Economia

Grande ABC perde 34% do PIB,
Grande Campinas ganha 24%

DANIEL LIMA - 16/10/2001

Há algumas semelhanças entre a Região Metropolitana de Campinas e o Grande ABC que permitem comparações econômicas. O Grande ABC tem sete municípios, 840 quilômetros quadrados de território e 2,350 milhões de habitantes. A chamada Grande Campinas conta com 19 municípios, 2,3 milhões de habitantes e 4,6 mil quilômetros quadrados. Mais que esses aspectos territoriais e demográficos, o que marca o confronto entre o Grande ABC e a Região Metropolitana de Campinas é o histórico dos anos de Fernando Henrique Cardoso na Presidência da República.


 


Querem saber o resultado? Enquanto perdemos 34% de nosso PIB, como podemos chamar genericamente o Valor Adicionado, a RMC elevou em 24%. Perceberam por que a instalação do Grande ABC no epicentro da globalização é algo muito particular que não serve necessariamente para as demais regiões do Estado?


 


Os dados que interpretamos neste CapitalSocial estão baseados em números oficiais. Não se trata de abstração. É a realidade nua e crua que os triunfalistas detestam. Outras regiões metropolitanas e administrativas do Estado serão avaliadas também porque estamos fazendo levantamento completo e inédito do mapa econômico do Estado de São Paulo.


 


Não há um único caso de mergulho na deterioração econômica comparável ao Grande ABC. Por isso, os documentos interpretados pelo pesquisador João Batista Pamplona, ex-titular da coordenadoria de pesquisas da Agência de Desenvolvimento Econômico, devem ser atirados ao lixo se a proposta que se pretende construir para a região for formulada com a argamassa da realidade estatística.


 


No último ano do governo Itamar Franco, 1994, o Grande ABC gerava riqueza equivalente a R$ 37,5 bilhões em valores corrigidos a dezembro de 2001. Sete anos depois, em dezembro do ano passado, o PIB regional caiu para R$ 25 bilhões, ou seja, 34% em números redondos. O tamanho do rombo regional tem desdobramentos: em 1994 o Grande ABC tinha Valor Adicionado equivalente a 26,7% da geração de riqueza da Região Metropolitana de São Paulo e a 13,89% do Valor Adicionado do Estado de São Paulo. Em 2001 caiu para 18,5% da RMSP e para 8,98% do Estado.


 


Tormento industrial


 


Como já cansamos de explicar, o peso relativo proeminente da indústria automotiva na região se transformou em pesadelo com a abertura econômica, a guerra fiscal e a sobrevalorização da moeda nacional. Uma combinação explosiva a que, como também já cansamos de escrever, nenhuma representação regional, nem mesmo o sindicalismo, foi capaz de reagir. 


 


Esses números provam, infelizmente, que o declínio da economia regional, com as sequelas sociais que também todos conhecem, não se limita a valores relativos. São números absolutos também. Ou melhor: são números absolutos que flexibilizam números relativos. Por que insisto nesse ponto? Porque há alguns mal-ajambrados intérpretes da economia regional que querem fazer crer que o Grande ABC se manteve invulnerável. Os outros municípios e regiões é que teriam crescido. Uma piada de mau gosto.


 


Vejam agora o caso da Região Metropolitana de Campinas e suas transformações durante o Plano Real. Em 1994, os 19 municípios que têm como eixo econômico a poderosa Campinas contavam com atualizados R$ 26,6 bilhões de Valor Adicionado, de PIB. No final de dezembro do ano passado, o PIB saltou para R$ 33,1 bilhões. Traduzindo: a RM de Campinas contava com gerações de riqueza de R$ 10,9 bilhões abaixo do conjunto de Grande ABC no ano de implantação do Plano Real e, sete anos depois, deformações do plano conhecidas, a RM de Campinas saltava à frente R$ 8,1 bilhões.


 


Para ter mantido a expressão econômica intocada em números absolutos, o Grande ABC deveria, portanto, ter alcançado R$ 37,5 bilhões de VA em dezembro do ano passado. A perda de R$ 12,4 bilhões significa que o Grande ABC viu suprimida uma Campinas, uma Hortolândia, uma Indaiatuba e uma Sumaré somadas -- todos municípios da Região Metropolitana de Campinas. Por outro lado, a RM de Campinas ganhou, no mesmo período, em termos reais, R$ 6,5 bilhões, ou seja, uma Santo André e uma São Caetano.


 


Surpresa? De forma alguma. Depois da Capital, é a chamada Grande Campinas que detém o maior PIB estadual. Com a vantagem que a Grande São Paulo não oferece: compatibiliza, exceto numa Campinas desvairada, a qualidade de vida com que todos sonham, quando acoplada à fertilidade profissional. A RMC é extremamente moderna em tecnologia e em diversidade de matrizes econômicas. A terceira geração industrial do País está ali.


 


Os investimentos, invariavelmente, já incorporam tecnologia de ponta, enquanto o Grande ABC passou e ainda passa por cirurgias de rejuvenescimento. Por isso que nossas taxas de modernização são maiores. Somos um cinquentão que passa por funilaria, enquanto a Grande Campinas é um jovem de grande vitalidade.


 


Pamplona fez uso dessa diferença para propagar que o Grande ABC era o reduto mais moderno do Estado. Mandraquice pura. É claro que se melhorou acentuadamente o desempenho econômico interno, a Região Metropolitana de Campinas também apresentou crescimento relativo no Estado de São Paulo. Se em 1994 sua economia representava 9,8% da geração de riqueza paulista, em 2001 passou para 11,8%. Ou seja: dois pontos percentuais de avanço, ou 20,4%. A Grande São Paulo, Grande ABC incluído, perdeu, 3,5 pontos percentuais no mesmo período.


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