Imprensa

Jornalismo Luluzinho
consagra sindicalismo*

DANIEL LIMA - 09/08/2015

Seria baita estupidez afirmar que o sindicalismo utiliza arsenal de marketing como focinheira nos veículos de comunicação -- jornais impressos como este Diário, por exemplo. Focinheira pressupõe algo perigosamente reativo e este Diário, como todos os demais diários impressos e digitais, está a léguas de distância do sentido rottiwaileriano desejado à atividade. É mais apropriado afirmar que os jornais, inclusive este Diário, são luluzinhos, raça que serve mais como decoração, como enfeite, do que como segurança providencial. O PPE (Programa de Proteção ao Emprego) é a prova viva do estado moribundo do jornalismo sequestrado por declarações que consagram sindicalistas de todos os naipes. Principalmente, no caso do Grande ABC, do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, comandado por dinastia afinadíssima que começou com Lula da Silva no final dos anos 1970.
 
Duvido que não tenha saído exclusivamente do forno marquetológico do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC a notícia sobre o primeiro acordo na região para a consumação do PPE, que contemplará a autopeças Rassini Automotive, de São Bernardo. A assessoria de imprensa do sindicato deve ter trabalhado um bocado. Praticamente em todas as modalidades de mídia as reportagens seguiram o mesmo padrão informativo. Apenas este jornal tomou cuidado de ouvir outros personagens. E o fez de forma relatorial.
 
Confidencialidade em risco
 
Tão relatorial que desprezou uma senda importantíssima. Trata-se do seguinte: o titular da unidade do Ciesp (Centro das Indústrias de São Paulo) em Santo André, Emanuel Teixeira, deixou nas entrelinhas um recado inquietante que talvez explique a relutância, entre muitas razões, de empresários adotarem o PPE, por mais que a situação econômica seja crítica. O entrevistado disse o seguinte, referindo-se à condicionalidade de as companhias que quiserem fazer a redução de jornada com diminuição de salários terem de provar ao governo que estão em situação financeira difícil: “É colocar o sindicato como gestor desse processo”.
 
Se não disse com todas as letras, Emanuel Teixeira afirmou o suficiente para o seguinte entendimento: os sindicatos que não prestam contas financeiras a ninguém, protegidos por legislação marota, podem deitar e rolar ao mergulharem nas numeralhas das empresas. Ou seja: os sindicalistas passam a contar com todo o inventário econômico e financeiro das companhias para fazerem uso como e quando bem entenderem. Quem quer dividir os segredos de uma empresa com sindicalistas numa operação supostamente benéfica a ambas as partes, mas com potencial de bumerangue na virada de esquina de um futuro qualquer?
 
Ferramental partidário
 
É claro que não foi apenas essa espécie de bomba relógio o aspecto que caracteriza o jornalismo de Luluzinho da mídia em geral no relacionamento com sindicalistas. Não é de hoje que os repórteres são presas fáceis de uma doutrinação muitas vezes equivocada em nome de suposta representação dos trabalhadores. No caso específico do PPE, está mais que na cara que o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, de onde partiu a ideia do projeto, quer mesmo é amenizar a crise político-partidária que abala o PT, agremiação à qual está vinculado com a intermediação da CUT (Central Única dos Trabalhadores).


Inspirado em políticas de relações trabalhistas da Alemanha, o PPE é um engodo porque transmite a sensação de que resolverá os problemas do Grande ABC, ou mesmo os amenizará, quando, de fato, vai ser apenas um esparadrapo. Nosso drama é estrutural, de Custo ABC, e tem no sindicalismo com um dos principais vértices às resoluções necessárias. Um sindicalismo que teima em desprezar conceitos de produtividade e que, por isso mesmo, perde o jogo da competição no próprio território nacional.
 
Apenas grão de areia
 
Os 550 trabalhadores da Rassini que vão trabalhar 15% menos e vão perder 7,5% dos vencimentos são um grão de areia (0,22%) ante os mais de 247 mil operários do setor industrial com carteira assinada na região. A projeção do governo federal, de que o Programa de Proteção ao Emprego deverá contemplar até 50 mil trabalhadores, não fica atrás como atomização da medida diante de quase 10 milhões de carteiras assinadas na atividade no País.
 
O que os jornalistas de diários de todos os cantos do Brasil ainda não perceberam – e isso vem desde longe – é que os sindicalistas de setores mais politicamente engajados fazem de cada um deles gato e sapato com uma artilharia pesada de proselitismo econômico-social que não passaria por rigores que contemplem análise crítica independente.
 
Como o peso relativo da atividade industrial sob a influência do conglomerado CUT-PT na região é considerável e, principalmente, como o estado de condicionamento técnico e operacional da massa de indústrias da região está aquém, muito aquém, dos níveis nacionais e internacionais mais resilientes à concorrência, a cobertura sindical deste Diário é de permissividade acachapante. Nenhuma solução dos problemas industriais enraizados na região será alcançada sem o desmonte do conservadorismo sindical que, em suma, age como espantalho a novos investimentos no setor.
 
*Matéria originalmente publicada no Diário do Grande ABC


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