Economia

Governo FHC proletariza
classe média da região

DANIEL LIMA - 09/06/2006

O Grande ABC crescentemente classe média no embalo de três décadas da indústria automotiva mergulhou na maior crise socioeconômica de sua história a partir da segunda metade dos anos 1990, até tornar-se reduto prevalecentemente proletário. Foi por água abaixo sem choro nem vela a decantada mobilidade social, traduzida como a possibilidade prática de miserável virar pobre, de pobre virar classe média-baixa, de classe média-baixa virar classe média-média, de classe média-média virar rico e de rico virar milionário.


 


Os oito anos do governo Fernando Henrique Cardoso, entregues à abertura econômica combinada com série de descuidos, tornaram os sete municípios do Grande ABC maiores vítimas da precarização do mercado de trabalho no Brasil. O rebaixamento de salários é um dos mais contundentes rescaldos da transposição apressada do nacional-desenvolvimentismo para a globalização, casa de marimbondos em que o Brasil se meteu nos anos 1990. O Grande ABC combinou quebra de valores salariais com monumentais perdas de empregos industriais, alma e coração de sustentação da classe média.


 


LivreMercado é a única publicação do País a aferir historicamente, sem qualquer preocupação com veleidades político-partidárias, o quanto o Grande ABC cantado em verso e prosa como região rica perdeu tônus econômico e ganhou complicações sociais. Depois de revelar em 2003 que a economia do Grande ABC perdeu mais de um terço de riqueza produtiva altamente desindustrializada durante os oito anos do governo FHC (1995 a 2002), LivreMercado vai mais fundo agora com novas estatísticas oficiais.


 


Se tivesse perdido apenas Valor Adicionado que, em resumo, é a capacidade de produzir riqueza, o Grande ABC até que não estaria escancarando tantos problemas sociais, mesmo depois de recuperar-se parcialmente nos três primeiros anos do governo Lula da Silva. Entretanto, como não se fica impune à derrocada da principal fonte de energia econômica, no caso regional o setor industrial dominado largamente pela atividade automotiva, as sequelas são maiores. Alguns tópicos que exigem detalhamento provam o quanto a região foi deslocada para o acostamento do desenvolvimento econômico e o quanto abortou o processo histórico de mobilidade social durante os oito anos de FHC:


 


 O conjunto de sete municípios perdeu quase metade dos trabalhadores e executivos que recebiam mais de 20 salários mínimos. Nenhuma outra localidade ou região do País apresenta situação semelhante.


 


 Os sete municípios da região viram crescer como nenhum outro território o universo de trabalhadores que passaram a ganhar até cinco salários mínimos.


 


 A substituição de empregos industriais por empregos de comércio e serviços, o chamado terciário, instalou a média relativa de contratações de trabalhadores do Grande ABC em patamar muito mais elevado do que outros territórios. Isso significa que o choque foi estupidamente maior, com enormes repercussões sociais, principalmente porque o emprego industrial que predominava na região era muito mais rico em salários e benefícios indiretos por conta da atuação sindical.


 


 A queda relativa de empregos industriais do Grande ABC foi muito superior também a outras localidades. Só perde para a vizinha São Paulo que, entretanto, teve menor impacto na participação relativa de empregos do terciário.


 


 Também ultrapassou todos os limites o definhamento do emprego industrial em comparação com os demais setores econômicos do Grande ABC. Embora ainda mantenha a maior proporção de carteiras assinadas no confronto com comércio, serviços, construção civil e agropecuária, a indústria do Grande ABC sofreu duros reveses no período da pesquisa. Essa constatação ajuda a explicar o empobrecimento da classe média.


 


Dados irrebatíveis


 


Os dados estatísticos utilizados pelo IEME (Instituto de Estudos Metropolitanos), laboratório virtual que é o braço de pesquisas de LivreMercado, confrontam números do conjunto dos sete municípios do Grande ABC (G-7) com São Paulo, Guarulhos, Osasco (o chamado G-3C), São José dos Campos, Campinas e Sorocaba (o chamado G-3I), com a Região Metropolitana de São Paulo, com o Estado de São Paulo e também com o Brasil. O chamado G-13, formado pelos sete municípios do Grande ABC, São Paulo, Osasco, Guarulhos, São José dos Campos, Sorocaba e Campinas, representa quase a metade da riqueza do Estado mais rico da Federação.  


