Economia

São Bernardo demite nove vezes
mais que São Paulo. Como pode?

DANIEL LIMA - 08/07/2015

O PIB (Produto Interno Bruto) da cidade de São Paulo é 14 vezes superior ao PIB de São Bernardo, conforme dados mais atualizados, de 2012. No final deste ano sairão os números do comportamento do PIB Municipal, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) de 2013. Os números voltarão a ser negativos para a Província do Grande ABC. São Bernardo é a Capital desta Província. A cidade de São Paulo é a Capital do Estado. Não à toa. A cosmopolita São Paulo é estratosfericamente maior que São Bernardo. Doze vezes em termos de população. Quase 11 milhões contra pouco mais de 800 mil. Então, respondam, caros leitores: por que no balanço de 12 meses de emprego com carteira assinada do Ministério do Trabalho e do Emprego, São Bernardo teve relativamente muito mais demissões que São Paulo?


 


Para ser mais preciso: enquanto no período de julho do ano passado a maio deste ano São Bernardo demitiu 12.300 trabalhadores com carteira assinada, São Paulo decepou 19.191. Convenhamos que a lógica determinaria que São Paulo fosse amplamente superior a São Bernardo em números absolutos e em números relativos. Mas se deu exatamente o contrário.


 


A diferença é tão abissal quanto preocupante, o que deveria intensificar ações do Clube dos Prefeitos, entre outros organismos regionais e municipais, em busca de urgentes saídas econômicas para a região.


 


Ambiente deteriorado


 


A variação do estoque de empregados, que dá a exata dimensão do tamanho de cada estrago no mercado do trabalho, é aviltante para São Bernardo. As demissões na Capital significam apenas 0,43% de quebra do estoque de trabalhadores com carteira assinada. Uma ninharia, portanto. Inferior inclusive à média brasileira, de 1,09%. Já em São Bernardo, as mais de 12 mil demissões significaram 4,24% de perda do estoque de trabalhadores. Nada menos que nove vezes mais que a Capital do Estado.


 


Troquem todos esses números por algo subjetivo, mas muito mais impressionante. Substituam a disparidade registrada entre um Município e outro pelo ambiente social. E se quiserem, ultrapassem os limites territoriais e econômicos de São Bernardo. Contabilizem a Província do Grande ABC como um todo. Ao se somarem os sete municípios locais, teremos 2,7 milhões de habitantes. Quatro vezes menos que a Capital. A lógica, e volto à lógica, é que a Província contasse com um banco de desempregados naquele período muito inferior ao de São Paulo. O resultado é acachapante: demitimos 23.658 profissionais com carteira assinada. Bem mais que os pouco mais de 19 mil da Capital. O estoque de empregos na região caiu 2,87% no período. Uma diferença menos alarmante que a de São Bernardo no confronto com São Paulo, mas mesmo assim estressante.


 


Apenas projetos


 


O que pesa de fato em tudo isso que foi relatado é que a cidade de São Paulo é metrópole catalisadora de riqueza, por mais desigual que seja, e é bastante desigual mesmo, enquanto a Província do Grande ABC perdeu a roda do desenvolvimento econômico ao ficar enviuvada de grandes investimentos industriais e de não encaixar um golpe certeiro na diversificação econômica que a livrasse da dependência excessiva do setor automotivo. O prefeito Luiz Marinho anunciou aos quatro cantos que seríamos uma potência na indústria de defesa, mas o andar de cágado do projeto sugere que tudo não passou mesmo de marketing. Sem contar também que o petista falou em fortalecer a cadeia petroquímica na região. Até que estourou o Petrolão.


 


Somos reféns da produção de veículos que ainda nos rende dividendos econômicos, sociais e fiscais, mas espanta investidores em geral porque tudo que há de mais conservador em matéria de produção e de gestão está em nosso território. Com a deferência dos sindicatos resistentes a qualquer tentativa de mudanças mesmo que graduais. O Custo ABC é uma dura realidade subestimada porque forças de pressão econômicas e políticas têm horror a qualquer coisa que diga respeito à modernização.


 


Diferença em serviços


 


Um recorte do comportamento do emprego com carteira assinada que instale São Bernardo e São Paulo nos respectivos cantos do ringue mostra que no setor industrial a diferença é menos expressiva que no conjunto das atividades pesquisadas. São Bernardo perdeu nos últimos 12 meses 6.304 trabalhadores no setor, enquanto São Paulo registrou queda de 27.802. Quem só enxerga números absolutos vai dizer que a crise do emprego industrial na Capital é maior. Engano: as demissões do setor em São Bernardo baixaram em 6,52% o estoque de empregados, enquanto em São Paulo as baixas apontaram 5,28%. Perceberam que nem sempre maior significa mais?


 


O que reduziu as perdas do estoque de empregos em geral na Capital do Estado foram as contratações no setor de serviços, com 36.775 postos adicionados, os quais compensaram as baixas de empregos industriais e também do setor de construção civil, com corte de 27.691 trabalhadores. Em São Bernardo, praticamente todas as demais atividades emplacaram perdas: 2.198 na construção civil, 3.175 em serviços e outras menos expressivas. Dai a perda de 12.300 postos de trabalho.


 


Como se explicam esses comportamentos distintos, de perdas industriais das duas cidades de um lado e de ganhos de empregos em outros setores, de outro? Por que a indústria paulistana é menos dependente do setor automotivo e também porque tem maior inserção de serviços. São Paulo tem redes de entretenimento, sistema financeiro, hotelaria, restaurantes e muito mais de agregados tecnológicos pouco expressivos em São Bernardo e na Província do Grande ABC. 


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