Segundo dados do Valor Adicionado, espécie de medidor preponderante da riqueza de produção e de salários, colhidos junto à Fundação Seade, organismo do governo do Estado, que, por sua vez, se abasteceu de informações da Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo, temos os seguintes pontos:
a) No período de 1980 a 2000, sempre levando-se em conta um intervalo de cinco anos e considerando apenas o Estado de São Paulo, a participação do Grande ABC manteve-se declinante, exceto entre 1990 e 1995. Isso significa que a tendência de queda não é fenômeno circunstancial. Na verdade, o único período de evolução, na comparação ponta-a-ponta a cada quinquênio, deu-se de 1990 a 1995. Entretanto, o que se verificou, de fato, foi absoluta exceção na regra de decadência econômica da região.
Explicamos: em 1990 vivíamos o auge da paralisia provocada pelo Plano Collor, com todos os efeitos nefastos para a economia brasileira. Aqueles estilhaços atingiram mais intensamente a economia da região, voltada quase que exclusivamente para a produção de veículos, que é nossa principal matriz econômica. Já em 1995 vivíamos, contrariamente, o apogeu do consumismo do Plano Real, que, como todos sabem, acabou não se sustentando.
Passamos naquele período de comparação ponta-a-ponta de uma participação de 11,55% no Estado para 12,22%. Outras regiões do Estado e principalmente os municípios mais geradores de Valor Adicionado também viveram realidade semelhante nos anos de 1990 e 1995. Como se observa, não se tratou de uma reação isolada, ditada por vantagens específicas do Grande ABC. Diferentemente, portanto, do Interior do Estado, sistematicamente em crescimento desde 1980.
b) Numa comparação ponta-a-ponta da geração de riquezas no Grande ABC entre 1980, que é a base de nossas análises, com o ano 2000, que são os dados mais atuais, perdemos praticamente um terço (exatamente 32,7%) de participação no Estado. Tínhamos 13,89% de participação em 1980, contra 9,35% no ano 2000. Em reais, isso significa o seguinte: em vez de gerar apenas R$ 21,2 bilhões em 2000, deveríamos ter gerado R$ 31,6 bilhões. Só assim teríamos mantido nossa participação no Estado de São Paulo.
c) Diferentemente dos sete municípios do Grande ABC, os cinco primeiros municípios do Interior do Estado de São Paulo no bolo do Valor Adicionado do Estado cresceram no mesmo período pesquisado. Em 1980, os municípios de Campinas, Paulínia, São José dos Campos, Jundiaí e Sorocaba totalizavam 8,12% de participação no Valor Adicionado total do Estado, contra os 13,89% do Grande ABC. No ano 2000, depois de apresentar curva sempre ascendente a cada cinco anos, comparado pelo critério ponta-a-ponta, esses cinco municípios do Interior do Estado registravam 16% de Valor Adicionado, contra os já mencionados 9,35% do Grande ABC.
Como se observa, houve completa inversão de valores. Quem tinha oito pontos percentuais e alguns quebrados saltou para 16%, enquanto quem tinha quase 14% caiu para pouco mais de nove. Esses números históricos revelam dura realidade, que é sabida de todos. Primeiro, o fortalecimento da economia do Interior do Estado por uma série de razões, entre as quais sobretudo a guerra fiscal incentivada pelo próprio governo estadual. Segundo, a decadência da economia do Grande ABC, também sobejamente conhecida, resultado entre outras análises da omissão de planejamento regional.
d) O desastre econômico do Grande ABC nos últimos 20 anos, com queda de 32,7% do Valor Adicionado relativo ao Estado de São Paulo, é o maior tombo regional dos paulistas. Explicamos: os cinco principais municípios de uma região formada pela Grande São Paulo e a Baixada Santista perderam participação estadual menos acentuada que o Grande ABC. Guarulhos, São Paulo, Barueri, Cubatão e Osasco detinham 44,69% do Valor Adicionado do Estado no ano de 1980. Vinte anos depois de todas as transformações pelas quais passou a economia brasileira, esses cinco municípios reuniam 34,69% do Valor Adicionado. Uma queda de 22,3%. Portanto, mais suave que os 32,7% do Grande ABC.
