Economia

São Bernardo: trajetória de uma
economia em frangalhos (2ª parte)

DANIEL LIMA - 05/10/2015

A riqueza em forma de Potencial de Consumo de São Bernardo no intervalo de 20 anos – contando-se de 1994, quando do lançamento do Plano Real, até 2014 -- cresceu muito menos que a média da Província do Grande ABC, que a média paulista e sobretudo que a média brasileira. Isso significa que esse indicador desnuda sem qualquer resquício de dúvida uma realidade que outros quesitos desta séria vão confirmar: a Capital Econômica da região está em sistêmico processo de empobrecimento econômico, com fundos reflexos sociais.


 


Para entender a verdadeira dimensão de Potencial de Consumo, especialidade da Consultoria IPC Marketing que metaboliza estatisticamente agregado de dados oficiais, o melhor é dizer que o medidor é espécie de PIB de riquezas acumuladas pela população de cada Município brasileiro.  Potencial de Consumo é muito melhor para avaliações consistentes do que PIB (Produto Interno Bruto). O que coloca os dois indicadores em polos diferentes é que o PIB mede anualmente o tamanho da riqueza construída em cada Município e no País com um todo, enquanto o Potencial de Consumo especifica para onde se direciona a riqueza em forma de salários e de renda.


 


Uma grande indústria de São Bernardo, como a Volkswagen, por exemplo, gera milhões em valores monetários em forma de produção, de salários, de impostos. Essa montanha de recursos não fica integralmente em São Bernardo. Faltam dados confiáveis, mas pelo menos 35% dos trabalhadores da montadora não residem em São Bernardo.


 


Isso significa que os ganhos obtidos pelos funcionários residentes em outros municípios entram na contabilidade do Potencial de Consumo desses outros municípios, não de São Bernardo, que fica com a massa de dados do PIB propriamente dito. São muitos os exemplos de municípios brasileiros de PIBs elevados e salários e renda ínfimos. A riqueza não é internalizada, como dizem os economistas, no próprio Município.


 


Resultado preocupante


 


Feito o esclarecimento que distingue Potencial de Consumo de Produto Interno Bruto, vamos às más notícias sobre a perda de velocidade de riqueza de São Bernardo. Entre 1994 e 2014, a Capital Econômica da região apresentou crescimento real bruto de Potencial de Consumo de 3,01% ao ano. Em números atualizados, utilizando-se a variação do IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas), adotado para a medição do PIB, São Bernardo passou de R$ 11.761.834 bilhões de Potencial de Consumo em 1994 para R$ 18.8543.095 bilhões em 2014. Um avanço de 60,29% no período, o que significa 3,01% ao ano.


 


O resultado de São Bernardo é pífio quando comparado à média brasileira que, no período fértil de industrialização, não fazia cócegas à Capital Econômica da região. Os mais de cinco mil municípios brasileiros avançaram em Potencial de Consumo, em média, no mesmo período, nada menos que 232,83%. Isso representa crescimento médio anual de 11,65%.  Ou seja: o Brasil como um todo cresceu 74% mais que São Bernardo desde a chegada do Plano Real de grandes mudanças no tecido industrial da região. Também em números atualizados, em 1994 o Potencial de Consumo do Brasil era de R$ 1.138.090 trilhão. Já em 2014 atingiu R$ 3.466.420 trilhões.


 


Se a comparação for com o desempenho do Estado de São Paulo, território que no mesmo período sofreu desindustrialização, embora em menor escala que a Província do Grande ABC, a perda de São Bernardo continua enorme. Os paulistas cresceram em números reais nos 20 anos de estudos mais que o dobro de São Bernardo: foram 6,75% ao ano, resultado da divisão do crescimento acumulado de 135,07% pelos 20 anos do período. O Estado de São Paulo contava com R$ 417.192.212 bilhões de Potencial de Consumo em 1994, sempre em valores atualizados, enquanto que em 2014 chegou a R$ 980.687.126 bilhões.


