Se o Brasil fosse Diadema, ao invés de 601.924 demissões com carteira assinada registradas pelo Ministério do Trabalho e Emprego, seriam 2.546 milhões nos últimos 12 meses, entre julho do ano passado e junho deste ano. O que seria um tormento para o País é um desastre num dos sete municípios da Província do Grande ABC. Provavelmente porque o analfabetismo econômico dos gerenciadores públicos é marca registrada na região, é quase certo que nem o prefeito Lauro Michels e muito menos seus assessores têm conhecimento dessa derrocada que vai muito além da estatística metabolizada por esta revista digital.
As empresas de Diadema, pressionadas pela crise econômica, demitiram 4,23 vezes mais trabalhadores do que a média do País. E praticamente o dobro dos cortes na Província do Grande ABC, região mais duramente atingida pelo mergulho do PIB -- principalmente porque é movida a indústria automotiva.
É muito provável que o desastre econômico de Diadema venha a se traduzir, em alguns meses, em desastre social. O Município que já foi recordista no ranking de criminalidade no Estado de São Paulo, com mais de 100 homicídios por 100 mil habitantes, medidor definido pela ONU (Organização das Nações Unidas), reagiu espetacularmente nos últimos anos com políticas inovadoras na área de Segurança Pública mas tendo o suporte macroeconômico bastante favorável.
Rescaldos criminais
A eventual persistência de perdas econômicas em forma de empregos qualificados, como são os empregos com carteira assinada, poderá determinar novos rumos. Como os macroeconomistas projetam que a indústria automotiva passará por pelo menos mais quadro anos de dificuldades, a perspectiva para Diadema, e também para a Província do Grande ABC, já deveria ter mobilizado instâncias do Poder Público regional.
O Clube dos Prefeitos está a léguas de distância dos interesses da sociedade, sobretudo no campo econômico. Os prefeitos locais, em larga escala, repetem o desempenho dos antecessores. São inapetência para entender que o desenvolvimento econômico deveria constar da primeira, da segunda e da terceira página de prioridades administrativas.
A anatomia do descarrilamento da economia de Diadema nos últimos 12 meses, mais grave que o quadro regional, é fortemente influenciada pela quebra de produção industrial. Os números oficiais sobre o valor adicionado, que mede as relações econômicas de produção, só sairão num futuro ainda distante, mas a quantidade de trabalhadores do setor que aumentaram a fila de desempregados é imensa e indicativa da bomba que vem por aí.
Influência deletéria
Foram demitidos em Diadema nada menos que 5.350 trabalhadores industriais em 12 meses, com variação negativa de 9,52% sobre o estoque. Eram 56.197 empregados do setor no final de junho do ano passado. Ao final de junho deste ano, o total foi rebaixado a 50.847. As demissões industriais representaram 81,7% da queda do estoque geral de empregos em Diadema, de 108.176 trabalhadores. Ou seja: a influência da atividade é brutal e se manifesta de forma deletéria em situações como a que vive o setor no País, especialmente a indústria automotiva. Diadema é supridora em larga escala de montadoras e autopeças de grande porte de São Bernardo.
A mesma São Bernardo que, em números absolutos, registra no mesmo período o dobro de demissões de trabalhadores em confronto com Diadema. Foram 13.826 postos de trabalho decepados de um estoque geral de 289.247. A diferença está no impacto registrado pelos dois municípios vizinhos. São Bernardo é muito maior economicamente, por isso as mais de 13 mil demissões representaram 4,78% do estoque de trabalhadores. Abaixo, portanto, dos 6,14% de Diadema.
Apenas a pequena Rio Grande da Serra, cujo PIB não chega a 0,5% do conjunto da Província do Grande ABC, está fora da lista de municípios locais que acumularam déficit de empregos com carteira assinada nos 12 meses contabilizados até junho último. Com estoque geral de apenas 3.173 trabalhadores, Rio Grande registrou saldo positivo 53 empregos no período.
Mauá, que conta com população e PIB praticamente igual ao de Diadema, mas é menos dependente do setor automotivo, contabilizou 1.832 baixas gerais nos 12 meses, ou 2,84% do estoque. A construção civil aliviou a pressão, porque o setor industrial perdeu 1.934 trabalhadores formais, ou 7,57%.
Santo André sofre menos
Santo André tem PIB bem superior ao de Mauá, mas sofreu menos impacto no emprego formal nos 12 meses, com baixa de 2.690 demissões. A variação negativa do estoque em Santo André foi de 1,30%, para um total de 206.923 trabalhadores, enquanto em Mauá o estoque variou negativamente 2,84% para um total de 64.507 trabalhadores.
Proporcionalmente, São Caetano perdeu empregos formais em nível um pouco superior a Santo André: a queda foi de 1,67% sobre estoque de 116.048 registrado em junho do ano passado. Em termos líquidos, São Caetano sofreu sangria de 1.938 demissões no período. Bem menos que os 3,87% registrados por Ribeirão Pires, que perdeu 821 trabalhadores de um total de 21.214.
Com forte influência negativa de São Bernardo e de Diadema, o emprego com carteira assinada na Província do Grande ABC nos últimos 12 meses apontou 27.596 baixas, ou 3,73% de variação negativa do estoque. Estão somados todos os números setoriais, inclusive da construção civil e da administração pública. A região contava em junho último com 712.586 trabalhadores com carteira assinada, dos quais 230.062 da indústria de transformação, ou 32,28% do total.
A participação do emprego industrial é preocupante porque está muito acima da média de 19% dos 15 maiores municípios industriais do Estado, os quais compõem o G-22 com os sete municípios locais. Aqueles municípios são menos afetados pela crise geral exatamente porque, entre as matrizes econômicas que os alimentam, a atividade industrial é menos proeminente e, portanto, menos demolidora de empregos.
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