e) A maior hecatombe do Grande ABC, na realidade, se deu depois da implantação do Plano Real, que estabilizou a moeda e escancarou de vez a economia para o jogo da globalização. Se anteriormente, a partir do início dos anos 90, com a abertura dos portos, a inflação ainda mistificava a competitividade, com a estabilidade da moeda as transformações foram intensas. Em 1994, primeiro ano do Plano Real, o Grande ABC beneficiou-se da euforia da demanda por veículos e totalizou 13,86% do Valor Adicionado do Estado. Passados sete anos, em dezembro de 2000, o Grande ABC registrava apenas 9,35% de participação.
A globalização nos pegou de calças curtas e nada tem sido feito para enfrentar o aniquilamento industrial da região. Sim, aniquilamento industrial porque a indústria automotiva é a mais competitiva do mundo e tivemos nesse período de sete anos a chegada de novas montadoras que vão ganhando cada vez mais mercado. Temos 18 montadoras de veículos no Brasil e uma produção acumulada a cada 12 meses que está longe das eufóricas projeções de até três milhões de unidades saindo das fábricas na virada deste terceiro milênio.
A participação relativa da produção automotiva do Grande ABC, que já superou a 80% no Brasil, hoje não passa de 35%, segundo os últimos dados. Nem mesmo o fato de o Brasil produzir nos últimos anos o dobro de veículos dos anos 1980 ameniza o quadro econômico, porque há mais competidores e a rentabilidade das montadoras está sujeita aos movimentos internacionais, além do chamado Custo Brasil. Essa mesma competitividade gerou um quadro de desemprego descomunal na região, além da morte de pequenas indústrias.
A descentralização acentuada da indústria automotiva, por motivos também diversos e que poderiam ser definidos como estratégicos do ponto de vista geoeconômicos, reduziu nossa importância relativa no setor para o mercado nacional, mas não amenizou a importância relativa internamente. Está exatamente nessa contradição a raiz de nossos principais problemas econômicos porque continuamos dependentes demais da indústria automotiva regional que se contrai nacionalmente. Somos muito menos importantes economicamente para o Brasil hoje do que éramos há 20 anos. Temos que reconhecer essa realidade.
f) Para se ter idéia do que significam as perdas com o Valor Adicionado no Grande ABC, vamos a alguns números:
1) Em 1995, segundo dados oficiais do Seade e sempre considerando a atualização da moeda até dezembro de 1999, o Grande ABC gerou R$ 24 bilhões e 400 milhões de Valor Adicionado. Quatro anos depois, em 1999, o mesmo Grande ABC gerou R$ 19 bilhões e 660 milhões de Valor Adicionado. A diferença de R$ 4 bilhões e 700 milhões significa que deixamos de gerar riquezas e salários equivalentes a dois municípios de grande porte do Estado, casos de Osasco e Ribeirão Preto. Esses dois municípios somaram R$ 4 bilhões e 698 milhões de Valor Adicionado em 1999. A isso também se pode dar o nome de catástrofe.
2) Se extrapolarmos os valores em reais para as perdas de Valor Adicionado do Grande ABC no período de 1980 a 2000, constataremos algo mais tenebroso: os 4,54 pontos percentuais que separam o Valor Adicionado nessa comparação ponta-a-ponta de 20 anos significam todo o Valor Adicionado de Osasco, Sorocaba, Jundiaí, Franca, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra juntos.
Como assim? Basta somar os percentuais de participação desses municípios no Valor Adicionado do Estado para se chegar a percentual próximo da perda do Grande ABC no período mencionado. O agravante do quadro é que enquanto perdemos riqueza relativa desses seis municípios, ganhamos o ônus de uma densidade demográfica que nos enfiou goela abaixo uma população de 500 mil pessoas no período.
Só para se compreender melhor: enquanto ganhamos praticamente uma Santo André em população, perdemos Osasco, Sorocaba, Jundiaí, Franca, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra juntos em geração de riquezas.
g) O caso de Santo André é o mais grave entre todos os municípios do Grande ABC que sofreram desindustrialização. Em 1980, a cidade contava com 3,4% de participação no Valor Adicionado do Estado de São Paulo e 24,4% do Valor Adicionado gerado dentro da região. No ano 2000, a participação de Santo André no bolo estadual caiu para 1,62% e sua força regional foi reduzida a 18,5%.
