Economia

Aluguel residencial desaba. Isso é
só uma parte do fosso imobiliário

DANIEL LIMA - 15/09/2015

Está no Diário do Grande ABC, com destaque limitado à página interna, uma notícia que mostra uma parte do tamanho da encrenca econômica não exclusiva desta Província, mas pronunciadamente grave nesta Província: o aluguel residencial desabou. Custou para o Diário (e quando os outros jornais impressos e digitais da região vão cair na real?) preparar abordagem crítica sobre o mercado imobiliário. Tomara que seja a primeira de uma série.


 


A começar, ou a continuar, pelo descredenciamento técnico da pesquisa que o Clube dos Especuladores Imobiliários divulga para engabelar o distinto público. O mesmo Clube dos Especuladores Imobiliários que não conta com estrutura física e de recursos humanos para acompanhar o andar da carruagem do setor na região. Por isso blefa e omite o tempo todo. O acinte chega aos limites da repulsa.


 


Vou reproduzir alguns dos parágrafos da reportagem de hoje do Diário do Grande ABC. Prefiro essa modalidade de interação com os leitores porque, assim, não fica dúvida alguma sobre o que foi publicado. Leiam:


 


 A crise econômica tem feito com que potenciais locatários posterguem a decisão de assinar o contrato de aluguel de imóvel no Grande ABC. Com isso, locadores chegam a ficar até um ano com a unidade fechada, em muitos casos, a não ser que diminuam o valor, que chega a 50% do cobrado originalmente. “A crise fez com que todos tenham que reduzir os preços, pois há muitos imóveis disponíveis e poucos clientes para alugar. Mas os que têm maior dificuldade em serem locados são os condomínios com valor alto”, afirma o proprietário da Colicchio Imóveis, Miguel Colicchio Neto, conhecido como Guta. (...). O Índice Fipezap de Locação, realizado em parceria entre a Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas) e portal Zap, que acompanha o preço do aluguel residencial em nove cidades brasileiras, com base em valores anunciados na internet, mostra que o preço médio do metro quadrado em São Bernardo, única cidade da região a ser avaliada na pesquisa, era de R$ 19,01 por mês em agosto. O aluguel é o segundo mais barato, segundo a pesquisa, ficando atrás apenas de Curitiba (...).


 


Quartos sobem sem parar


 


Acho que essa transcrição é suficiente para mostrar que a situação está se agravando e vai se agravar ainda mais. Tudo porque, além da economia da região viver situação muito mais delicada que a média do País, houve insana explosão de lançamentos imobiliários nos últimos cinco anos. Há oferta de sobra e demanda escassa não só para aluguel, mas também para negociações, incluindo-se, além de apartamentos, salas comerciais e quartos de hotéis, cujas torres sobem sem parar. 


 


Aliás, sobre quartos de hotéis -- e agora um contraponto à edição de hoje do Diário sobre aluguel residencial -- o que o jornal publicou terça-feira da semana passada foi apenas a metade supostamente cor de rosa de uma realidade inquietante. Há 10 empreendimentos do setor, num total de 1,7 mil quartos adicionais, que serão entregues até 2018. Como a crise nacional e a crise regional, em particular, vão se alongar por igual período, no mínimo, não é preciso ser expert no assunto para apontar um canhão de complicações na direção dos investidores. Um novo mico imobiliário temático, portanto, está se plantando na praça regional.


 


Faltou esse tom crítico à reportagem do Diário. Não só por isso, mas também porque a ociosidade oficial divulgada de 45% dos quartos atuais foi subestimada pelos entrevistados sempre espertos. Chega a ser desesperadora. Caímos num redemoinho de perdas econômicas que se retroalimentam compulsivamente.


 


Província enganadora


 


É muito provável, probabilíssimo, que a expectativa dos investidores dê com os burros na água. Eles acreditam que a Província do Grande ABC tornou-se mais atraente economicamente com a chegada dos trechos Sul e Leste do Rodoanel, que a Imigrantes e a Anchieta são convidativas ao empreendedorismo e mais algumas coisas. Tudo muito fora do esquadro de normalidade, porque têm mais potencial, nestes tempos de mobilidade urbana exacerbada, como rotas de fuga.


 


O Rodoanel com várias ramificações mais tira do que coloca riqueza na região, como temos provado com dados insofismáveis. O empreendedorismo na região está virando pó se for levado em conta o interesse de grandes e médias empresas em se instalarem aqui, exceto no setor varejista, cuja desigualdade de forças liquida com as perspectivas dos pequenos e médios empreendedores.


 


Para ser reto e direto, como em tantas outras caçapas cantadas disponíveis nesta revista digital: os hotéis que estão subindo aos céus na região vão viver tempos infernais quando estiverem prontos para receber uma clientela arredia e, principalmente, quando seus investidores se derem conta de que a concorrência será cruel, autofágica.


 


Shopping pedem água


 


É o que dá quando se desdenha do mínimo de planejamento econômico ocupacional. Muita gente ainda não se deu conta de que somos uma Província e como tal tudo que se relacionar a experiências vitoriosas de outros territórios, inclusive internacionais, precisa ser devidamente analisado, questionado, relativizado e sabatinado. Os shoppings -- Plaza, Golden, Atrium e São Caetano – caíram no canto da sereia dos ufanistas e dos desinformados, quando não dos malandros juramentados. Investidores e lojistas sabem do que estou falando. Os empreendimentos estão às moscas e se utilizam de todos os recursos possíveis, inclusive de não pagamento de taxas condominiais, para evitar que a clientela rarefeita não se assuste com corredores anda mais desertos.


 


A Província do Grande ABC que alguns imaginam existir virou pesadelo. A Província do Grande ABC que muitos têm certeza de que não existe virou pedaço geográfico amorfo. A Província do Grande ABC que uma minoria saqueadora sabe que não existe, tanto quanto conhece a impotência da sociedade, é uma terra fértil ao banditismo social e econômico. 


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