 


O derrame de empregos com carteira assinada de mais de 20 salários mínimos foi insuperável no Grande ABC. A região contava em dezembro de 1994 com 43.389 trabalhadores no topo de assalariamento, contra apenas 22.412 96 meses depois. A queda de 48,3% é quase o dobro da média do G-13, o grupo de 13 dos principais municípios paulistas. E mais que o dobro dos 22,9% registrados por São Paulo, Osasco e Guarulhos, o G-3C. Campinas, Sorocaba e São José dos Campos, o G-3I, para onde se deslocou parte das indústrias que deixaram a Região Metropolitana de São Paulo, perderam apenas 9% de empregos formais de mais de 20 salários mínimos.


 


Os 20.977 assalariados deserdados do topo da pirâmide seriam suficientes para lotar o Estádio Bruno Daniel, em Santo André. E ainda sobraria gente para fervilhar a Estância Alto da Serra, disputadíssimo ponto da música country na região. Dos municípios locais, Ribeirão Pires bateu todos os demais: foram para o ralo da reestruturação corporativa nada menos que 86,6% dos postos de trabalho cujos titulares receberiam em valores de hoje pelo menos R$ 7 mil. Nada surpreendente para o Município paulista que durante o governo FHC mais perdeu produção industrial.


 


Quem menos perdeu salários mais robustos no Grande ABC no período foi São Caetano, com queda de 26%. Mas antes que se ouça o espoucar de fogos de artifícios de triunfalismo, é melhor relativizar os dados porque o Município reconhecidamente de melhor qualidade de vida na Região Metropolitana de São Paulo implementou o que poderia ser chamado de guerra fiscal no setor de serviços. Essa medida de engenharia tributária amenizou as perdas industriais mas artificializou folhas de pagamento. Muitos empregos que constam dos cadastros do Ministério de Trabalho como originários de São Caetano estão apenas na papelada dos empreendimentos, porque percentual elevado reside principalmente em São Paulo.


 


Qualquer embate do Grande ABC com os três principais municípios do Interior pesquisados pelo IEME ganha conotação fratricida. Campinas perdeu apenas 4,5% de empregos com mais de 20 salários mínimos, São José dos Campos 13% e Sorocaba 18,3%. Esses três municípios são espécie de sedes metropolitanas das regiões no entorno da Grande São Paulo. Já os três municípios da Região Metropolitana que completam o G-13 oferecem certo consolo para os números do Grande ABC. Nada escandalosamente parecidos, mas menos impactantes em relação aos três municípios interioranos: São Paulo viu cair em 21,7% o estoque de empregos formais de mais de 20 salários mínimos, Guarulhos 44% e Osasco 30,7%.


 


Não é difícil compreender a maior proximidade entre os números desesperadores do Grande ABC e dos três municípios mais pujantes da Grande São Paulo: a Região Metropolitana de São Paulo não suportou as dores da abertura econômica. O custo da chamada deseconomia de escala na metrópole virou espantalho para muitos empreendimentos que observaram a virada do século levando em conta uma palavra indissociavelmente voltada à sobrevivência: competitividade.


 


Por isso mesmo os 39 municípios da Região Metropolitana de São Paulo viram desaparecer, em média, 26% dos empregos de mais de 20 salários mínimos. Pouco diferente da média de 26,4% do Estado de São Paulo. Isso mostra que, apesar da troca de posições entre a Grande São Paulo e o restante do Estado, quando a produção industrial predominante nos 39 municípios deslocou-se para as demais regiões paulistas, especialmente à São Paulo Expandida, a contração salarial se mostrou sólida. Nada diferente do processo que atingiu o Brasil como um todo que, no mesmo período, viu encolher em 24,8% as carteiras de trabalho de mais de 20 salários mínimos.


