O Clube dos Especuladores Imobiliários do Grande ABC (que a partir do mês que vem voltará a se chamar Clube dos Construtores e Incorporadores) anunciou ontem o balanço do ano na região. Os números não têm a confiabilidade de quem deve ficar atento a malabarismos e a obscuridades, mas demonstram mudança de comportamento da diretoria comandada por Milton Bigucci: desta vez, ao contrário de outras situações de perdas, o mercado imobiliário da região comportou-se dentro da bitola de uma lógica óbvia de que sofre mais que o setor da Capital, de economia muito mais diversificada, e principalmente porque não carrega o peso da Doença Holandesa, ou seja, uma excessiva dependência da indústria automobilística.
Vendemos muito menos apartamentos novos, de janeiro a setembro, do que a Capital. A conclusão não é do Clube dos Especuladores. É deste jornalista. Fui aos arquivos para levantar dados omitidos. O Clube dos Especuladores Imobiliários preferiu anunciar que perdeu 16% de vendas no terceiro trimestre do ano em relação ao mesmo período do ano passado e 11,5% quando se levam em conta os nove primeiros meses do ano passado e os nove primeiros meses deste ano. Não há qualquer confronto com o mercado paulistano que, no mesmo período, sofreu queda de 4,7% nas vendas. Nos primeiros nove meses do ano passado a Província vendeu 4.589 apartamentos novos, enquanto São Paulo negociou 14.374. Nos nove meses deste ano os números são 4.062 na região e 13.698 na Capital. Ou seja: a participação regional caiu de 31,92% para 29,65% quando comparada à cidade de São Paulo. Ou seja: a crise que bate na Capital não é tão cruel quanto a crise que bate na Província. Nem poderia ser diferente.
Voltando ao passado
São conhecidos os embates que mantenho com o Clube dos Especuladores Imobiliários. Só o faço por dever de ofício. Cansei de acompanhar dados estatísticos fajutos, produzidos especificamente para engabelar o distinto público. O ápice da maracutaia estatística foi denunciado nesta revista digital em oito de março de 2012 sob o título “Só nas contas de Bigucci Capital perde para Província em imóveis”. Um dos parágrafos daquele texto explicava o inconformismo:
Alguém é capaz de acreditar na possibilidade de, em tempos normais, em tempos de paz, em tempos de economia razoavelmente aquecida, como a do ano passado, quando o PIB (Produto Interno Bruto) cresceu 2,7% sobre o PIB de 7,5% do ano anterior, a Província do Grande ABC mostrar-se mais dinâmica no mercado imobiliário que a Capital paulista? Pense bem: você seria capaz de afirmar por intuição ou por conhecimento que se venderam mais imóveis novos na Província do Grande ABC, em termos proporcionais, do que na Capital – escrevi em março de 2012.
Resgate de informações
Aquele artigo, que tanto enfureceu Milton Bigucci, seguiu em frente e precisa ser resgado agora para que os leitores entendam o significado deste texto. Leiam os próximos parágrafos:
Sabem quanto o mercado imobiliário da Província cresceu em 2011 sobre 2010, segundo a versão rocambolesca de Milton Bigucci? 8,57%. Quase três vezes o PIB daquela temporada. Foi isso que informou o eterno dirigente da Acigabc, segunda-feira, em encontro mais que manjado com a imprensa. Agora respondam os leitores: quanto foi que no mesmo período cresceu o mercado de imóveis novos na Capital? A resposta está em todos os jornais de ontem, depois de coletiva à imprensa do Secovi, Sindicato da Habitação de São Paulo. Pensem bem para não cometerem erro crasso. Pensaram? Pois bem, não houve crescimento algum. Pior que isso: houve rebaixamento, houve perda em relação a 2010. E que perda? Nada menos que 21,2%. – escrevi há mais de três anos.
Mais abaixo, expliquei o fenômeno:
Descobre-se, portanto, que o mercado imobiliário da Província do Grande ABC é um espanto? Bobagem: o que existe é o despreparo da frágil Associação dos Construtores em cuidas das próprias galinhas numéricas, espalhando-as pelo quintal da imprevidência de modo a contabilizá-las sem a menor competência.
Bigucci realista
Sempre a bem da verdade, não se pode ignorar as declarações de Milton Bigucci, publicadas na edição digital de hoje do jornal ABCD Maior, a propósito do balanço imobiliário. Vejam o trecho da reportagem:
A margem de lucro das construtoras também encolheu nos últimos dois anos. Bigucci revela que o preço do imóvel já caiu em cerca de 35%. No exemplo de sua construtora, um apartamento com dois dormitórios entre 43 e 48 metros quadrados e sem garagem subterrânea, que hoje custa R$ 200 mil, há dois anos custava R$ 270 mil. “Estamos baixando os preços para conseguir vender nesse cenário de retração econômica. Por isso, repito que esta é a hora para comprar, os preços e as condições de pagamento estão mais flexíveis. Hoje quem dita as regras da compra é o cliente e não mais as empresas”, afirmou o dirigente.
É isso que sempre cobrei de representantes do setor que, num passado recente, estimularam a especulação imobiliária e contribuíram para levar o País como um todo a um ambiente de euforia inconcebível para quem precisa crescer com os pés no chão. A postura de Milton Bigucci é praticamente compulsória, porque os números desta temporada, quando o assunto é emprego com carteira assinada no setor de construção civil, colocam a região e particularmente São Bernardo em situação crítica.
Querem uma prova? Entre janeiro e outubro deste ano, segundo dados do Ministério do Trabalho, a redução de postos de trabalho no setor chegou a 1.947 profissionais, com variação negativa de 4,92% sobre o estoque de dezembro do ano passado. São Bernardo está muito à frente dos demais municípios, com queda de 11,14%. Muito mais que os 6,03% de Santo André, que o 1,91% de São Caetano e que o 0,94% de Diadema, que os 3,41% de Mauá.
São Bernardo só perde para Rio Grande da Serra, que está longe de ter representatividade econômica que lhe faça sombra: a construção civil de Rio Grande da Serra perdeu 28,03% dos trabalhadores em relação ao estoque de dezembro do ano passado. Ribeirão Pires ganhou 13,36%.
Mundos diferentes
Acompanhem a diferença de universo empregatício no setor de construção civil na região: São Bernardo conta com 10.872 carteiras assinadas ante 10.831 de São Caetano e 9.163 de Santo André. A soma dos demais municípios da região mal ultrapassa a metade dos registros de Santo André: Diadema conta com 4.004, Mauá com 1.380, Ribeirão Pires com 1.050 e Rio Grande da Serra com 339 postos de trabalho.
Comparar São Bernardo a São Paulo é interessante: enquanto a Capital do Automóvel sofreu variação negativa superior a 11% nos empregos do setor com carteira assinada, São Paulo perdeu até agora no ano 6,92%. A Capital paulista conta com 306.235 trabalhadores na construção civil. Mais de oito vezes o total da Província do Grande ABC. E 28 vezes o total de trabalhadores em São Bernardo.
Total de 2006 matérias | Página 1
08/04/2026 GILVAN ENFRENTA UMA GUERRA DE 65 DESAFIOS