Se não quiser testemunhar o esfacelamento da mais importante matriz econômica do Grande ABC depois do setor automobilístico, a sociedade regional precisa prestar muita atenção ao que se passa com o Pólo Petroquímico de Capuava e com a extensa cadeia de terceira geração composta de centenas de transformadores de plásticos e outros subprodutos petroquímicos. Por um motivo simples e objetivo: a competitividade da indústria petroquímica do Grande ABC está seriamente comprometida, a ponto de tirar o sono de trabalhadores, executivos e lideranças públicas que reconhecem a profunda importância da atividade no já abalado equilíbrio socioeconômico regional.
A razão que coloca o Pólo de Capuava em preocupante situação de vulnerabilidade é a discrepância da capacidade produtiva entre a Petroquímica União, a conhecida PQU, e as outras duas centrais de matérias-primas em operação no Brasil. Enquanto a empresa-mãe do pólo paulista está estruturada para produzir anualmente até 500 mil toneladas de etileno -- principal insumo básico da cadeia petroquímica --, as concorrentes apresentam capacidade instalada mais do que duas vezes maior. Não à toa deputados do Grande ABC voltam a discutir a legislação ambiental que impede o crescimento da PQU e que atribuem a interesses políticos.
A Copene sediada na Bahia do ex-senador Antônio Carlos Magalhães produz 1,2 milhão de toneladas de etileno por ano, volume que a situa entre as 10 maiores centrais petroquímicas do planeta. A Copesul não fica atrás. Erguida em Triunfo, Rio Grande do Sul, tem capacidade anual de 1,135 milhão de toneladas de etileno. "Temos que admitir que nos tornamos pequenos diante do avanço dos concorrentes" -- comenta preocupado Wilson Koji Matsumoto, diretor-superintendente da Petroquímica União. A PQU tem planos para também chegar a 1,2 milhão/ano de toneladas de etileno a partir de 2008, o que mobilizará investimentos de US$ 2 bilhões de todo o Pólo de Capuava.
Danos colaterais
A limitação atual da capacidade instalada tem efeito direto sobre a produtividade e a competitividade da PQU e das nove empresas de segunda geração do pólo, que recebem insumos da central de matérias-primas por meio de dutos subterrâneos para produzirem resinas. Com escala de produção mais que duplicada em relação à concorrente de São Paulo, Copene e Copesul reúnem maiores condições de diluir custos fixos e amortizar investimentos intensivos em tecnologia e equipamentos. Tudo isso com evidentes reflexos nos preços mais baixos e maior rentabilidade.
Como preço é variável número um dos produtos petroquímicos, considerados commodities por terem a mesma composição na Bahia, no Rio Grande do Sul e em São Paulo, o crescimento da PQU é simplesmente fundamental. "É crescer ou morrer" -- define Nívio Roque dos Santos, diretor da Polietilenos União, empresa do pólo que produz resinas plásticas.
Caindo pelas tabelas
Nívio Roque é um dos representantes da cadeia de segunda geração petroquímica do Grande ABC que se mobilizam pela competitividade do pólo, ao lado de trabalhadores, diretores da PQU e lideranças públicas. O executivo demonstra inquietação ao constatar que a participação relativa do Pólo de Capuava na produção de etileno só fez despencar no quadro nacional, enquanto a dos concorrentes cresceu aos saltos nas últimas décadas e o Rio de Janeiro se prepara para sediar o quarto pólo brasileiro.
"De participação de 100% em 1973, a Petroquímica União tornou-se responsável por apenas 18% da produção brasileira de etileno. Os 82% restantes estão na Copene, que iniciou atividades em 1978, e na Copesul, inaugurada em 1982" -- aponta o executivo. O último grande salto da concorrência foi protagonizado pela Copesul. A central do Sul teve capacidade ampliada de 685 mil toneladas/ano para as atuais 1,135 milhão/ano com nova planta inaugurada em 2000.
A limitação da escala produtiva compromete de maneira perceptível a competitividade da PQU e do pólo petroquímico, centralizado principalmente em Santo André e Mauá. Nem a suposta vantagem logística de estar inserido no maior mercado consumidor de plásticos e de subprodutos petroquímicos do País livra o Pólo de Capuava de perder mercado para concorrentes situados a milhares de quilômetros de distância. Capuava enfrenta dificuldades de vender produtos até para empresas de terceira geração instaladas no Grande ABC. Mesmo levando-se em conta o custo adicional do frete, normalmente é mais vantajoso a essas transformadoras plásticas trazer produtos intermediários do Sul do que comprar resinas da região.