 


Desbalanço evidente


 


O desbalanço entre perda de empregos formais de mais de 20 salários mínimos e aumento de empregos formais de até cinco salários mínimos é latente nos estudos do IEME, sempre com base em números oficiais do Ministério do Trabalho. O acréscimo de 59% do pelotão de trabalhadores de baixos vencimentos mensais (a faixa de até cinco salários mínimos significa, em valores de hoje, no máximo R$ 1.750) no Grande ABC contrasta com a média de 37% no G-3I (Campinas, Sorocaba e São José dos Campos) e está acima dos 46% do G-3C (São Paulo, Guarulhos e Osasco). Se o confronto for com a média do G-13 (exatamente os 13 municípios citados), a derrota é fragorosa: a massa de trabalhadores de até cinco salários mínimos cresceu apenas 12,3% no período de oito anos do governo FHC, incluindo-se os números do Grande ABC. A proletarização salarial na Região Metropolitana de São Paulo (17,6%) é menos de um terço da média registrada no Grande ABC. O Estado de São Paulo contabilizou 27,6%. A média nacional, mesmo elevada, de 43%, está aquém da dos sete municípios da região.


 


Reflexo da guerra fiscal no setor de serviços, São Caetano apresentou o maior saldo de empregos de até cinco salários mínimos no G-13: 157,2% entre janeiro de 1995 e dezembro de 2002. Foi exatamente nesse período que o então prefeito Luiz Tortorello mobilizou céus e inferno para atrair empresas das áreas de consórcio, finanças, segurança, construção civil, entre outras. Beneficiados pelo rebaixamento de alíquotas de ISS, empreendimentos em larga margem sediados e com atuação na Capital optaram por transferir para São Caetano o endereço jurídico, embora mantivessem os empregos principalmente na maior cidade da América do Sul.


 


Os números artificializados de São Caetano inflam os dados gerais do Grande ABC também na identificação de empregos de até cinco salários mínimos. Entretanto, por terem peso absoluto relativamente de baixo impacto, não descaracterizam a realidade. E a realidade é que, em contraponto às volumosas perdas de empregos industriais sempre mais bem remunerados, o Grande ABC viu explodir o setor terciário até então acanhado. Com isso, a incidência de salários mais modestos mostrou-se predominante.


 


De 229.550 empregos de até cinco salários mínimos registrados em 1994 o Grande ABC saltou para 364.706 em 2002. A diferença de 135.156 compensou com folga em números absolutos os 20.977 empregos de mais de 20 salários mínimos destruídos no mesmo período. Entretanto, nem de longe essa equação deve ser vista com desassossego porque ignora a proletarização dos vencimentos e despreza as demais faixas salariais. Se até cinco salários mínimos o saldo de empregos formais na região é de 135.156 trabalhadores no período da pesquisa, a contabilidade se modifica quando se somam empregos de mais de cinco salários mínimos destruídos pela abertura econômica: em 1994 o Grande ABC contava com 276.514 postos na larga faixa que vai de 5,1 a mais de 20 salários mínimos, contra 187.896 registrados em 2002. Uma diferença de 32%, ou a perda de 88.514 postos de trabalho. A conta reduziria o saldo de empregos formais em todas as faixas salariais a 46.642 carteiras assinadas.


 


Como o setor industrial perdeu 81.200 trabalhadores no mesmo período, o resultado final se deve às demais atividades (comércio, serviços, agropecuária, construção civil, entre outras) que, comprovadamente, contam com política salarial menos generosa. Daí a proletarização.


 


Extrapolando os números de empregos formais acima de cinco salários mínimos, incluindo os de mais de 20 salários mínimos, constata-se que o Grande ABC mantém a liderança absoluta de perdas. Houve quebra de 32%, quase o triplo (11,1%) da média de São Paulo, Osasco e Guarulhos (G-3C), mais que o triplo (9,8%) das perdas conjuntas de Sorocaba, Campinas e São José dos Campos (G-3I) e mais que o dobro (13,7%) do G-13, exatamente os 13 municípios da soma entre G-7, G-3C e G-3I.


