Economia

Até parece que Província é um
paraíso em meio à crise nacional

DANIEL LIMA - 06/10/2015

Não fossem as evidências cristalizadas nas ruas e nas praças, nos restaurantes e nas bancas de jornal, nos bares e nos lares, nas imobiliárias e nas construtoras, não fossem as evidências até mesmo lá onde o leitor mais atrevido poderia sugerir e os mais abusados apontariam em direção ao mercado explícito da Avenida Industrial de mulheres verdadeiras e de mulheres nem tão verdadeiras, não fosse tudo isso e muito mais a maior crise econômica da história da Província do Grande ABC jamais seria identificada se dependesse dos principais veículos de comunicação da região.


 


O espaço editorial impresso e virtual entregue de bandeja às quinquilharias políticas locais, numa quermesse dos alienados, contrapõe-se à escassez de informações econômicas. O que se passa com esta Província, Santa Maria Madalena?


 


Até que ponto chegamos depois de três desmoronamentos seguidos do PIB (Produto Interno Bruto) regional e de, acreditem, São Bernardo ter perdido 23% do PIB Industrial em 2012, segundo o mais atualizado boletim do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas)! Quanto perderá então nesta temporada, e na temporada passada?


 


Qualquer paisinho de merda que sofresse tamanho baque teria reagido de prontidão. Cantarolamos provincianamente que somos maiores que muitos paisecos e não temos massa crítica à reação coordenada, sistematizada, comprometida. Somos uma Província a caminho do vilarejo institucional, político, social e econômico.


 


Custos estrondosos


 


Quem se meter a estudar num futuro não muito distante a realidade destes dias na região provavelmente só tomará conhecimento dos fatos se abrir esta revista digital. Aliás, não é de hoje que retratamos com senso crítico odiado pelos triunfalistas o que se passa na região. Não pensem que isso me agrada. Muito pelo contrário. Queria muito dividir o fardo da informação sem deformação com mais parceiros da mídia. Sazonalidades de reportagens sem aprofundamento não enchem barriga de respeitabilidade histórica.


 


A quase totalidade da mídia regional – a exceção somos nós mesmos, sem falsa modéstia porque não sou hipócrita – não se deu conta de que o capitalismo de primeira classe está indo cada vez mais para a cucuia. Capitalismo de primeira classe é a massa de trabalhadores das montadoras de veículos e também das sistemistas do entorno produtivo.


 


Capitalismo de primeira classe é uma expressão que cunhamos em janeiro de 2001 na revista LivreMercado (aquela que disparadamente foi a melhor publicação regional do País durante duas décadas) numa Reportagem de Capa baseada em estatística que o Clube dos Prefeitos tentou manipular com interpretação caolha, quando não mesquinha.


 


Os salários e benefícios dos trabalhadores nas montadoras e nas autopeças de ponta são elevadíssimos para o padrão de manufatura nacional. E muito acima do salário médio, por exemplo, de jornalistas da região, entre centenas de categorias profissionais. No caso dos jornalistas, trata-se de classe quase em extinção -- mas que parece não se dar conta disso. Tanto é verdade que o capitalismo de primeira classe é inviável num mundo internacionalizado que o Editorial do Diário do Grande ABC de hoje sai em defesa apaixonada do emprego nas montadoras, critica as montadoras supostamente insensíveis, e não enxerga, mais uma vez, o outro lado da moeda do capitalismo, que é o fator competitividade internacional.


 


Terapia do facão


 


O Diário do Grande ABC age de vez em quando como veículo auxiliar do sindicalismo regional, sobretudo do sindicalismo da CUT (Central Única dos Trabalhadores). Possivelmente o presidente daquela companhia, Ronan Maria Pinto, que não entende de jornalismo mas sabe o que é ser empresário, ainda não se deu conta disso. Duvido que ao ler o Editorial de hoje Ronan Pinto não sentirá um frio na espinha.


 


Como empresário, repetindo, entende do riscado. Quando as vacas magras da recessão aparecem no pasto dos recursos humanos, o facão é inapelável. O Diário do Grande ABC já contou com mais de 1,2 funcionários. Hoje tem apenas 20% disso.