Distância não atrapalha
A indústria petroquímica baiana, na órbita da Copene, está muito mais distante do Grande ABC que a do Rio Grande do Sul, mas nem por isso deixa de representar ameaça ao pólo regional. O custo do frete onera os produtos intermediários produzidos na Bahia a ponto de os preços ficarem semelhantes aos de Capuava, mas o equilíbrio garantido pela proximidade é quebrado sempre que os concorrentes baianos assimilam custos de transporte para tornar seus produtos mais competitivos por aqui. A estratégia que reduz a rentabilidade mas permite avançar em novos mercados é frequentemente sacada pelas empresas do Pólo de Camaçari.
O Sindicato dos Químicos do Grande ABC dá uma pista de quanto o Pólo de Capuava está perdendo o jogo dentro de casa. O diretor Carlos Augusto César Cafu afirma que apenas 30% da matéria-prima utilizada pelas empresas de terceira geração instaladas no Grande ABC é proveniente de Capuava. "A maior parte dos produtos intermediários é trazida de outros pólos porque os preços na região são muito elevados e não há oferta suficiente" -- explica Cafu.
Oferta insuficiente e preços mais altos são ao mesmo tempo causa e efeito -- aponta o sindicalista. A produção reduzida leva empresas a buscar maior rentabilidade com menor volume. "Para ganhar mais com volume menor, empresas de segunda geração terceirizaram a distribuição dos produtos, de modo que as transformadoras de grande porte centralizam as compras. Com isso, as transformadoras plásticas de pequeno porte precisam passar por intermediários que encarecem o preço dos insumos" -- acrescenta Cafu, cujo sindicato chegou a cogitar a criação de uma central de compras em parceria com empresários, sem sucesso.
Mais competitividade
A preocupação do dirigente sindical com o Pólo de Capuava é mais do que justificada. Da competitividade da PQU e das vizinhas empresas de segunda geração depende a sustentabilidade das empresas de terceira geração, uma vez que as matérias-primas representam em média 50% do valor de venda dos produtos. Como as transformadoras plásticas diretamente afetadas pelo suprimento caro e insuficiente do pólo são as maiores empregadoras do setor, a mobilização dos sindicalistas pela elevação da capacidade produtiva da central PQU é tão adequada quanto reivindicações por incremento de salários e benefícios. Ou até mais propositiva que as reivindicações tradicionais, já que melhorias nas condições dos trabalhadores da cadeia de terceira geração passam necessariamente pelo incremento da competitividade nos fornos, compressores e tubulações da Petroquímica União.
Para trabalhadores do setor químico do Grande ABC, a recíproca também é verdadeira. Isto é, a limitação da competitividade da PQU e das demais empresas do pólo mina a cadeia de terceira geração. Muitas das dificuldades que os empregadores vêm atravessando nos últimos anos poderiam ser no mínimo amenizadas se o suprimento não significasse dor de cabeça adicional. Somente as transformadoras de plásticos contabilizam saldo negativo de 15 mil empregos desde 1991.
"Além de questões macroeconômicas como taxa de juros elevada, crises internacionais, racionamento energético e falta de política industrial para o setor, os empreendedores do segmento plástico do Grande ABC ainda precisam se preocupar com insumos básicos de produção" -- analisa Sérgio Novais, presidente do Sindicato dos Químicos.
"Os trabalhadores são diretamente afetados quando empresários estão pressionados por condições desfavoráveis. E não apenas pelas demissões, mas também pela precarização do trabalho dos que continuam empregados na forma de eliminação de direitos trabalhistas. O enfraquecimento das empresas de terceira geração também deveria preocupar o Poder Público, pois quando os trabalhadores começam a ser afetados, é porque o Fisco já está perdendo faz tempo" -- observa o sindicalista.
Desindustrialização complica
Sérgio Novais aponta que a desindustrialização generalizada do Grande ABC é outro ingrediente explosivo do caldeirão em que a cadeia de terceira geração está mergulhada. Isso porque muitas indústrias que encerraram atividades ou se transferiram para outras regiões deixaram de consumir plásticos e produtos acabados de origem petroquímica produzidos no Grande ABC.
"A cadeia petroquímica está entrelaçada com as demais, de modo que a perda de uma Brastemp para Joinville, por exemplo, afeta a transformação de produtos plásticos que integram as máquinas de lavar. O mesmo acontece quando a produção de automóveis é transferida para outras regiões" -- explica o presidente do Sindicato dos Químicos, ao exibir conceito que equivale ao cluster às avessas. Ao envolver setores apenas aparentemente dissociados, a cadeia petroquímica assume importância que vai além da geração direta de empregos e tributos. Mais da metade da produção de tintas brasileiras -- que também utilizam insumos petroquímicos -- tem origem no Grande ABC. "Fico muito preocupado quando ouço políticos dizendo que a nova vocação do Grande ABC é serviços. O padrão de vida na região está caindo e parece que eles não enxergam" -- desabafa Sérgio Novais.