 


Individualmente, por Município, quem mais perdeu empregos no G-13 na faixa de 5,1 salários mínimos em diante foi Ribeirão Pires, com 60%. Diadema também sofreu duramente os efeitos da proletarização, com queda de 42,6%. Quem menos sofreu no Grande ABC foi São Caetano, com perda de 16,3%. Rio Grande da Serra não deve ser considerada porque caminhou na contramão dos demais municípios, com avanço de 144%. Tudo se deve ao pequeno universo de trabalhadores com carteira assinada combinado com a guerra fiscal no setor de serviços, que levou para seu território uma empresa do segmento de plano de saúde.


 


Quando se estende o confronto de queda de empregos com carteira assinada de mais de cinco salários mínimos, a situação se torna mais crítica e localizadamente acachapante para o Grande ABC: os paulistas, em média, perderam apenas 1% dessa massa de assalariados, contra 13% da Região Metropolitana de São Paulo e 12,5% da média brasileira. Como se vê, o desastre é tipicamente regional.


 


Sangria industrial


 


O comportamento do emprego no setor industrial no Grande ABC durante os oito anos do governo Fernando Henrique Cardoso apresentou perda relativa quase que em dobro em relação ao Estado de São Paulo, fixou-se muito acima da média da Região Metropolitana de São Paulo e só supera o que foi registrado na cidade de São Paulo. Mas o resumo da ópera do governo FHC não se encerra com esse enunciado: numa evidente comprovação de que a abertura econômica (e também a guerra fiscal) atingiu em cheio especialmente o principal Estado da Federação, o Brasil como um todo, mesmo contaminado pelas estatísticas paulistas, apresentou saldo de 0,7% de postos de trabalho na atividade industrial.


 


Embora a capital paulista tenha apresentado queda de 36% no emprego formal do setor industrial, o duro golpe perpetrado entre janeiro de 1995 e dezembro de 2002 tem menos força que os 45,7% de Ribeirão Pires e os 44,4% de São Caetano. Os demais integrantes do G-13 sofreram percentualmente menos que a Capital. O G-7 perdeu 29,4% dos empregos industriais no período. Contava com 276.650 trabalhadores no ano de implantação do Plano Real e ficou com apenas 195.323 em dezembro de 2002. Foram 81.327 carteiras assinadas destruídas. O G-3C (São Paulo, Guarulhos e Osasco) perdeu 295.891 empregos industriais, ou 33% dos postos ocupados, caindo de 897.526 para 606.635 trabalhadores. O G-3I (São José dos Campos, Sorocaba e Campinas) comprova no mercado de trabalho o deslocamento de indústrias da Grande São Paulo para a São Paulo Expandida, já que, apesar do ricocheteamento da globalização, viu desaparecerem apenas 8,7% dos empregos industriais formais nos oito anos de FHC: eram 136.211 em 1994 contra 124.297 em 2002. No conjunto, o G-13 perdeu 389.132 empregos industriais, ou 29,7% do estoque de 1994.


 


O Estado de São Paulo, excluindo-se o G-13, chegou ao final do período com saldo positivo. Afinal, dos 2.354.526 empregos formais industriais de 1994 sobraram 1.973.231 em 2002. Se descontados os 389.132 empregos perdidos pelo G-13, o saldo negativo dos paulistas de 381.295 se reverterá positivo em 7.837. A tradução é que, fora da órbita dos 13 municípios que concentram a maior parcela da produção industrial do Estado, houve resultado positivo embora discretíssimo no balanço de postos de trabalho na indústria de transformação. O G-13 contava com 55,6% dos empregos industriais no Estado em 1994 mas, na ponta da pesquisa, em 2002, caiu para 46,6%. Uma tendência que deverá ter sido aprofundada nos anos seguintes.


