistema Fiesp/Ciesp. Desse universo, algumas poucas dezenas participam efetivamente da entidade. Esse, aliás, é um dos argumentos mais fortes da campanha de Couri. O oposicionista afirma que o Ciesp sofre de três males congênitos: está voltado apenas para interesses de alguns grupos, não se importa com pequenas e médias empresas e não mobiliza a energia e a vontade política necessárias para que mudanças sejam processadas.


 


Horácio Lafer Piva decidiu assumir discurso mais agressivo. Ele afirma que o Estado de São Paulo não pode mais dar-se ao luxo de contemplar constante êxodo industrial. "Mesmo concebendo-se como verdadeiro o argumento de que a Capital paulista já alcançou os limites de sua habitabilidade, amplas extensões de território ainda estão disponíveis ao progresso industrial de São Paulo" -- disse num dos discursos que fez na região. Piva prometeu mapear a regionalização da produção no Estado -- agroindústria em Araçatuba, Barretos, Araraquara, Campinas, Marília, Presidente Prudente, Ribeirão Preto; eletroeletrônica em Campinas, Jundiaí, Grande São Paulo, São José dos Campos e Sorocaba; indústria química em Campinas, Cubatão e São Paulo, por exemplo -- e aplicar forte apoio do Sistema Fiesp/Ciesp.


 


Seja qual for o vencedor, é certo que o Ciesp não será mais o mesmo depois dessas eleições. A libertação dos domínios da Fiesp está na marca do pênalti. Com a vantagem de que o Grande ABC tem muitos candidatos a postos estratégicos nas duas chapas.


 


Pesquisa


 


A expectativa de Joseph Couri é de que pesquisa feita em outubro do ano passado se traduza em votos para sua chapa. Produzido junto a 832 associados do Sistema Fiesp/Ciesp, o estudo revelou que 64% dos empresários ouvidos estavam insatisfeitos com a atuação dessas entidades. Dos entrevistados, 35% disseram que desejavam participar mais das decisões tomadas por seus representantes, enquanto 31% entendiam que falta agilidade na condução da política administrativa do sistema. Contingente ainda maior -- 60% dos entrevistados -- afirmou que falta à direção das entidades agressividade na defesa dos interesses da classe. Talvez por isso Couri tenha dirigido toda a campanha de forma contundente contra a direção do Sistema Fiesp/Ciesp.


 


Já a campanha de Horácio Lafer Piva tem mais suavidade. Depois de garantida a vitória na Fiesp, cujo pleito será mera formalidade, o candidato tratou de massificar visitas ao Interior. Seus assessores o instruíram a transformar em bumerangue o discurso do oposicionista. A mensagem é clara no sentido de procurar estigmatizar Couri como concorrente que colocaria em risco o equilíbrio do Sistema Fiesp/Ciesp. Algo análogo ao tratamento que os partidários de Fernando Henrique Cardoso dão a Lula na corrida pela presidência da República.


 


Presidente do Simpi (Sindicato da Micro e Pequena Indústria do Estado de São Paulo), Joseph Couri vai tentar repetir, mas com sucesso, o que quase conseguiu Emerson Kapaz, então dirigente do PNBE (Pensamento Nacional das Bases Empresariais), espécie de dissidência da Fiesp. A diferença na disputa com Moreira Ferreira pela presidência do Ciesp foi escassa. Perdida a disputa pela Fiesp, Couri abandonou o discurso de integração das duas entidades. Ele agora afirma que o Ciesp tem um trajeto que não pode nem deve ser subordinado aos interesses da Fiesp. "Como muitos sabem, e alguns fingem ignorar, o Ciesp é mantido por milhares de empresas associadas, enquanto a Fiesp tem papel tradicional de uma entidade federativa que agrega pouco mais de uma centena de sindicatos empresariais. Públicos diferentes, papéis diferentes, claro!" -- escreveu num artigo distribuído à Imprensa.


 


Couri recorreu à separação que existe no setor comercial de São Paulo, entre a Federação do Comércio e a Associação Comercial, para defender a divisão entre Fiesp e Ciesp: "Uma não tem relação de subordinação à outra. Ambas as entidades funcionam bem, sem traumas de separação. E é assim que deve ser para que não haja mais um fator para corroer a legitimidade das entidades frente a seus representantes específicos" -- disse.


 


As eleições no Sistema Fiesp/Ciesp ocorrem justamente quando sindicatos estaduais ligados ao setor metalmecânico estão se unindo para a montagem da Febramaq (Federação Brasileira da Indústria de Máquinas). Uma iniciativa que vai esvaziar a Fiesp no setor e que pode ser seguida por outros representantes da produção. A Febramaq resolveria antigo problema que atormenta e fragiliza a Fiesp -- a dificuldade de arbitrar conflitos entre a cadeia metalmecânica e os produtores de aço, porque ambas as representações são associadas da entidade. 


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