Não foram apenas as empresas de transformação de plásticos que demitiram em massa nos últimos anos. Também as unidades do Pólo Petroquímico reduziram quadros com a onda de inversões tecnológicas que contagiou o setor a bordo da privatização durante a década passada. Dos antigos 4,5 mil trabalhadoras do pólo restaram apenas 2,8 mil, de acordo com cálculos do Sindicato dos Químicos. Só a Petroquímica União reduziu de 1,3 mil para 550 entre 1989 e 2002.
Escala de produção
O fato de a competitividade do pólo petroquímico estar comprometida mesmo depois de adequar-se às referências internacionais reforça constatação para a qual as lideranças públicas e privadas do Grande ABC precisam estar cada vez mais atentas: fazer a lição de casa é insuficiente enquanto a escala de produção não for elevada.
Se o nó que aperta o Pólo de Capuava e as indústrias de transformação é a limitação da capacidade produtiva da PQU, bastaria investir na ampliação da central de matérias-primas paulista, certo? A resposta não é tão simples assim. Erra feio quem imagina que a Petroquímica União não investe na ampliação da estrutura produtiva porque não quer. A elevação da capacidade instalada a patamar semelhante ao dos concorrentes é o que existe de mais valioso para a companhia aproximar-se da Copene e da Copesul, mas sobretudo para não perder a corrida pelo futuro. Afinal, o setor de plástico cresce acima do PIB (Produto Interno Bruto) por conta da utilização cada vez mais generalizada do material, sobretudo em atividades anteriormente de domínio metalúrgico.
Antes de investir em recursos que ampliem a oferta de produtos, a Petroquímica União precisa assegurar abastecimento adicional de nafta e gás de refinaria, insumos que transforma em etileno e outros produtos básicos voltados às vizinhas empresas de segunda geração. Não adianta criar estrutura para produzir mais se não há incremento de oferta de matéria-prima. E é exatamente aí -- no suprimento adicional -- que está o xis da questão.
Empecilhos políticos
A maior parte dos executivos, trabalhadores e lideranças públicas envolvidas com a causa da ampliação do Pólo de Capuava não tem dúvida de que o obstáculo ao incremento da PQU é de natureza exclusivamente política. A nafta utilizada pela PQU é fornecida pela estatal Petrobras, que obtém a matéria-prima e o gás de refinaria através do refino de petróleo em 12 centrais espalhadas pelo País. Da nafta utilizada pela PQU, 60% são fornecidos pela Revap (Refinaria do Vale do Paraíba) e os 40% restantes vêm da Replan (Refinaria de Paulínia) porque a produção da vizinha Recap (Refinaria de Capuava) é limitada e utilizada internamente, em processos próprios.
A Petrobras estaria muito mais interessada em atender a Copesul e a Copene do que a central de matérias-primas sediada no Grande ABC. "A Copene sempre foi representada pelo ex-senador Antônio Carlos Magalhães. Quem no Planalto Central incorporou os interesses do Grande ABC?" -- questiona o presidente do Sindicato dos Químicos, Sérgio Novais.
O dirigente sindical observa que a morte do prefeito Celso Daniel representou duro golpe na representatividade que o Grande ABC tem tentado construir para influir nos meandros políticos aos quais a ampliação do pólo está subordinada. Celso Daniel coordenou o grupo de trabalho petroquímico da Câmara Regional e era uma das lideranças públicas que melhor compreendiam a importância socioeconômica da competitividade do pólo.
Em março de 1998, o então prefeito integrou comitiva regional que se deslocou até a sede da Petrobras, no Rio de Janeiro, para cobrar suprimento adicional que proporcionasse a duplicação da Petroquímica União. O prefeito de Mauá, Oswaldo Dias, também fez parte do grupo. Na ocasião, o então presidente da estatal, Joel Mendes Rennó, garantiu que montaria uma comissão para estudar o assunto. Não passou disso.
Se a morte de Celso Daniel representa atraso no amadurecimento da questão petroquímica regional, eventual vitória de Luiz Inácio Lula da Silva na eleição presidencial sinaliza tendência oposta. A vitória de Lula proporcionaria nível de interlocução federal jamais experimentada pelo Grande ABC, uma vez que o candidato petista forjou toda a trajetória de militância sindical e política na região. Esse ponto de vista é de Carlos Augusto César Cafu, diretor do Sindicato dos Químicos. "O Lula tem raízes na região e, consciente da importância do pólo para o Grande ABC, certamente nos ajudaria a resolver esse imbróglio político" -- comenta Cafu.