Se voltarmos mais ao tempo, veremos que a partir de 1975 Santo André passou a acumular perdas seguidas no ranking de redistribuição do ICMS (Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviços), que ainda é a principal fonte de receitas das prefeituras e cuja configuração está estreitamente relacionada à produção de riquezas e salários do Valor Adicionado.
Nesse período de 25 anos, segundo dados oficiais, Santo André perdeu dois-terços de sua participação relativa de receitas do ICMS. Recentemente, o prefeito Celso Daniel, que é diretor-geral da Agência de Desenvolvimento Econômico do Grande ABC, lamentou as perdas industriais que estão no cerne dessa decadência.
Nos últimos anos, Santo André tem perdido quantitativamente bem menos em produção de Valor Adicionado, dando sinais de estabilidade. Uma estabilidade notoriamente de fundo do poço se formos analisar historicamente a cidade e sua capacidade de geração de riquezas. Se tivesse mantido participação relativa no ano passado, comparativamente a 20 anos atrás, Santo André deveria ter gerado R$ 7 bilhões e 700 milhões de Valor Adicionado em dezembro último, mas só atingiu R$ 3 bilhões e 600 milhões.
h) São Caetano, que foi a primeira cidade do Grande ABC a dar sinais de enfraquecimento industrial, também vem colecionando perdas no setor. Em 1980 sua participação no Valor Adicionado do Estado chegava a 1,98%. No ano 2000, caiu praticamente à metade, com 0,96%. Pelos valores monetários de dezembro do ano passado, São Caetano teria de ter gerado algo próximo de R$ 4 bilhões e 500 milhões de Valor Adicionado se tivesse mantido o mesmo poder industrial de 20 anos atrás, mas não ultrapassou a R$ 2 bilhões e 100 milhões.
i) Se utilizarmos mais uma vez o Valor Adicionado como ferramenta para comprovar o esvaziamento industrial do Grande ABC e o consequente empobrecimento da população, temos a seguinte conta que não consegue fechar qualquer quesito relativo à qualidade de vida: em 1980, gerávamos em valores monetários atualizados R$ 31 bilhões e 600 milhões de riquezas e salários do Valor Adicionado. Vinte anos depois, em 2000, chegamos ao Valor Adicionado total de R$ 21 bilhões e 200 milhões.
Como em 1980 tínhamos por volta de 1,8 milhão de habitantes e no ano 2000 alcançamos 2,349 milhões, perdemos per capita praticamente a metade na geração de riquezas e salários. Em números arredondados, o Grande ABC gerava R$ 17, 5 mil por habitante em Valor Adicionado no início dos anos 80, contra apenas R$ 9 mil por habitante no último ano da década de 90. Um buraco desse tamanho, evidentemente, não poderia ter se transformado em algo diferente do quadro de criminalidade e de exclusão social que vivemos.
j) Há um aspecto nas avaliações desastradas sobre a participação do Grande ABC no Valor Adicionado que não tem sido devidamente registrado por absoluta manipulação de dados. Sempre que o representante da Agência de Desenvolvimento Econômico compara a participação do Grande ABC no Valor Adicionado do Estado, seleciona os períodos mais convenientes e também incorre em erros crassos nas próprias análises. Omitem-se fatos históricos extraordinariamente importantes.
É o caso específico das perdas do Estado de São Paulo em relação a vários dos Estados brasileiros. Vamos dar os números revelados pelo IBGE : a Região Metropolitana de São Paulo, perdeu participação na produção industrial do país de 44% em 1970 para 26% em 1999. Internamente, no mesmo período, a RMSP perdeu participação de 76% em 1970 para 54% do valor de transformação industrial para o Interior do Estado.
