Metidos no piloto automático de redações climatizadas e infestadas de tecnologias supostamente facilitadoras de tarefas, os jornais perderam a sensibilidade. Os jornais da Província mal têm dinheiro para se manter, mas os grandes da Capital, embora também enrascados, contam com estrutura muito superior para não se tornarem tão repetitivos e óbvios na maioria das edições impressas.
Pois não é que hoje, terça-feira, todos deixaram de observar um retrato explícito da situação organicamente dilaceradora do País? No ano passado, segundo dados oficiais, foram criados muito mais empregos no setor público do que no setor industrial. Pode um País que se pretende desbravador de novos tempos cometer tamanha heresia? É o desenvolvimentismo petista a pleno vapor em direção a um Estado cada vez mais obeso e perdulário.
No ano passado foram gerados 403,0 mil novos postos de emprego na administração pública, contra apenas 144,4 mil na indústria de transformação. Ou seja: para cada 10 empregos no setor públicos, as fábricas contrataram apenas quatro trabalhadores.
A regionalização desses dados não proporcionaria situação menos desconfortável à Província do Grande ABC. Vamos tentar nos próximos dias estabelecer uma abordagem semelhante.
O princípio lógico de que voltamos a acumular déficit de emprego industrial com carteira assinada após os primeiros anos do governo Lula da Silva recuperar parte do que foi dizimado pelos anos de chumbo regional do presidente Fernando Henrique Cardoso não deixa dúvidas de que provavelmente perderemos de lavada a competição entre emprego publico versus emprego industrial de lavada.
E tem sido assim porque nossos administradores públicos preferem mesmo chorar as pitangas em vez de se organizarem para impedir o agravamento da crise na atividade produtiva, dependente em exagero do setor automotivo espremido pela competição internacional e o esgotamento de boa parte dos canais de financiamento à farra consumista.
Ares de triunfo
Os dados sobre empregos criados no Brasil na temporada passada foram revelados hoje pelos jornais. O noticiário só não chega a ser cômico porque os jornais se limitaram a relatar as declarações do ministro do Trabalho, Manoel Dias, porta-voz do governo para repassar as informações. Ele o fez com ares de triunfo. Até parece que não estamos em crise.
Os números apresentados incluem tanto trabalhadores com contratos regidos pela CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) quanto servidores públicos que atuam sob regime especial e têm estabilidade (os chamados estatutários). O estoque geral de mão de obra empregada atingiu 48,9 milhões em 2013, de acordo com a Rais (Relação Anual de Informações Sociais), uma das principais fontes de informações sobre o mercado de trabalho formal. A Rais é mais completa do que os dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), porque inclui funcionários públicos celetistas mas também estatutários e temporários.
Os dois principais jornais paulistas e entre os três maiores do País (o outro é O Globo), trataram burocraticamente a entrevista coletiva do ministro do Trabalho. Desdenharam do abismo que separa uma atividade de baixa produtividade, como é a atividade pública num País encalacrado, e o setor de transformação industrial. A página interna do Estadão oferece a seguinte manchete: “Geração de emprego cresce 29,7%”. A linha fina, complementar ao título, explica: “O Brasil criou 1,490 milhão de postos de trabalho em 2013, resultado puxado pelo desempenho da administração pública”. A Folha de S. Paulo, também à página interna, mancheteia: “Setor público reforça criação de vagas”. A linha fina diz o seguinte: “Brasil criou 1,49 mi de empregos formais em 2013; total chegou a 48,9 milhões de vagas, alta de 3,14% sobre 2012”. Nenhum dos dois veículos, repito, fez qualquer referência ao disparate entre emprego público e emprego industrial.
Convergência ao caos
Há entre os oito anos de Fernando Henrique Cardoso e os 12 anos de Lula-Dilma uma intimidade escandalosa sobre a responsabilidade da fragilização continuada da indústria de transformação no Brasil. Perdemos o rumo desde a implantação do Plano Real, como acentuou ainda outro dia o ex-ministro Delfim Netto, referindo-se à decadência industrial. E seguimos a cavar o próprio túmulo com as desventuras petistas, presos a um corporativismo de chão de fábrica tanto quanto a uma visão ideológica capenga, tipo Argentina, nas relações diplomáticas internacionais.