Cachorro grande
Sérgio Novais acrescenta uma passagem que dá a exata dimensão das questões políticas que drenam a competitividade e amarram o desenvolvimento de Capuava. Segundo o presidente do Sindicato dos Químicos do ABC, o ex-governador Mário Covas respondeu com a seguinte sentença quando interpelado sobre a necessidade de mobilização estadual pelo Pólo Petroquímico de Capuava no âmbito da Câmara Regional. "Isso é briga de cachorro grande".
O volume de receitas gerado pelas atividades diretamente relacionadas ao setor químico-petroquímico justifica a mobilização. No conjunto do Grande ABC, o setor responde por 25% do ICMS, enquanto a indústria metal-mecânica participa com 33%. As fatias crescem sobremaneira em Mauá e Santo André por conta da centralização do pólo na divisa dos dois municípios. Na cidade administrada por Oswaldo Dias, 66% do ICMS vêm da central de matérias-primas e empresas de segunda geração, bem à frente dos 18% proporcionados pelo setor metal-mecânico. Em Santo André o pólo participa com 36% da arrecadação de ICMS, quase cinco vezes mais que os 8% do setor metal-mecânico.
Os percentuais não incluem a cadeia de terceira geração formada principalmente por empresas transformadoras de plásticos, além de fabricantes de fibras sintéticas, solventes, borracha, tintas e vernizes, plastificantes e defensivos agrícolas.
No momento em que a Petroquímica União completa 30 anos, as atenções dos executivos da central paulista de matérias-primas voltam-se cada vez mais para o projeto de ampliação que passa por apreciação de técnicos da Petrobras. De acordo com o diretor-superintendente Wilson Koji Matsumoto, o projeto deve ser aprovado até o final deste ano.
"A partir do momento em que a Petrobras der sinal verde, investiremos US$ 100 milhões na implementação que deve ser concluída no final de 2004" -- afirma Matsumoto. A ampliação seria obtida através de oferta de gás de refinaria, e não de nafta. A diferença, explica Matsumoto, é que o gás de refinaria tem ciclo produtivo simplificado para se transformar em etileno e, por isso, oferece maior rentabilidade.
Apenas o começo
Mesmo admitindo que a Petrobras aprove o projeto de ampliação com rapidez, o incremento de 500 mil para 630 mil toneladas por ano ainda é pequeno diante do tamanho dos concorrentes. A PQU atingiria pouco mais da metade da capacidade da Copene e da Copesul. "A ampliação de 130 mil toneladas é apenas o começo. O que precisamos mesmo é duplicar a produção" -- garante Wilson Matsumoto.
O diretor-superintendente da PQU explica que o projeto em apreciação na Petrobras é de implementação relativamente simples porque bastaria potencializar os equipamentos disponíveis, procedimento conhecido no linguajar técnico do setor como desgargalamento. "A ampliação se dará dentro da mesma planta" -- sintetiza o executivo à frente da sociedade anônima que tem o Grupo Unipar como principal acionista.
Já a necessária duplicação da capacidade instalada demanda construção de nova planta em anexo. Nesse caso, a Petroquímica União esbarra em lei estadual. Para muitos executivos favoráveis à expansão do pólo, a legislação foi forjada pelo regime militar por motivações políticas. Diz textualmente o artigo 15 da lei estadual de 27 de outubro de 1978:
"Fica proibida na Região Metropolitana de São Paulo a implantação, alteração do processo produtivo e ampliação de área construída dos estabelecimentos industriais que, por serem incompatíveis com o interesse metropolitano, estão classificados como IN". São classificados como IN os segmentos de fabricação de celulose, beneficiamento de borracha, refinação de petróleo e fabricação de petroquímicos primários e intermediários.
Ambiente preservado
É justamente para alterar a lei estadual e remover um dos obstáculos à duplicação do pólo que executivos da PQU, de empresas de segunda geração e representantes do Sindicato dos Químicos têm se reunido com deputados estaduais do Grande ABC. Entretanto, a necessidade de ampliar o pólo não é unanimidade nem mesmo na suposta Bancada do ABC. O deputado Wagner Lino (PT) tem se mostrado radicalmente contra a proposta. Por questões ambientais.