 


Terciário avança


 


Evidente consequência do empobrecimento salarial e do arrefecimento industrial, o diagnóstico do emprego de comércio e serviços nos sete municípios locais mostra que o crescimento de postos de trabalho com carteira assinada não tem paralelo nas localidades pesquisadas. Entre janeiro de 1995 e dezembro de 2002 o Grande ABC acrescentou 65,7% empregos no terciário. Passou de 208.334 para 345.295, ou saldo de 136.961. O G-3C (São Paulo, Guarulhos e Osasco) avançou 14,2% de trabalhadores formais no terciário (2.553.684 contra 2.916.488), enquanto o G-3I (Campinas, Sorocaba e São José dos Campos) chegou a 45% (230.543 contra 334.429). O avanço de emprego do terciário no Grande ABC é três vezes superior à média do G-13 (os 13 municípios mencionados), que chegou a 20,2%.


 


A explosão do emprego no terciário do Grande ABC (com consequente subida dos empregos formais de até cinco salários mínimos) também pode ser constatada no confronto com a média do Estado de São Paulo, de 32,7% (de 4.542.020 postos de trabalho em 1994 para 6.026.506 em 2002). A Região Metropolitana de São Paulo é adversária ainda menos influente porque cresceu apenas 24,7% no mesmo período. Já a média nacional de criação de empregos formais no terciário chegou a 41,2%: passou de 14.722.843 trabalhadores em 1994 e chegou a 20.796.387 em 2002.


 


Em nova prova de que o terciário de São Caetano ganhou musculatura no período porque foi impulsionado pela guerra fiscal, o emprego formal saltou 173%, quase três vezes a média do G-7 (Grande ABC), 12 vezes a média do G-3C (São Paulo, Guarulhos e Osasco), 8,5 vezes a média do G-13, cinco vezes a média dos paulistas e quatro vezes a média brasileira. Como representa 23% dos empregos do terciário no Grande ABC, a influência de São Caetano na média regional acaba diluída.


 


O terciário do G-13 representava em 1994 nada menos que 65,8% dos empregos paulistas (2.992.561 contra 4.542.020). Já em 2002 a participação caiu para 59,6% (3.596.212 contra 6.026.506).


 


Cai estoque industrial


 


A participação do emprego industrial com carteira assinada quando comparada ao estoque geral de empregos desabou no Grande ABC com impacto muito maior do que em qualquer outra localidade do País. Isoladamente o emprego industrial não deve ser orquestrado como prova insofismável de desindustrialização. Entretanto, no caso específico do Grande ABC, a baixa exponencial se junta à constatação de emagrecimento das atividades no setor de transformação. A situação comprova, por outro lado, que a andorinha de crescimento de empregos do setor terciário não faz versão de desenvolvimento econômico.


 


Em dezembro de 1994 o Grande ABC contava com 53,7% de empregos formais na indústria, contra 46,3% das demais atividades, no caso construção civil, comércio, serviços e agropecuária. Oito anos depois do governo FHC, o Grande ABC caiu para 35,3% de empregos industriais. Mais de 20 pontos percentuais, ou 34,2%. A tradução disso é que de cada 100 empregos com carteira assinada na região em 1994, 53,7 estavam nas indústrias. Já em 2002, apenas 35,3 estavam nas fábricas. Não existe melhor explicação para a desmobilidade social do Grande ABC no período, já que, tradicionalmente, o emprego industrial é maior e oferece mais contrapartidas financeiras.


 


Em números, torna-se mais clara a tradução dessa quebra de empregos de salários mais elevados e que até então reuniam vantagens adicionais conquistadas na esteira da mobilização dos metalúrgicos. Em 1994, a indústria do Grande ABC gerava 276.650 postos de trabalho industriais de um total de 514.551. Já em 2002 os empregos industriais caíram para 195.323 postos do total geral de 553.360. O saldo de empregos formais na região, considerando-se todas as atividades pesquisadas no período de oito anos, foi de apenas 38.809. Um pouco mais que os 30 mil empregos que o Grande ABC precisaria gerar por ano para dar atender à População Economicamente Ativa. A incapacidade de gerar riqueza, que também se espalha pelo País, ajuda a explicar o mercado informal que, segundo as últimas investigações estatísticas, reuniria dois empreendimentos para cada negócio legalizado.