Ainda recentemente o jornal Valor Econômico publicou dados de estudos do Boston Consulting Group (BCG), segundo os quais os salários no Brasil mais do que dobraram na última década no setor industrial, período em que o câmbio teve valorização de 20% em relação ao dólar. A produtividade do Trabalho, entretanto, cresceu apenas 3% no período.
Por isso a indústria brasileira sofreu perda substancial de competitividade na fabricação de manufaturas na década. Além da alta dos salários e da valorização do câmbio, também a elevação de preços da energia aumentou consideravelmente os custos de produzir no Brasil. Sem a necessária compensação de ganhos de produtividade. O relatório do BCG afirmou que, em 2014, fabricar manufaturados no Brasil era 23% mais caro do que nos Estados Unidos. Um salto drástico em relação a 2004, quando o custo da indústria brasileira era 3% menor.
Os grandes jornais brasileiros poderiam ter produzido textos mais robustos na edição de hoje, comparando o desempenho do emprego industrial com o emprego público. Poderiam ter dito que a indústria brasileira chegou em 2013 ao mesmo patamar de participação relativa do PIB antes da chegada do governo JK, em 1955.
Queda continuada
Dados da Confederação Nacional da Indústria revelam que o peso da indústria em geral no PIB nacional caiu para 24,9% no ano passado, o pior resultado desde o início da série histórica, em 1947. Quando se restringe à indústria de transformação, a fatia de participação bateu recorde negativo de 13%, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
Os dados na Província do Grande ABC são proporcionalmente relativamente mais problemáticos. Ainda contamos com uma média de participação de 32% da indústria de transformação no PIB regional, mas a queda nas últimas duas décadas foi vertiginosa e sem compensação de agregado de valor de outras atividades. Perdemos cada vez mais participação e nos empobrecemos visivelmente. Nosso PIB Industrial desabou em confrontos com endereços mais competitivos do Estado de São Paulo que, por sua vez, não está lá essas coisas no ranking nacional.
Enquanto isso, disposto a consagrar-se nos anais das bobagens mais estapafúrdias dos gerenciadores públicos da região ao longo da história, o prefeito Luiz Marinho, de São Bernardo, do alto do analfabetismo econômico, sai nos jornais para dizer que não permitirá especulação imobiliária em áreas ocupadas ou desativadas por indústrias. Marinho quer revogar a lei de oferta e da procura, embora já tenha autorizado condomínios residenciais em terrenos de desertores industriais e estimule ocupações deletérias de eixos viários valiosos aos mercadores imobiliários e tormentosos aos usuários de veículos.
Imprensa regional
Diário do Grande ABC, Diário Regional, ABCD Maior e Repórter Diário se deram as mãos nesta terça-feira. Formaram uma ciranda de incompetência muito superior a dos dois jornalões da Capital que não enxergaram o conjunto da obra mas deram algum valor editorial à obra – ou seja, à importância do balanço de empregos anunciado pelo governo federal.
Na Província do Grande ABC os quatro jornais mencionados, dois dos quais em edições impressas (Diário do Grande ABC e Diário Regional) comeram bola. Não atentaram à importância dos números e muito menos a eventuais contextualizações.
No caso do ABCD Maior, com vínculos sindicais cutistas e partidários petistas, a notícia repassada por agências foi discretamente editada no site ressaltando o passado (“Emprego e renda continuam em ascensão”) como se o presente de esboroamento do PIB não existisse. O Diário do Grande ABC reproduziu o conteúdo do Estadão, sem nenhuma abordagem regional. O Diário Regional publicou apenas algumas linhas básicas. O Repórter Diário seguiu a trilha do Diário do Grande ABC: reproduziu material do Estadão igualmente sem participação local.
Quando a própria mídia regional não leva a sério as desventuras industriais, atividade que ainda é a força motriz de nossa economia, não se pode esperar nada diferente do que um veículo em alta velocidade dirigido por um manguaceiro.
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04/02/2026 OSASCO E VIZINHANÇA GOLEIAM GRANDE ABC