Imprensa

Uma sociedade que
precisa se organizar*

DANIEL LIMA - 07/06/2015

Este Diário não tem obrigação solitária de organizar uma sociedade desorganizada, mas pode ajudar solidariamente uma sociedade desorganizada a se organizar. O que parece óbvio deveria virar mantra. Há gente que imagina que este jornal é o salvador da pátria regional empobrecida e apodrecida ao longo de décadas. Parafraseando o filme “Crimes ocultos” que acabei de assistir, uma parcela substancial das chamadas lideranças locais pregou o tempo todo que não havia desindustrialização no paraíso da industrialização. Deu no que deu.
 
A manchetíssima (manchete das manchetes de primeira página) da edição de terça-feira deste Diário sobre a debandada do que restou da unidade da Basf em São Bernardo é mais uma prova provada de que o tempo de enrolação e de mentirinhas para dourar a pílula regional já passou. Esconder a realidade típica de paraísos autoritários se comprovou doloroso mecanismo de sujeição aos aproveitadores de plantão. Só por isso – e a Basf é exemplo emblemático da linha editorial mais incisiva deste jornal – já valeria a pena acreditar na publicação como ferramenta contributiva à maratonista empreitada de reduzir os estragos acumulados.


Dúvida cruel 
 
Toda vez que me dedico a escrever os 5,3 mil caracteres desta coluna mergulho num dilema do qual só emerjo quando passo a dedilhar cada palavra. A dúvida é se faço o voo rasante de analisar principalmente as manchetíssimas da semana ou se me meto em voo panorâmico sobre os preceitos impressos na primeira página da edição de 11 de maio. Entre uma saída e outro acabo, muitas vezes, optando pelas duas, porque há conversão crítica.
 
Este jornal não pode abrir mão jamais do alinhamento estratégico dos 10 pontos cardeais listados recentemente. Deve tratá-los com o fervor dos crentes. Refluir significaria enorme risco. As demandas cada vez mais dispersas da sociedade consumidora de informação são inquietantes porque podem sequestrar o rumo traçado. As redes sociais e suas diversas plataformas tecnológicas não devem ser sacralizadas como fonte de inspiração e de execução jornalísticas, embora devam, também, estar longe de descarte. São produtos que se oferecem na vitrine de uma agenda complexa. Decodificá-los é uma arte respaldada pelo conhecimento e pela sensibilidade sociais.
 
Agenda transversal
 
Esta nova fase deste jornal precisa ser enfaticamente doutrinada a sustentar aqueles 10 pontos transversais. Ignorar o entrecruzamento de uma agenda que se transformará em notícia no dia seguinte seria estupidez. Essa visão múltipla foi bem concatenada em manchetíssima desta semana, na abordagem dos estragos no Rio Tamanduateí a partir dos 500 metros pós-nascente em Mauá. Cheguei a esboçar reação mental de desaprovação à escolha daquela manchetíssima, por preferir em princípio a queda do volume de empréstimos do BNDES aos empresários da região, mas logo me penitenciei. O Editorial que justificou a escolha foi perfeito.
 
No geral, a série de manchetíssimas entre a edição de sábado da semana passada e sexta-feira da última semana foi de bom nível, embora não repetisse a densidade informativa das semanas anteriores. Neste período de análise, vejo este jornal em evolução, mas ainda longe do que a região precisa, embora nem sempre mereça porque é provincial e descuidada com as lambanças dos mandachuvas e mandachuvinhas.
 
Vetores cruciais
 
Há dois vetores essenciais à vitalidade e à vitaliciedade desta publicação, aos quais chamo a atenção da redação: primeiro, monitoramento sistemático dos quesitos que configuraram a Carta do Grande ABC e, segundo, com a mesma importância, a anexação de valor agregado e de contextualização às matérias de maior peso editorial.
 
Este Diário ainda segue escravo de conceito de pé manco: a regionalidade descolada do restante do Estado de São Paulo e do País, principalmente. Não se publicam matérias sobre criminalidade em baixa ou em alta sazonal, sobre o mercado de trabalho, sobre especulação imobiliária, sobre investimentos do BNDES e tantas outras temáticas isolando a região de outros territórios. E isso tem sido regra que as raras exceções confirmam.
 
Além disso, este jornal precisa começar a imprimir textos menos declaratórios e mais comprometidos com as mudanças preconizadas na Carta do Grande ABC. Dois exemplos desse buraco negro envolvem o mercado imobiliário: a inacreditável conclusão do Ministério Público de que o escândalo do Semasa não contou com roubalheira de empresas do setor; e o engavetamento das irregularidades do empreendimento Marco Zero, da MBigucci, segue no Legislativo de São Bernardo, sob o controle e a cumplicidade do prefeito Luiz Marinho.


Também nessa área, um novo escândalo no mínimo em termos éticos ganhou a forma de Cepacs, mecanismo pelo qual o prefeito de São Bernardo, Luiz Marinho, vai proporcionar a farra do boi de empreiteiros urbanos ao longo do corredor destinado ao monotrilho, indevidamente anunciado como metrô.
 
O encaixe editorial deste jornal como elemento catalizador da responsabilidade que lhe cabe para ajudar a sociedade desorganizada a se juntar e a sair da moita é uma longa travessia com avanços e recuos.
 
*Matéria originalmente publicada no Diário do Grande ABC


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