Economia

Contagem regressiva: quando o PT
vai chegar ao fundo do poço de FHC?

DANIEL LIMA - 30/09/2015

Quem leu o artigo que escrevi ontem sobre a nova derrocada do emprego industrial com carteira assinada na Província do Grande ABC (e quem não leu que trate de ler para não se consolidar como desinformado endêmico, primeiro passo para falar besteira e ver fantasmas em jornalistas independentes) vai entender o que sugiro no título deste novo texto: vou fazer a contagem regressiva (que também poderia ser progressiva) da destruição de postos de trabalho na gestão petista e confrontá-la com o estoque fragilizado que o governo Fernando Henrique Cardoso deixou na região ao final de mandato.


 


Repararam os leitores que ao promover o antagonismo entre petistas e tucanos sem dar refresco a nenhum dos dois partidos eu estou praticando jornalismo isento de ideologia? Sempre foi assim, porque, como dizia o economista e ex-ministro dos tempos de Regime Militar, Roberto Campos, um dos mais brilhantes articulistas econômicos que este País já teve (independentemente de juízo de valor sobre seu pensamento estrutural), a ideologia congela a inteligência. Como burro não sou, nem outro bicho de quatro patas, nada melhor que exercitar dados estatísticos de modo profundo, preferencialmente analítico.


 


900 demissões por mês


 


Pode ser que na semana que vem venha a fazer alguma alteração, porque o Ministério do Trabalho às vezes dá uma mexidinha no histórico de empregos no País, mas até prova em contrário, noves fora, o governo petista conta com saldo positivo de 36.030 postos de trabalho no setor industrial em relação à herança deixada por Fernando Henrique Cardoso, em 2002. Como mostrei no artigo que assinei ontem, os oito anos de Lula da Silva na presidência da República representaram saldo de 60.553 empregos no setor. Com Dilma Rousseff perdemos até agora nada menos que 24.523. Sobram, portanto, 36.030. Se perdermos, como escrevi ontem, 900 empregos industriais em média por mês até dezembro de 2018, quando Dilma Rousseff completaria o mandato, teríamos zerado o saldo de Lula da Silva e sua febre consumista, sobretudo automotiva e também imobiliária.


 


Farinha do mesmo saco


 


Pois é em cima desses números que mensalmente faremos contagem regressiva sobre os estragos petistas. Não vou separar de jeito nenhum o governo de Lula do governo Dilma, como se houvessem dois PTs no Brasil. São as duas gestões farinha do mesmo saco, com a diferença de que a porção do saco de farinha que compete a Lula da Silva foi anabolizada principalmente com crédito farto e farra de receitas extraordinárias, além de commodities valorizadíssimas sobretudo no mercado asiático.


 


A porção do saco de farinha que compete a Dilma Rousseff, do mesmo saco de farinha de Lula da Silva, reproduz o quanto a atual presidente está a lidar com os escombros de seu mentor, porque a conta sempre há de chegar, como chegou dolorosamente para os brasileiros. O ajuste fiscal não é obra de sadismo. É consequência do estatismo desenfreado que um grupinho retrógrado de economistas, Márcio Pochmann e Luiz Gonzaga Beluzzo à frente, procura ressuscitar para matar de vez o enfermo.


 


Não pensem os leitores que vou ter algum tipo de prazer em registrar, mês a mês, baixas e mais baixas de emprego industrial com carteira assinada na região. Muito pelo contrário. Quem como este jornalista comandou durante 15 anos a maior premiação regional do País, o Prêmio Desempenho -- cujo escopo era a valorização do empreendedorismo privado, público e social -- não fica feliz com derrotas sobre derrotas.


 


Competitividade solapada


 


Mas o que se pode fazer se não temos nem aqui nem em nível nacional um agrupamento de gente competente que utilize o poder constituído para promover profundas transformações no País que, conforme revelam os jornais de hoje, caiu novos 18 postos no ranking mundial de competitividade e cada vez mais flerta com a zona de rebaixamento?


 


Escrevi competitividade? Eis um verbete amaldiçoado sobretudo pelos sindicalistas locais. Todos preferem mesmo as tetas do Estado em forma de Programa de Proteção ao Emprego, modalidade que só adia, quando adia, demissões inexoráveis, enquanto mantêm intocáveis sinecuras de improdutividades.


 


Vou sim anunciar mês a mês o andar da carruagem do emprego mais precioso e transformador da sociedade regional -- o emprego de valor agregado do setor industrial. E vou continuar a não dar importância quase nenhuma aos demais tipos de ocupações, de comércio e de serviços, por exemplo. Embora importantes, não fazem cócegas no emprego industrial e, mais que isso, podem mascarar a realidade dos fatos.


 


Sim, mascarar a realidade dos fatos: na medida em que, por exemplo, contratam-se algumas centenas e até alguns milhares de trabalhadores de call-center numa determinada temporada na região, e se perdem milhares de empregos industriais, pode-se levar ao leitor a falsa ideia de que a crise não é tão severa como de fato o é. Somente mais tarde, quando aparecem os dados sobre PIB (Produto Interno Bruto) e, principalmente, potencial de consumo, a desgraceira emerge e, invariavelmente, é escamoteada pela imprensa cor de rosa. Isso não é teoria, é realidade histórica.


 


Herança maldita


 


Então ficamos assim: no final do mês que vem, quando o Ministério do Trabalho e Emprego vai anunciar oficialmente os dados do comportamento do emprego formal em todos os municípios brasileiros em setembro, vou abrir uma manchetíssima (manchete das manchetes da primeira página) nesta revista digital para apontar o crescimento de demissões industriais e o consequente aproximar da quebra do estoque petista em direção ao piso deixado por Fernando Henrique Cardoso. Sem deixar de registrar, sempre e sempre, que, embora tenha sido tremendamente corrosivo ao equilíbrio socioeconômico da região, porque as medidas foram drásticas e sem as devidas cautelas cronológicas, o tucano deixou o País como um todo em situação bem melhor do que o PT ameaça repassar aos sucessores que, provavelmente, serão de outra agremiação.


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