 


Derrotas na região


 


Os dados fragilizados de São Bernardo não resistem a qualquer comparação com micros e macroterritórios brasileiros. Os estudos da Consultoria IPC Marketing são implacáveis porque representam espelho do comportamento da sociedade em relação à economia. Nem mesmo no confronto individual e coletivo com os municípios da Província do Grande ABC São Bernardo leva vantagem.


 


A média de crescimento do Potencial de Consumo da Província nos 20 anos que analisamos para esta revista digital chegou a 4,40% ao ano, resultado do acumulado de 88,15% de crescimento real. Quando contrapostos os 4,40% do G-7 regional aos 3,01% de São Bernardo, a diferença é de 31,5%. Como conjunto de sete municípios, a região contabilizou em valores monetários atualizados R$ 34.577.120 bilhões em 1994. Vinte anos depois chegou a R$ 65.036.985 bilhões.


 


Se perde feio para a região como um todo, São Bernardo também fracassa no embate individual com as seis cidades locais.  Fracassa inclusive diante de Santo André, Município que mais se desindustrializou nos últimos 40 anos e que, nos 20 anos do Potencial de Consumo analisado, cresceu anualmente em média 3,67%, ou 17,98% a mais que São Bernardo. São Caetano avançou mais, com média anual de 4,32%, ou 30,32% acima da média de São Bernardo.


 


Se o confronto de São Bernardo for com Diadema, a derrota é mais contundente: são 6,41% de crescimento médio anual. Ou seja: o Potencial de Consumo do vizinho menos glamoroso foi 53,04% superior ao de São Bernardo na média anual.  Tudo isso sempre em valores atualizados e sempre levando-se em conta o conjunto da população de cada território -- sem considerar, portanto, análise per capita, que ficará para um próximo capítulo.


 


Importância reduzida


 


O confronto com Mauá é ainda mais tormentoso para São Bernardo. Foram 7,98% de avanço médio anual do Potencial de Consumo da população local, superando São Bernardo em 62,28% no período. Completando a lista regional, São Bernardo perde para o crescimento médio anual de Ribeirão Pires (5,31%) e de Rio Grande da Serra (10,63%). Trocando em miúdos: no campeonato regional de Potencial de Consumo, São Bernardo lidera com sustentabilidade absoluta o último lugar.


 


Se São Bernardo é destronada em avanço econômico dentro da própria Província do Grande ABC que não está lá essas maravilhas porque é derrotada igualmente, mas menos contundentemente, por diferentes territórios, o resultado só poderia ser desastroso mesmo. Cada vez mais a Capital Econômica da região é menos importante no contexto estadual e nacional. Tanto que se em 1994 o Potencial de Consumo de São Bernardo representava 1,033% do Brasil, em 2014 caiu para 0,851%, ou seja, uma perda de 17,61% no período.


 


Internamente, quando confrontado com os demais municípios locais, São Bernardo perdeu 14,79% de participação relativa no Potencial de Consumo. Em 1994 São Bernardo detinha 34,01% do Potencial de Consumo da Província, mas caiu em 2014 para 28,98%.


 


O Estado de São Paulo também não acompanhou o crescimento nacional, ao ter a participação relativa reduzida de 36,65% em 1994 para 28,29% em 2014. Já a Província do Grande ABC caiu de 3,038% de participação nacional em 1994 para 1,876% em 2014. Uma queda de 38,25% no período. Bem mais que os 21,71% do Estado de São Paulo.


 


A crise econômica da Província ao longo desse período, portanto, é muito mais grave que a quebra da velocidade de acumulação de riqueza dos paulistas como um todo.


 


Quem acha que esse capítulo retrata com absoluta fidelidade a situação do Potencial de Consumo da Província do Grande ABC, e particularmente de São Bernardo, vai se surpreender com o próximo capítulo de análise sobre o comportamento desse indicador econômico. Vamos considerar valores por habitante. Os dados de São Bernardo, principalmente, serão ainda mais deploráveis. A Capital Econômica da Província é uma terra em decomposição econômica. Só não vê e não toma iniciativas profiláticas quem dorme em berço esplêndido, em contínuo e sistemático processo de autoengano com estragos coletivos. 


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