O que isso significa? Como o Grande ABC foi quem mais perdeu na Região Metropolitana de São Paulo e como a Região Metropolitana de São Paulo perdeu para o Interior do Estado de São Paulo e como o Estado de São Paulo perdeu para o Brasil, está claro, embora pareça confuso, que a participação relativa do Grande ABC em qualquer período que se faça, e mesmo no único período em que subiu em relação a cinco anos antes, manteve-se inexoravelmente declinante.
Traduzindo tudo isso: mesmo se o Grande ABC tivesse, por obra divina, mantido os 13,89% de Valor Adicionado que detinha no Estado de São Paulo em 1980, estaria configurado o esvaziamento industrial porque o Estado de São Paulo tem perdido sua participação relativa no País também por causa da guerra fiscal.
k) Valor Adicionado é um indicador econômico respeitável, mas não é o único. Estamos desabando também no Índice de Potencial de Consumo produzido anualmente pela Target Marketing e Pesquisas, com base em coquetel de dados que tem o IBGE como principal fonte alimentadora. Só nos últimos 10 anos, segundo a Target, perdemos em Potencial de Consumo o equivalente a US$ 2 bilhões e 500 milhões. Isso significa uma Santo André inteira de perda.
Nosso PIB também desabou nos últimos 26 anos, de 1970 a 1996, conforme estudos do Ipea (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas), organismo do Ministério do Planejamento. PIB é resultado da produção de riquezas. Por isso tudo, a curva descendente está absolutamente conectada às perdas do Valor Adicionado. Só não enxerga quem não quer.
O que estaria por trás dessa ofensiva desvairada, mentirosa, manipuladora, de tentar provar que não nos empobrecemos? Quais seriam os interesses escusos? Será que mentir é melhor do que planejar? Será que mentir é melhor do que executar? Será que mentir é melhor do que mobilizar-se com responsabilidade social para aplacar as fundas perdas econômicas que sofremos? Será que mentir é melhor do que encarar a violência nossa de cada dia?
l) Embora seja ferramenta importante para a análise econômica de uma determinada localidade, de uma região, do Estado e mesmo do País, o Valor Adicionado por si só não assegura solidez no planejamento de vôo seguro para interpretar a realidade socioeconômica.
A diferença entre realidade econômica e realidade socioeconômica é que no primeiro caso temos apenas números, estatísticas, comparações, que geralmente desprezam um conjunto de aspectos factuais. É exatamente isso que uma análise socioeconômica contempla. E é isso que temos produzido regularmente.
Por isso mesmo, estamos à vontade na constatação de que, além de o Grande ABC ter sofrido uma debacle econômica comprovada pelos números, pelas estatísticas e pelas correlações de forças, o impacto destrutivo também se deu no dia-a-dia, na qualidade de vida. Lideramos o ranking de furtos e roubos de veículos no Estado. Lideramos o ranking de roubo de cargas no Estado. Avançamos terrivelmente no quadro de indigentes, segundo os últimos dados do IBGE. Estamos assistindo passivamente o aniquilamento do pequeno varejista que é massacrado pelos grandes. As pequenas e médias indústrias desaparecem ao sabor da globalização e do jogo duro, duríssimo da indústria automotiva. Sequestros, sequestros e sequestros dominam nossa geografia. Os índices de homicídios e latrocínios são assustadores. Apresentamos média superior ao dobro da média nacional. Santo André registrou crescimento de mais de 600% em homicídios nos últimos 20 anos, um recorde nacional que se explica com a queda brutal do setor industrial da cidade.
Um quinto de nossa População Economicamente Ativa está desempregada. Um quarto está subempregada, atuando naquilo que chamamos de Capitalismo de Terceira Classe. O que é Capitalismo de Terceira Classe? É uma classe de empreendedores que perderam o emprego e tentam se virar como a vida manda. Mais da metade desses empreendedores de terceira classe é formada por autônomos. Os números são da própria Agência de Desenvolvimento Econômico, que já produziu estudos confirmando a desindustrialização do Grande ABC e agora, através de um tecnocrata, afirma exatamente o contrário.
Enfim, esse são alguns indicadores sociais e econômicos plenamente conectados com os gráficos de criminalidade. Estamos à deriva.
Somente os irresponsáveis insistem em negar.
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04/02/2026 OSASCO E VIZINHANÇA GOLEIAM GRANDE ABC