 


Longe de mim advogar a causa das montadoras de veículos. Já escrevi muito sobre esse setor. Mas não sou burro a ponto de demonizá-las nesse momento (momento é força de expressão, porque a queda de produção é contínua há mais de um ano) em que há evidente desencontro entre massa de trabalhadores contratados e níveis de produção para ser consumidos.


 


Não existe mágica que faça com que um quadro como o atual seja minimizado além da conta em favor dos trabalhadores. Sempre beneficiadas pelo Estado, porque são a vaca leiteira de impostos, as montadoras têm compromissos com seus acionistas. Não fazem benemerência. Recorrem a métodos semelhantes aos do Diário do Grande ABC e de outros veículos de comunicação (e são fartos os exemplos mundo afora, Brasil adentro) que não resistem à quebra de receitas.


 


Emoção com razão


 


Sei que meus até outro dia parceiros de jornalismo da cúpula do Diário do Grande ABC, pelos quais tenho o maior respeito, não vão apreciar essas linhas. Mas quem disse que estou na praça para fabricar lantejoulas em detrimento de choques térmicos que podem contribuir para mudanças substantivas que aquele jornal prometeu em editorial de primeira carta quando publicou a Carta do Grande ABC?


 


A baixa sensibilidade da mídia regional para entender o que se passa nesse território já há mais de duas décadas e agora de forma ainda mais contundente é uma das razões de este jornalista não acreditar no futuro desta Província. Sem que o universo jornalístico da região se mobilize intensamente, cotidianamente, em busca de informações, de análises, de questionamentos, o ambiente letárgico que engana quem imagina que tudo está às mil maravilhas porque a mídia está recheadíssima de noticiário político em vez de econômico, esse ambiente letárgico vai se prolongar ainda mais.


 


História preservada


 


Vou escrever quantas vezes for preciso sobre a economia regional no estilo deste artigo, com mais ênfase do que números, porque os números os publico às pencas, as analise fundamentadas em dados as faço frequentemente. Esse desabafo é um tempero emocional na medida certa à racionalidade das estatísticas que historicamente abastecem meus comentários.


 


Aleatoriamente, eis que neste final de texto encontro no acervo desta revista digital, utilizando-me do mecanismo de busca, alguma coisa com a âncora de “capitalismo de primeira classe”. Eis que encontro uma matéria de fevereiro de 2001, portanto há 14 longos anos, publicada originalmente na revista LivreMercado. Sob o título inédito de “Montadoras são heroínas e vilãs” discorro sobre as grandes empregadoras e produtoras de receitas municipais da região.


 


Faço questão de -- antes de indicar aos leitores deste texto a leitura da matéria logo abaixo -- reproduzir os últimos parágrafos daquela análise. Leiam com atenção e vejam como o texto, ao contrário da sociedade regional, sobretudo as instituições regionais, não sofreu processo de esclerosamento. Muito pelo contrário. Leiam:


 


 Quem construir teorias redentoras sobre a economia do Grande ABC neste novo milênio tendo em vista a importância extremamente forte que a indústria automotiva desfrutou na segunda metade do século passado precisa de profundo tratamento macroeconômico. O que se recomenda, e urgente, é seduzir com arte, empenho e planejamento novas matrizes produtivas à parte do eixo automotivo. Resta saber se vamos conseguir sensibilizar a plateia de investidores. Por enquanto, não conseguimos sequer superar a barreira do provincianismo.


 


Questão de coerência


 


Leram? Pois é. Infelizmente, estamos em situação muito mais desvantajosa hoje do que naqueles tempos. O texto completo é imperdível para quem quer conhecer um pouco mais a economia regional. Procurei em cada parágrafo algo do qual pudesse me arrepender como futurologista da economia regional. Infelizmente, estava certo. Integralmente certo. A Província só tem regredido. E, como no passado, há sempre oportunistas prometendo alguma coisa para aliviar a consciência sem se dar conta -- ou no fundo se dá conta sim -- de que estão cometendo novos crimes sociais.


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