Economia

Nosso futuro é de plástico

DANIEL LIMA - 15/05/2003

Quando o Grande ABC de metal será capaz de dar vez ao Grande ABC de plástico e, com isso, contribuir para quebrar o ritmo da desindustrialização e do desemprego? A modernização e a adaptação da economia da região aos novos tempos de mercado automotivo descentralizado — e de substituição gradual de matérias-primas que obedecem a rigidez de metais e ganham a versatilidade dos insumos petroquímicos em forma de plástico — continuam sendo jogo de improvisação que estimula o desperdício e a irracionalidade.


Em busca de alternativas econômicas que possam contrabalançar o desastre do novo desenho do parque automotivo nacional movido a financiamentos generosos, guerra fiscal e rebaixamento salarial, o Grande ABC ainda não se deu conta de que está na indústria de transformação de plástico oportunidade de ouro de juntar a fome com a vontade de comer de novos postos de trabalho reconhecidamente agregadores de valor.


A cadeia produtiva da transformação do plástico é responsável por 218 mil empregos diretos no País e pode ser considerada termômetro do comportamento econômico da sociedade brasileira. A reação do consumidor tem reflexo direto no segmento de plástico presente em praticamente todos os setores de bens duráveis e de consumo imediato, como na alimentação, na construção civil, nas indústrias automotiva e aeronáutica, nos laboratórios farmacêuticos, na informática, no setor moveleiro, no eletroeletrônico e no segmento têxtil. É difícil encontrar um ramo de atividade econômica onde o plástico não significa participação.


A insistência com que lideranças políticas e mesmo empresariais batem na tecla da cadeia automotiva como incrementadora do setor industrial no Grande ABC é tão equivocada quanto o descuido de desconsiderar a indústria transformadora de plástico como chute de resultados certeiros. Afinal, a cadeia automotiva que também se utiliza cada vez mais de plástico é apenas uma das frondosas árvores que potencializam o uso do material. Quanto menor for a participação relativa do setor automotivo regional na cadeia de transformação de plástico, mais se emitirão sinais de novas matrizes industriais de uma região que se tornou refém da atividade sobrerrodas.


Se o adensamento do uso de derivados petroquímicos na cadeia transformadora de plástico dentro da produção industrial no Brasil segue na trilha da tendência internacional de substituição de materiais metálicos nas mais diferentes atividades econômicas, não é menos importante o fato de que o Grande ABC é um grande palco para a disseminação da matéria-prima saída dos pólos petroquímicos.


Em abril de 2001 a empresa gaúcha MaxiQuim encerrou pesquisa encomendada pela Câmara Regional para aprofundar estudo do Sebrae sobre a cadeia petroquímica na região. Uma das conclusões que explicitavam o tamanho das possibilidades e também dos problemas: 326 unidades transformadoras de plástico ocupavam o território regional, com geração de 16.803 empregos e consumo de 200 mil toneladas de resinas.


Com menos de 2% de participação no PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro e perto de 8,5% no PIB estadual, a importância do Grande ABC plástico no território nacional está cristalizada nos 10% de mercado. Diadema (49% das empresas e 41,2% da produção) e São Bernardo (21,4% e 36,4% respectivamente) lideravam os quesitos de universo de empresas e valor de produção de produtos plásticos. Santo André (11,7% e 5,4%), São Caetano (10,5% e 9,4%), Mauá (5,4% e 6,7%) e a dupla Ribeirão Pires-Rio Grande da Serra (2% e 0,9%) completavam a grade dos estudos da MaxiQuim.


A construção do Grande ABC de plástico que se sobreporia em importância econômica e social ao esgotado Grande ABC automotivo não ganhou o ritmo esperado depois da pesquisa da empresa gaúcha. A frágil institucionalidade regional derrete-se sob o peso de idiossincrasias político-partidárias. A expectativa de que a Câmara Regional pudesse harmonizar interesses municipais, regional e estadual rolou água abaixo depois da morte do governador Mário Covas e, na sequência, do prefeito Celso Daniel.


É verdade que mesmo com Covas e Celso Daniel o trem da regionalidade já descarrilava. A multiface da Câmara Regional — congregação de agentes públicos, privados e sociais do Grande ABC, além do governador e secretários de Estado — é um mosaico de difícil conciliação. O esvaziamento institucional e operacional da Câmara Regional, cujos encontros são tão episódicos quanto improdutivos, erodiu o pouco de entrelaçamento de interesses que o Grande ABC de plástico ensaiou nos primeiros tempos.


Tanto é verdade que a formatação do Grande ABC de plástico virou página quase morta que há muito tempo o grupo formado pela Câmara Regional sequer se reúne. Nada mais estúpido e insensível quando se sabe que investimentos de US$ 700 milhões foram anunciados para o Pólo Petroquímico de Capuava nos próximos cinco anos. As empresas do pólo petroquímico fabricam matérias-primas como etileno, propileno e benzeno, utilizadas nas indústrias químicas, além de polietileno, PVA, poliestireno, polipropileno e náilon aplicados nas indústrias de transformação.


