O setor de construção civil (mercado imobiliário e infraestrutura) de São Bernardo demitiu proporcionalmente mais trabalhadores que a indústria de transformação excessivamente dependente de montadoras e autopeças em período de crise. Essa notícia é uma bomba que dá dimensão mais acurada da situação econômica da região, praticamente ignorada pela maioria dos agentes públicos.
A contextualização dos dados brutos do Ministério do Trabalho e Emprego alerta sobre o comportamento da construção civil nos 12 últimos meses, completados em agosto. Embora o impacto no estoque de empregos com carteira assinada seja muito maior na construção civil, a atividade depende em larga escala da dinâmica econômica do setor automotivo. Menos, evidentemente, a parte que cabe à infraestrutura, vinculada a investimentos do setor público. São Bernardo era um canteiro de obras até que se descobriram as lambanças fiscais do governo Dilma Rousseff, além ou principalmente do escândalo da Petrobras.
O refluxo do estoque de empregos formais na construção civil reflete situação que tende a se agravar na medida em que o aperto fiscal ganhar forma de torniquete. Acabou a farra do boi do dinheiro fácil para obras e também de crédito farto para a indústria imobiliária.
A melhor forma de avaliar a situação setorial da economia de qualquer território, quando se trata do mercado de trabalho, não é necessariamente o uso de números absolutos, mas os números relativos. Explico: a indústria de transformação de São Bernardo perdeu nos últimos 12 meses 8.275 empregos com carteira assinada. Já a indústria da construção civil perdeu 1.430 postos. Esses são números absolutos. Quando se passa a números relativos o desastre da construção civil é evidente: enquanto a atividade perdeu 11,21% do estoque de trabalhadores em São Bernardo (baixou de 12.756 para 11.326) a indústria de transformação refluiu 8,62% (de 95.997 para 87.722 postos de trabalho). Ou seja: a construção civil demitiu quase três pontos percentuais a mais que a indústria convencional.
Caminhada simétrica
A inquietação permeia a realidade econômica de São Bernardo. A capital econômica da região está sendo fortemente impactada pela recessão porque depende demais do setor automotivo. Até que ponto os números relativos da indústria de transformação avançarão mais e se sobreporão aos dados da construção civil? Talvez a preocupação seja excessiva. Os dois setores caminham simetricamente na estrada do desencanto. Num comparativo que considere apenas os primeiros oito meses deste ano, a indústria de transformação de São Bernardo registrou queda de 6,66% no estoque de trabalhadores, enquanto a construção civil apontou 7,40%.
O impacto da perda liquida de emprego formal na construção civil em São Bernardo é muito maior que a média registrada nos últimos 12 meses na Província do Grande ABC. Contra a queda de 11,21% de São Bernardo, o registro regional é de 5,77%. Ou seja: São Bernardo expõe números que são o dobro dos anotados pelo Ministério do Trabalho para o mercado de trabalho regional.
Carregando problemas
Nos últimos 12 meses a construção civil da Província perdeu 2.562 postos de trabalho, ante 20.355 da indústria de transformação. Os dois setores carregaram o déficit do emprego formal na região porque apresentam queda relativa muito maior que os resultados gerais das demais atividades, casos de comércio e serviços, além de administração pública. No conjunto das atividades econômicas, a Província do Grande ABC perdeu 4,10% do estoque de trabalhadores nos últimos 12 meses. Eram 806.064 em setembro do ano passado e passaram a ser 772.984 em agosto deste ano.
Apenas Diadema registrou números positivos na construção civil quando se estuda o comportamento regional do emprego formal no período de estudos. Diadema contava em setembro do ano passado com 4.074 trabalhadores no setor e em setembro deste ano subiu para 4.085. Rio Grande da Serra supera São Bernardo em números relativos, mas não se deve levar a sério a comparação porque a diferença do universo é imensa. Rio Grande perdeu 130 empregos formais do setor no período, total que representou 26,29% do esquálido estoque de 487 trabalhadores. Santo André perdeu 7,34% (caiu de 10 mil para 9.266 postos de trabalho), São Caetano perdeu 1,85% (de 11.729 para 11.512), Mauá perdeu 0,54% (de 4.375 para 4.347) e Ribeirão Pires perdeu 1,44% (de 972 para 958 carteiras assinadas).
São Caetano turbinada
A situação do emprego da construção civil em São Caetano provoca deformações quando se avalia o Município e também o desempenho da região. O estoque apontado pelo Ministério do Trabalho não é exatamente o estoque com efetiva atuação no Município.
Por causa de políticas agressivas na área de serviços, com a prática de guerra fiscal deflagrada durante a Administração do prefeito Luiz Tortorello, em meados da última década do século passado, empresas recrutadoras de mão de obra aportaram em São Caetano. Essas empresas contam com milhares de trabalhadores que, em larga escala, não atuam fisicamente em São Caetano. Os trabalhadores são alocados em diversos municípios brasileiros. É praticamente impossível que São Caetano tenha números semelhantes de trabalhadores da construção civil de Santo André e de São Bernardo. São elevadas das diferenças de população, extensão territorial e mercado imobiliário. Também em outras atividades de serviços os números de São Caetano são historicamente inflados. A guerra fiscal artificializa dados sobre empresas e trabalhadores com efetiva atuação no Município.
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