Associações comerciais ouvidas pelo Diário do Grande ABC na edição desta segunda-feira sobre a fragilidade do calendário de promoções nas respectivas praças só confirmaram análises deste jornalista feitas ao longo dos anos: falta às entidades o que chamaria de representatividade de comerciantes e prestadores de serviços. O problema das associações comerciais é que confundem representação com representatividade. Não se deram conta de que vivem à mingua porque estão historicamente distantes das demandas dos empreendedores, as quais vão muito além dos próprios muros corporativistas.
A deficiência crônica, que vem do passado, de um passado bastante remoto, é subproduto de uma estratégia generalizada das entidades de classe do setor, entre outras instituições. Seus dirigentes agem com morosidade e quando o fazem pensam exclusivamente na corporação no sentido mais estrito do pensamento. Os efeitos perversos de ações públicas e privadas ao conjunto da população não são percebidos ou não são devidamente valorizados como estocadas a sangrar negócios.
Especialistas em promover cursos para os associados, função que poderia ser relegada ao último escalão numa nova coreografia de relevância hierárquica, os dirigentes das entidades comerciais deveriam, eles sim, participar de cursos de estratégia associativa e institucional.
Sem perda de tempo
Prometi há exatamente três anos (edição de 3 de maio de 2012) apresentar uma agenda para as associações comerciais da região. Prometi e não entreguei, faço questão de lembrar o que certamente poucos se dariam conta. E não me arrependo. Devo ter sido atropelado por questões mais candentes e me esqueci do compromisso.
Minha cachola é boa até nisso, porque teria desperdiçado meu tempo. Como desperdicei anteriormente, quando elaborei uma agenda para o Clube dos Especuladores Imobiliários (ainda não identificava a entidade do prestidigitador Milton Bigucci com o deboche mais que merecido). Nada é mais frustrante do que observar o desinteresse de dirigentes de entidades mambembes. E as associações comerciais são entidades mambembes porque respiram ares dos anos 1950. Não captaram a evolução dos tempos e as premissas de representatividade.
A sugestão de transformar as sete associações comerciais numa única organização não entraria no meu plano de reestruturação do setor. As dificuldades de romper barreiras municipalistas e, mais que isso, interesses municipalistas, seriam imensas. Mas há uma maneira inteligente de romper estrategicamente as fronteiras de provincianismos sem que seja necessário romper as barreiras territoriais de provincianismos. Basta regionalizar os temas principais que garantirão a demanda por soluções que se arrastam no tempo.
Ou seja: incorporar temários regionais às entidades municipais, até porque nossos municípios são vasos comunicantes. Esse é o sentido mágico de regionalidade, do qual não nos apropriamos porque somos idiotas juramentados. Desprezamos a soma das sete partes que nos envolvem. Insistimos em dividi-las.
Certamente a regionalização da pauta instauraria a possibilidade de a vaca da particularização de interesses dos dirigentes torcer o rabo de conveniências. Há questões que têm tudo a ver com os administradores públicos locais e regionais, os quais, como se sabe -- e isso vale para a maioria das representações de classe na região -- são velhos companheiros de vantagens recíprocas, em prejuízo ao conjunto da sociedade.
Como esperar que uma agenda regional das associações comerciais salte para o campo da realidade a ser construída se ao longo de temporadas se forjou dependência mesquinha dos cofres públicos à liberação de recursos financeiros para iluminar de multicores ruas e avenidas nos festejos natalinos? Querem algo mais sem propósito ou mais denunciador do estado de penúria diretiva, que se reflete na escassez de dinheiro, do que mendigar a cada temporada um dinheiro para enfeitar as áreas comerciais? Essa é uma confissão tácita da fragilidade institucional, da qual os políticos sem compromisso com o amanhã fazem gato e sapato.
Relações espúrias
Essa na verdade é a face mais escandalosamente pública de relações espúrias entre associações comerciais e dirigentes políticos. Convido os leitores a irem aos arquivos dos veículos de comunicação da região (há dispositivos tecnológicos que facilitam essa tarefa) e os desafio a encontrarem ações vigorosas de cobrança ou mesmo de cooperação dessas entidades junto aos organismos públicos da região.
Para que o leitor não perca tempo, antecipo que a tarefa será inglória. Não existe nada, absolutamente nada, que ao menos resvale na configuração de uma conflituosidade positiva aos comerciantes e prestadores de serviços. Quando há algo que se possa chamar de parceria, as aproximações são pontuais e servem às relações personalistas, não institucionais.
Ainda recentemente o prefeito Luiz Marinho mandou aumentar alíquotas de impostos de várias atividades econômicas e não se ouviu um pio sequer dos representantes locais, quando o caso mereceria reação enérgica, barulhenta e desconfortável. O chefe do Executivo de São Bernardo segue à risca o receituário do governo federal no aumento da carga tributária para enfrentar os custos da máquina pública.
As associações comerciais costumam reclamar de poderes públicos situados fora das fronteiras da região como espécie de jogo de cena. Questões locais são olimpicamente esquecidas. Tocá-las significaria provocar danos inconciliáveis aos propósitos mais proeminentes de aproximação nada republicana.
Redoma enganadora
Esperar de dirigentes um gesto de grandeza e de aproximação com críticos do desempenho estruturalmente deficitário dessas organizações com a sociedade regional seria sonhar demais. Eles preferem viver numa redoma de autoelogios enquanto a sociedade produtiva da região é submetida ao torniquete de uma competitividade asfixiante.
Se ao setor industrial da região falta um macroplanejamento a minimizar as dores da desindustrialização que prossegue, às áreas comercial e de serviços também se deve destinar um projeto de reequilíbrio de forças, com soluções bem menos complexas.
Em nova e estonteante fase crítica, o Diário do Grande ABC poderá continuar a colaborar imensamente nesse sentido. A começar por alargar a pauta de obrigações institucionais das associações comerciais.
O calendário de eventos como ferramenta de marketing é importante, mas no fundo é apenas um figurante no palco de mobilização que deve começar com o conceito de entidades municipais, ações regionais.
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