Isoladamente, o Pólo Petroquímico de Capuava é um maná de felicidade especialmente para Mauá e Santo André. Embora conte com apenas 4,2 mil trabalhadores, o faturamento conjunto das empresas do pólo está entre R$ 5 bilhões e R$ 6 bilhões e responde por 66% da arrecadação de ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) em Mauá e 36% em Santo André.


Não há estatísticas possíveis de ser levantadas sobre o espraiamento econômico e tributário relacionado ao Pólo Petroquímico de Capuava nos municípios da região. Entretanto, o aumento da capacidade de produção a partir da empresa-mãe, a Petroquímica União, vai alargar o acesso às matérias-primas para industrialização nas empresas transformadoras da região.


Esquecido por lideranças políticas e econômicas locais, o Grande ABC de plástico também não sensibilizou o conglomerado Fiesp/Ciesp (Federação e Centro das Indústrias do Estado de São Paulo), que anunciou no mês passado o programa Arranjos Produtivos Locais (APL) contemplando quatro cidades-regiões paulistas para o aumento de competitividade de micro e pequenas indústrias: Limeira (bijuterias), Mirassol (mobiliário), Vargem Grande do Sul (cerâmica) e Ibitinga (cama, bordado, mesa e banho).


Iniciativa do Decontec (Departamento de Competitividade e Tecnologia), o programa é uma parceria com Sebrae-SP e Bradesco. O objetivo estaria plenamente conectado com o quadro de fragilização da indústria de transformação de plástico do Grande ABC: contribuir para o fortalecimento de pequenas empresas instaladas em aglomerados industriais de uma mesma cadeia produtiva, através do aumento da produtividade e da criação de processos que permitam a auto-sustentação dos ganhos de competitividade das empresas.


Em entrevista ao Notícias Fiesp/Ciesp, veículo oficial da entidade, Renato Corona, coordenador do projeto, explica que do número inicial de 15 mil arranjos produtivos no Estado, chegou-se a 533 concentrações, reduzidas em seguida a 212 com a exclusão das regiões metropolitanas de São Paulo e de Campinas: “Num primeiro momento, resolvemos eliminar estas duas localidades diante da complexidade inerente às grandes cidades. O que não impede que, no futuro, possamos desenvolver o trabalho nesses municípios” – garante.


Contasse o Grande ABC com maior representatividade político-institucional, provavelmente não teria ficado fora do mapa de ações da Fiesp/Ciesp. De qualquer forma, não pode ser desconsiderado o fato de o presidente Horácio Lafer Piva ser integrante da Câmara Regional e de Fausto Cestari, com negócios em Mauá e trabalhos em São Caetano, ocupar a vice-presidência do conglomerado Fiesp/Ciesp. Fausto Cestari é também um dos fundadores do moribundo Fórum da Cidadania e fez carreira corporativa na principal representação industrial estadual do País a partir do comando do Ciesp de Santo André.


Não serve de atenuante ao esquecimento da região nem mesmo a informação de que o programa foi idealizado com objetivo inicial de priorizar o fortalecimento de concentrações num estágio preliminar de maturação, onde a dinâmica de cooperação ainda não estivesse completamente estabelecida. Afinal, no universo de indústrias de plásticos do Grande ABC há diferentes realidades. Bastaria selecionar o agrupamento de empresas com o perfil do projeto Fiesp/Ciesp.


A ausência do Grande ABC no programa Arranjos Produtivos Locais é inexplicável também na medida em que já existe histórico de pesquisa que contempla o setor, tanto do Sebrae-SP, parceiro da Fiesp/Ciesp, como da gaúcha MaxiQuim. Ou seja: já há um banco de dados que, mesmo parcialmente defasado, poderia facilitar o encaminhamento de propostas.


Já estão reservados os recursos destinados ao programa da Fiesp/Ciesp, segundo a publicação oficial das duas entidades. As empresas que participam da iniciativa, cerca de 20 em cada um dos quatro pólos industriais escolhidos, irão arcar com um custo de mensalidade, como contrapartida financeira que visa sinalizar o comprometimento com o projeto. Em troca, receberão assessoria permanente para aumentar a participação no mercado, melhoria de gestão, capacitação profissional, acesso a inovações tecnológicas, além de treinamento e capacitação empresarial.


Mario Bernardini, diretor do Decontec da Fiesp/Ciesp e proprietário da MGM Maquinas e Equipamentos de São Bernardo, explica a experiência com entusiasmo: “Procuramos estudar as experiências e alternativas colocadas em prática no Brasil e em outros países do mundo, para que pudéssemos ter uma intervenção mais consistente” – explica.


