Economia

Pequeno-grande
começa a assustar

DANIEL LIMA - 05/11/2000

Mais um maremoto se aproxima dos negócios de pequeno porte do setor comercial do Grande ABC. Depois de shopping centers, grandes cadeias de materiais de construção e de hipermercados ocuparem espaços nobres, agora é a vez dos pequenos-grandes provocarem tremores. Gigantes mundiais do varejo apontam as armas para conquistar a periferia através de instalações menores, entre 300 e 800 metros quadrados, e variedade limitada de produtos. Carrefour, Pão de Açúcar e Wal Mart estão de olho nas classes de consumidores mais populares com instalações simples e de estoques mínimos. São pequenos negócios de bairros extremamente  competitivos.


 


Para quem entende que a situação de desespero que envolve o pequeno negócio varejista só é explicada pelo despreparo administrativo, a posição de Gilberto Wachtler do Supermercado Primavera, de Santo André, é elucidativa. Gilberto é membro da diretoria da Apas (Associação Paulista de Supermercados) no Grande ABC, representa o segmento de supermercados de pequeno porte e enxerga a gravidade da disparidade de forças sem meias palavras: "As grandes redes com necessidades cada vez maiores de expansão, a concorrência cada vez mais acirrada, a estabilidade econômica que nivela os preços diminuindo diferenças entre grandes, médios e pequenos, a grande pulverização do comércio informal causado pelo desemprego maciço que a região sofreu, tudo isso cria uma grande interrogação em nossas cabeças" -- afirma. "Quando se fala em impacto econômico, não podemos nos esquecer da Constituição Federal que jamais poderia se abster da proteção dos pequenos. Regras claras sobre a instalação de grandes redes, mesmo no âmbito municipal, devem ser vistas com prioridade" -- sugere o dirigente da Apas.


 


Como revelou LivreMercado na edição de outubro, o Carrefour é mais uma rede a descobrir o Grande ABC com o conceito de mercado de vizinhança, inaugurado com o Sé Supermercados. São Bernardo receberá a primeira loja da rede Champion-Carrefour, que ocupará galpão de indústria de móveis desativada na esquina da Avenida Prestes Maia com Rua José Benedetti, no Centro. A rede Champion vai comercializar produtos de marcas próprias com preços até 40% mais econômicos se comparados com marcas líderes. O modelo atende a 85% das necessidades de compra básica de supermercado de uma família, segundo projeção de Eduardo Terra, professor e consultor do Provar (Programa de Administração do Varejo) da USP (Universidade de São Paulo).


 


O consultor de varejo Marcos Gouvêa, da Gouvêa de Souza & MD, afirma que as novas operações das grandes redes de supermercados é resultado da concentração em hipermercados e supermercados. Chegou a oportunidade de investir em supermercados menores, de fácil aquisição ou instalação e baixo investimento. Mas pequeno negócio de grande rede também só se torna interessante se tiver escala. Quanto mais lojas melhor. A rede alemã Aldi, que ainda não chegou ao Brasil, conta com mais de sete mil estabelecimentos e faturamento de bilhões de dólares. "Com escala, as compras e os estoques são centralizados e o gerenciamento de custos torna-se mais produtivo, o que não ocorre com a maioria dos pequenos varejistas" -- afirma o consultor Eugênio Foganholo, da Mixxer Consultoria.


 


Para Gilberto Wachtler, a situação do pequeno varejista na região recomenda a criação de secretarias municipais voltadas especificamente para o segmento: "Mais grave que um impacto econômico, a região estará sofrendo o impacto social de consequências graves" -- afirma o empreendedor. Um brado que não tem encontrado o menor respaldo de dirigentes públicos da região. A situação do pequeno negócio no Grande ABC tem sido esmiuçada por LivreMercado, inclusive com Reportagem de Capa. A reação prática de lideranças públicas tem se mantido pendular. Oscila entre a indiferença absoluta  e pretensa dissimulação. Tanto num caso como no outro a torcida é por novos investimentos de porte. Afinal, o recolhimento de impostos é concentrado. Para uma região que perdeu centenas de indústrias, não interessa de onde vêm o dinheiro dos impostos. 


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