 


A compartimentação dos números dos sete municípios da região revela baixas acentuadas de Diadema, Ribeirão Pires, São Bernardo, Rio Grande da Serra e São Caetano. Em 1994, Ribeirão Pires contava com 62,7% dos empregos no setor industrial, contra apenas 43,7% em 2002. Já Diadema reunia 73,2% carteiras assinadas do setor de produção, contra 59,7% oito anos depois. São Caetano caiu de 40,8% para 13,2%. São Bernardo mergulhou em esvaziamento do emprego industrial, de 61,4% para 42,8% no período. Nos casos de São Bernardo, Ribeirão Pires e Diadema, o que pesou no declínio de emprego industrial foi mesmo a redução de trabalhadores do setor, enquanto as demais atividades mantinham estabilidade. Já a situação de São Caetano e de Rio Grande da Serra é diferente: além do emprego industrial declinante, o setor de serviços, no embalo da guerra fiscal, cresceu extraordinariamente.


 


Santo André teve queda de 10 pontos percentuais na relação entre emprego industrial e das demais atividades, mas o choque de demissões de trabalhadores do setor de produção foi menos impactante que os registrados por Diadema, Ribeirão Pires e São Caetano. Mauá é o único Município do Grande ABC a explicitar estabilidade de participação do emprego industrial no conjunto de ocupações formais: em 1994 registrava 48,7%, contra 46,6% de 2002. Tanto num caso (empregos industriais) quanto no outro (demais empregos) os números variaram levemente. Má notícia para quem deveria acrescentar 4,2 mil empregos a cada ano.


 


Se o Grande ABC perdeu no período da pesquisa 34,2% de participação do emprego industrial no conjunto das ocupações, o G-3C, representado por São Paulo, Osasco e Guarulhos chegou a 30,5%: caiu de 23,6% (897.526 carteiras assinadas de um total de 3.796.698) registrados em 1994 para 16,4% em 2002 (601.635 empregos industriais de um total de 3.666.093). Individualmente, São Paulo perdeu participação relativa do emprego industrial de 22% para 14,6%, Guarulhos de 51,6% para 40,4% e Osasco de 31% para 26,1%.


 


O golpe que acertou em cheio o emprego industrial no Estado de São Paulo, com média de 23,3%, foi menos destrutivo no G-3I, formado por Campinas, Sorocaba e São José dos Campos. Em 1994 esses municípios contavam com 32,2% dos empregos formais alocados no setor industrial, contra 25,6% na ponta da pesquisa. A queda de 20% está muito abaixo também dos efeitos registrados no Grande ABC e no círculo de São Paulo, Osasco e Guarulhos. Mais uma prova de que as grandes mudanças que ocorreram na economia paulista nos anos FHC atingiram mesmo mais fundo os maiores municípios da Região Metropolitana de São Paulo.


 


Enquanto a perda do emprego industrial frente às demais atividades atingiu 23% no Estado de São Paulo, no âmbito nacional o índice foi um pouco menos desgastante: 21,6%. Os paulistas contavam com 2.354.426 empregos industriais em 1994, contra 5.599.884 apontados no Brasil. Já o estoque geral de empregos paulistas naquele ano atingia 7.837.396 carteiras assinadas, contra 22.317.334 no Brasil. Em 2002 os números se alteraram significativamente: os paulistas contavam com 1.973.231 empregos industriais de um total de 8.608.048, enquanto o País contabilizava 5.642.941 ocupações industriais de um total de 28.683.913.


 


Em 1994, de cada 100 empregos industriais no Brasil, 42 contavam com a marca do Estado de São Paulo. Já em 2002, a relação caiu para 35 — 16,6% de queda. Do total de empregos paulistas, independentemente de setores, a proporção em 1994 era de 35 para cada grupo de 100 carteiras assinadas. Em 2002, a relação caiu para 30 — ou menos 14,8%.


