Economia

A pílula do dia seguinte

DANIEL LIMA - 27/06/2007

O triunfalismo é a pílula do dia seguinte de uma regionalidade teimosamente adolescente.


Não é por outra razão que o Grande ABC vive há pares de anos situação quase catatônica. Não faltaram receituários fundamentados na pílula do dia seguinte.


Se biólogos acreditam que a pílula do dia seguinte de verdade é uma bomba hormonal abortiva, posso assegurar que a pílula do dia seguinte metafórica dinamitou iniciativas para levar a sociedade do Grande ABC a recuperar solidamente o tempo perdido.


Mais do que a qualquer outra instância de disputas por espaços nesse mundo de aparências no qual o que vale mesmo é o sugestionado em vez de fatos, a Imprensa tem papel relevante.


O que ocorreu no Grande ABC ao longo do período mais depauperador da história, os abomináveis anos 1990, foi uma conjunção de esforços que, como a pílula do dia seguinte, implicou na fixação do óvulo fecundado de ufanismo na parede do útero de um organismo debilitado e despreparado à gestação de um regionalismo crítico.


Poucas vozes se levantaram contra o publicitarismo irresponsável daqueles tempos.


Os arquivos da revista LivreMercado e das newsletters pelas quais respondo estão aí para infligir derrota a eventuais desmemoriados.


Não é por outra razão, aliás, que estou recuperando e disseminando as mais importantes matérias ao longo de 17 anos de circulação de LivreMercado — principalmente na fase fisicamente revista, que começa em novembro de 1996.


Passado o período de desregrada e nefasta mistura de jornalismo e publicidade, sempre será relevante alertar os leitores sobre eventuais riscos que novas pílulas do dia seguinte venham a ser ministradas. A possibilidade de os espertalhões de sempre manipularem números, propostas, idéias e tudo o mais não pode ser descartada. Eles são especialistas em embromação.


Por mais que o ambiente regional carregue certo ceticismo quanto a tudo que se ofereça, inclusive alternativas realmente factíveis, os aborteiros do futuro estarão sempre de plantão para novas estocadas. Eles desmoralizam o marketing porque se especializaram em vender ilusões. Recuam taticamente, mas mantêm estratégia de ludibriar o distinto público.


Tenho a resposta pronta em contraponto àqueles que sincera ou provocativamente afirmam que imprimo na revista LivreMercado um olhar desaprovador a iniciativas que se apresentam fabulosas. Digo a eles que os erros cometidos pela publicação ao longo dos anos, poucos por sinal, não foram por obra e ação de um viés exacerbado de cautela e desconfiança, mas exatamente porque circunstancialmente entregou-se de peito aberto à turma organizada dos chamados otimistas e desbravadores do amanhã.


Infelizmente, quebramos a cara quando nos juntamos à minoria barulhenta que parecia maioria. Felizmente acertamos o alvo da ponderação e da responsabilidade social quando ficamos ao lado de uma maioria silenciosa que parecia minoria.


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