Economia

Mercado imobiliário insiste em
tentar vender gato por lebre

DANIEL LIMA - 30/09/2015

Acreditem os leitores que faço esforço danado para não escrever mais do que o necessário sobre o mercado imobiliário, mas não tem jeito: a atividade é muito importante entre outros motivos porque mexe com milhões de reais de gente muitas vezes simples que compromete o orçamento familiar até o resto da vida. Por isso, acho que devo escrever rotineiramente sobre o mercado imobiliário. Trata-se de serviço de utilidade pública que causa horror aos especuladores do setor, os quais mobilizam métodos patéticos para tentar transformar este jornalista em bandido. Não é fácil enfrentar essa turma que quer vender gato enxotado por lebre paparicada.


 


O Clube dos Especuladores Imobiliários não toma jeito mesmo. Com o titular Milton Bigucci ou com os reservas, Milton Bigucci Júnior e Marcus Vinícius Santaguita, corre-se sempre o risco de comprar gato por lebre. A escolinha do professor Milton Bigucci, rejeitada pela maioria dos empreendedores do setor, é mesmo de lascar.


 


Querem um exemplo? Está no site daquela entidade que os dois diretores citados participaram entre 30 de agosto e 2 de setembro (sim, o período é esse mesmo, mas a matéria foi postada somente agora) da Convenção Secovi, na Capital. Secovi é o Sindicato da Habitação ao qual o Clube dos Especuladores Imobiliários está condicionado, inclusive para o pagamento de despesas diversas, já que a entidade regional mal se sustenta.


 


Pois nesse encontro, tanto um, Bigucci Júnior, quanto outro, Santaguita, venderam ou tentaram vender uma Província que só existia economicamente quando era Grande ABC, num passado que não volta mais.


 


Casa de enforcado


 


Possivelmente porque o evento contou apenas com gente do ramo imobiliário, especialistas em metro quadrado de terreno e de construção e também no entorno dessa equação, a pregação triunfalista entrou por um uma orelha e saiu por outra. As empresas da Capital que aqui desembarcaram durante o boom imobiliário e quebraram a cara sabem do que estou falando.  Há prédios de apartamentos e de salas comerciais rangendo de raiva com a ausência de investidores, compradores e locadores. Coisa de louco. São os nossos micos imobiliários.


 


A Província do Grande ABC é um bicho de sete cabeças que, para ser decifrado, exige muito conhecimento local temperado de dados macroestratégicos nacionais e internacionais. Ou alguém acha que a crise na China não nos atinge? Ou que nossas montadoras de veículos não estão encalacradíssimas diante do Custo ABC que se sobrepõe ao Custo Brasil?


 


Está lá (sem adequação ao manual de redação desta revista digital) no material jornalístico do Clube dos Especuladores Imobiliários, dito por Marcus Vinícius Santaguita: “O ABC possui localização estratégica, entre a capital e a baixada santista, além de estar no eixo do Rodoanel que dá acesso às principais rodovias do país. Além disso, a região possui grande concentração de renda devido às indústrias e ao setor de serviços que também evoluiu muito nos últimos anos, diversificando a economia das sete cidades que compõe o Grande ABC”.


 


Esclarecimentos indispensáveis


 


Aos esclarecimentos devidos, e breves: a localização estratégica da região foi para o espaço sideral e se converteu em arapuca cercada pela Mata Atlântica. Os eixos do Rodoanel, que passam tangencialmente pela região, criaram expectativas que não só não se confirmaram como foram revertidas: é melhor produzir fora da região logisticamente saturada e aproveitar os traçados do Rodoanel para atender tanto a massa de consumidores da Capital e do Interior como também ao mercado de exportação, salvo exceções que confirmam a regra. Quanto à concentração de renda, está certo o dirigente dos especuladores. Só faltou dizer que a concentração de renda é cada vez mais acentuada no estrato de um proletariado sem emprego industrial nas proporções necessárias, quando não negativas. Quanto à riqueza dos setores de comércio e de serviços, nada mais ilusória. Não contamos com atividades de valor agregado, geradoras de emprego de qualidade. Tanto que um quarto da população economicamente ativa bandeia-se para a Capital diariamente para labutar em empregos melhores.


 


Viagem de foguete


 


Quanto a Milton Bigucci Júnior, está na matéria oficial do Clube dos Especuladores Imobiliários: “A proximidade com a capital é um fator importante para atrair novos consumidores, pois a 10 minutos de São Paulo você consegue comprar um imóvel com características muito semelhantes, porém bem mais barato”.


 


Não é mesmo de lascar? Então estamos a apenas 10 minutos da Capital? De que ponto da Capital? De que ponto da região? Tudo propaganda enganosa! Quem conhece os limites geográficos da região em relação à Capital sabe a tortura diária de trafegar tanto na ida quanto na volta. É um parto. Venderam a incautos moradores da Capital que morar na região era um ótimo negócio, porque a mobilidade urbana seria exemplo de rapidez. Se no passado os engarrafamentos já eram uma tormenta, tudo se complicou com a febre automotiva associada à concentração imobiliária em determinadas áreas urbanas mais rentáveis e despreparadas ao fluxo adicional.


 


Milton Bigucci Júnior também falou sobre a chegada do monotrilho como algo para um futuro imediato de agilização dos deslocamentos com qualidade de vida. O monotrilho também foi para o espaço sideral, suspenso indefinidamente porque o País quebrou. E está longe de ser a maravilha de mobilidade apregoada. Sem contar que, como o Rodoanel, vai acentuar a fuga de investimentos da região.


 


Quem tem um pouquinho de vergonha na cara como jornalista que se preocupa em informar com responsabilidade social não fica calado diante de tamanhas sandices. Estamos fritos e mal pagos com esses propagadores de ilusões. Eles teriam muito a contribuir com a região caso se mobilizassem de verdade para atenuar as desventuras de morar e trabalhar numa região esquartejada economicamente, manietada logisticamente e destruída institucionalmente. Será que é cobrar demais?


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