A maior oposição, porém, vem de ambientalistas. O membro do Consema (Conselho Estadual do Meio Ambiente) Carlos Bocuhy é o mais ferrenho opositor à elevação da capacidade produtiva. Bocuhy vai além: é contra as operações do Pólo de Capuava em meio ao adensamento urbano formado ao longo dos anos. "Em nenhum lugar do mundo existe pólo petroquímico tão próximo da comunidade como o de Capuava. Problemas ambientais e riscos de acidentes são inerentes à atividade. É preciso haver distância de segurança entre as empresas e a comunidade" -- afirma o ambientalista, que sugere desapropriação de áreas habitadas no entorno como medida para poupar a comunidade de riscos.
Para Carlos Bocuhy, o pólo libera substâncias tóxicas que prejudicam a população próxima, além de representar perigo permanente de acidentes cujas repercussões são proporcionais à densidade demográfica. "O pólo não seria licenciado hoje" -- ressalta o ambientalista, que também é coordenador das campanhas Billings, Eu Te Quero Viva e Chega de Poluição.
Doença grave
Um levantamento médico realizado com moradores de bairros de Santo André, Mauá e São Paulo nas proximidades do Pólo de Capuava reforça a posição de Carlos Bocuhy. A endocrinologista Maria Ângela Marino identificou 90 famílias com um ou mais casos de tireoidismo de Hashimoto, doença que, se não tratada, pode levar à morte. Embora não haja exames toxicológicos que comprovem as origens da contaminação, a endocrinologista da Faculdade de Medicina do ABC acredita que as causas podem ser agentes químicos lançados à atmosfera pelas empresas do pólo.
Executivos de Capuava rebatem os efeitos nocivos apontados por Carlos Bocuhy. Lembram que o pólo integra a rede mundial Programa de Atuação Responsável e que o nível de emissões está de acordo com as exigências da Cetesb (Companhia de Tecnologia e Saneamento Ambiental). Argumentam que a duplicação da capacidade da PQU seria implementada de acordo com os mais rigorosos critérios ecológicos. "O projeto seria submetido ao crivo de leis ambientais vigentes nas três esferas da Federação" -- destaca Wilson Matsumoto, comandante da PQU. "Com os recursos técnicos e tecnológicos disponíveis, é possível duplicar a produção mantendo os níveis de segurança e emissão" -- destaca Nívio Roque, da Polietilenos União.
Wilson Matsumoto explica que a nova planta que permitirá à PQU duplicar a produção ocuparia apenas um terço do espaço da atual. "A compactação espacial das novas fábricas permite produzir mais em área muito menor" -- explica Cesar Barlem, diretor industrial da PQU. Espaço para a nova planta existe, uma vez que a empresa ocupa imensa área de 755 mil metros quadrados.
Preocupação constante
Nívio Roque lembra que segurança e meio ambiente são temas de preocupação permanente no pólo. As empresas investiram US$ 250 milhões nos últimos 10 anos em projetos e recursos ambientais, como sistemas de tratamento de efluentes líquidos, substituição total de óleo combustível por gás natural, tocha sem emissão de fumaça e disposição de efluentes sólidos em cimenteira.
Os executivos também argumentam que a duplicação do pólo geraria US$ 115 milhões em impostos municipais, estaduais e federais, três mil empregos diretos na indústria de transformação, além de quatro mil temporários durante a fase de construção. "Somente a duplicação do pólo pode garantir competitividade do setor petroquímico regional no Brasil e no Mercosul" -- reforça Wilson Matsumoto.
O sentido de urgência transmitido por executivos e representantes de trabalhadores tem razão adicional. Além de acusar perdas de espaço para concorrentes instalados no Sul e no Nordeste, Capuava está na iminência de sofrer mais redução na participação nacional por conta de novo projeto petroquímico: o pólo do Rio de Janeiro, cujas fundações já se iniciaram. O pólo fluminense terá capacidade de 600 mil toneladas de etileno por ano, 20% maior que o da PQU. Além do volume, agregará vantagem qualitativa porque utilizará gás de refinaria como matéria-prima. "Além disso, o pólo do Rio de Janeiro já nasce integrado, verticalizado, como é comum no Primeiro Mundo. As empresas de primeira e segunda geração farão parte do mesmo grupo de investidores" -- comenta o diretor industrial da PQU, Cesar Barlem, gaúcho cujo histórico profissional abrange experiência na Petrobras e passagem pela Copesul.
"Se permanecer no atual patamar de 500 mil toneladas por ano, a participação da PQU na produção nacional de etileno cairá dos atuais 18% para 15% com o início das operações do pólo do Rio de Janeiro previsto para 2005" -- projeta Nívio Roque, da Polietilenos União.
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08/04/2026 GILVAN ENFRENTA UMA GUERRA DE 65 DESAFIOS