A força-tarefa do programa financiado por Fiesp/Ciesp, Sebrae-SP e Bradesco conta ainda com especialistas do Senai, Núcleo de Economia Industrial e de Tecnologia da Unicamp, Fundação Carlos Alberto Vanzolini (ligada à engenharia da USP), Instituto de Pesquisas Tecnologias, Fundação Seade e do próprio Sebrae-SP que, além de financiar parcialmente o projeto, prestará serviços especializados de consultoria e treinamento.


Para o superintendente do Sebrae em São Paulo, José Luiz Ricca, também entrevistado pela revista da Fiesp/Ciesp, o incentivo ao desenvolvimento de empresas de aglomerações industriais marca nova etapa dinâmica da economia do País. “Os Arranjos Produtivos Locais são, na verdade, uma nova forma de abordagem de questões como o empreendedorismo e o emprego. A descoberta de vocações empresariais dentro de um mesmo espaço e o incentivo a programas que contribuam para que as pessoas se sintam dentro de um grande sistema, como parceiros, devem ser responsáveis pelo fortalecimento de uma nova cultura empresarial no País, muito diferente do individualismo a que estamos acostumados” – afirma.


O deputado estadual Donisete Braga (PT) e o secretário-executivo da Agência de Desenvolvimento Econômico do Grande ABC, Paulo Eugênio Pereira, têm motivos complementares para creditar que vai repercutir junto aos tomadores de decisão a iniciativa de defender a conversão da economia do Grande ABC em direção à indústria transformadora de plástico cada vez menos dependente do setor automotivo.


Donisete Braga tem o crédito da autoria do projeto de lei que no ano passado alterou a lei 1.817 de 27 de outubro de 1978, que impedia a expansão de várias atividades produtivas na Região Metropolitana de São Paulo. O Pólo Petroquímico de Capuava foi diretamente beneficiado com a mudança, já que tornou viável a ampliação de produção, mas o conjunto de medidas abriu as portas para novos investimentos também de diferentes atividades industriais. Chegou-se a estimar à época da aprovação, em julho do ano passado, que pelo menos 30 mil novos empregos industriais seriam criados na Região Metropolitana como consequência da iniciativa de Donisete Braga, equivocadamente atribuída à Bancada do ABC.


O deputado, com base eleitoral em Mauá, lembra que na década de 70 não havia tecnologias eficientes associadas aos processos produtivos industriais, legislação especifica sobre emissões gasosas e afluentes líquidos, emissões de ruídos e outros aspectos ambientais que, por força de demandas por qualidade de vida, determinaram as amarras da legislação na Região Metropolitana.


“A desindustrialização nas últimas décadas provocou grandes perdas do poder econômico da população, por isso, e considerando-se as novas tecnologias de processo industrial, entendemos que já estava na hora de liberalizar os espaços com os cuidados ambientais indispensáveis” — explica o deputado.


Com a flexibilização da legislação, o Grande ABC dispõe de condições amplamente favoráveis para recarregar as baterias da indústria de transformação de plástico. A iniciativa do deputado estadual acrescenta novos condimentos na preparação econômica do Grande ABC para o futuro e aumenta a responsabilidade dos agentes públicos e privados na formulação de propostas e planos de ação que visem a usufruir da ação parlamentar.


É isso que promete o secretário-executivo da Agência de Desenvolvimento Econômico do Grande ABC. Paulo Eugênio Pereira sabe o quanto pode ser decisiva à recomposição econômica da região a aplicação de projetos destinados a organizar a cadeia transformadora de plástico. Como ex-secretário de Desenvolvimento Econômico de Mauá, responsável por um planejamento que levou algumas dezenas de indústrias de vários segmentos ao Pólo de Sertãozinho, Paulo Eugênio espera atrair para o foco da Agência todas as questões relativas à estrutura econômica que estão presas no embaralhado e inócuo cronograma da Câmara Regional, ficção institucional que deveria reunir governo do Estado e agentes políticos, econômicos e sociais do Grande ABC.


“Estou reivindicando, juntamente com Jorge Rosa, diretor titular da Agência, que todo o temário econômico do Grande ABC seja centralizado na Agência” — afirma Paulo Eugênio. Não é por outra razão, inclusive, que no mês passado os dois dirigentes da Agência receberam de presente o resultado de um grupo de agentes econômicos e políticos da região, inclusive eles próprios, coordenados desde dezembro do ano passado pelo sindicalista Luiz Marinho. Sob a condição de enquadrarem a economia do Grande ABC num contexto de competitividade, o grupo se desfez com um legado de propostas entregues à direção da Agência. Não se trata, entretanto, de um lavar de mãos: a Agência passa por reestruturação estatutária e é possível que os membros do grupo informal sejam instalados numa espécie de Conselho Consultivo da entidade, criada pela liderança do então prefeito Celso Daniel como braço executivo da Câmara Regional.


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