 


Se o Grande ABC for confrontado com números gerais, a situação será a seguinte: no emprego industrial, de cada 100 carteiras assinadas em 1994, 11,7 estavam na região quando se confronta com o Estado de São Paulo e 4,9 quando se coloca o Brasil como referencial. Oito anos depois, o Grande ABC participava com 9,9% no Estado de São Paulo (queda de 15,3%) e 3,4% do Brasil (queda de 30%). Já no emprego geral, de todas as atividades, o Grande ABC representava 6,5% das ocupações no Estado de São Paulo e 2,4% no Brasil em 1994, contra 6,4% entre os paulistas e 1,9% do Brasil em 2002. Marteladamente, o Grande ABC perde em números relativos e absolutos.                                       


 


Salário mínimo cresce


 


Durante os oito anos do governo Fernando Henrique Cardoso, o salário mínimo aumentou em termos reais 20,8%, contra 32,2% do governo Lula da Silva, de janeiro de 2003 até maio deste ano. Os 20,8% dos anos FHC amenizam apenas parcialmente a queda de assalariados com carteira assinada que em 1994 detinham faixas salariais de pelo menos 5,1 salários mínimos. A tendência de reajustes salariais menores para quem ganha mais de um salário mínimo é a rotina nas negociações realizadas nos períodos de FHC e de Lula.


 


Segundo estudos da LCA Consultores, divulgados no mês passado pelo jornal Valor Econômico, a gestão de Lula optou por agir em duas frentes: mais salário mínimo e transferência de renda. Diferentemente do período FHC, que preferiu dar prioridade à transferência de renda.


 


Ou seja: dava mais dinheiro aos pobres em programas sociais, mas evitava rombo maior nas contas públicas, principalmente na Previdência Social.


 


A explicação para a vantagem de Lula da Silva nas pesquisas eleitorais em camadas mais populares não está apenas no programa Bolsa Família. No fim do governo FHC, segundo dados da MB Associados, um salário mínimo comprava em média uma cesta básica e meia. Nos primeiros meses de 2006, um trabalhador pôde comprar a cesta básica gastando menos da metade do salário mínimo. Do outro lado, entretanto, mais precisamente da classe média, a situação é diferente, mesmo com o controle da inflação. Os custos com serviços de concessionárias do Estado em energia elétrica, telecomunicações e tarifas diversas elevaram-se demais até a estabilização e a desvalorização do dólar no governo Fernando Henrique Cardoso.


 


É muito provável que quando emergir o balanço dos quatro anos do governo Lula da Silva a situação desestabilizadora que marcou a economia do Grande ABC e os resultados no mercado de trabalho revelem recomposição parcial dos dados. Nos dois primeiros anos de Lula o Valor Adicionado do Grande ABC cresceu 13%, contra queda de 34,5% da fase FHC. Os números do ano passado ainda não foram anunciados. É mais que provável que também serão positivos, porque a indústria automotiva, coração da engrenagem econômica regional, voltou a apresentar números satisfatórios. Também o mercado de trabalho apresentou evolução. Resta saber — e quanto a isso só dados detalhados serão esclarecedores — se o saldo de contratações manteve o viés de castração das faixas salariais típicas de classe média e em favor da proletarização do emprego formal.


 


Qualquer sinalização de que o mercado de trabalho do Grande ABC parou de sofrer sangrias dos melhores salários deverá merecer comemoração, porque poderá ser a senha para projetar perspectiva de retirada da região da zona de turbulência de depauperação da mão-de-obra. A ascensão de classes populares e o rebaixamento de classes mais ricas são movimentos que requerem atenção. Não faltam estudiosos que já acenam com a vantagem de contar com a chamada classe “C” mais volumosa. Eles esquecem que isso se deve principalmente ao rebaixamento de faixas salariais de classe média e não, como sugerem, à mobilização social.  


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