Não vou apostar, porque se apostar vão dizer que estou torcendo contra, mas vou fazer uma projeção que deverá ser confirmada ou possivelmente ficará na margem de erro: quando em dezembro de 2017 (isso mesmo, dezembro de 2017) for anunciado o PIB da Província do Grande ABC deste 2015 em que o Brasil está numa pindaíba de dar dó, teremos queda por volta de dois dígitos – a maior de todos os tempos. Sim, porque se o PIB brasileiro cair mesmo quase 4% este ano, não escaparemos de degola monumental. Palavra de quem vasculha todos os números possíveis.
O PIB de 2013 só vai ser conhecido em dezembro agora. O PIB Regional mais atualizado que o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) já divulgou é o referente a 2012. O Brasil cresceu 0,9%, enquanto a região caiu 5,8%. Entenderam por que estou dizendo que vamos despencar próximo a dois dígitos?
Mais grave que a derrocada pibiana, já cantada neste espaço com a projeção de que chegaremos ao tetracampeonato de debacle, é a incompetência generalizada da região em reagir aos desfalques que estamos sofrendo ao longo dos anos. Não há quem se salve nessa floresta de gafanhotos institucionais. Faria um ponto de reflexão e de exceção às unidades do Ciesp da região. Principalmente ao Ciesp de Santo André.
Em tempo real
Quando Fausto Cestari e outros dirigentes do Centro das Indústrias de Santo André (que também abrange Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra) botaram a boca no trombone e foram às ruas para protestar contra tudo o que está aí, no movimento Reage ABC, fui o único jornalista a chamar a atenção para o movimento, considerando importante, embora atabalhoado. Provavelmente fruto de um desespero que até então pouco teriam captado. Reproduzo, para não ser cansativo e também para não passar por oportunista, o que escrevi à época na coluna Contexto ABC que assinava no Diário do Grande ABC.
(...) Outra questão que este Diário deve resolver é o futuro editorial do Reage ABC, movimento que foi às ruas de Santo André e, depois de colhido de surpresa pela reação do Clube dos Prefeitos e da Agência de Desenvolvimento Regional, reorganiza-se para influenciar o destino da economia local. Por mais que aquela manifestação tenha revelado vícios político-partidários, prevalece a inquietação sobretudo dos pequenos e médios empresários do setor industrial, parte importante de uma economia em frangalhos. Deixar ao sabor dos ventos o acompanhamento da iniciativa enfraquece aqueles agentes econômicos. Este Diário não pode se esquecer de que um dos 10 pontos da Carta do Grande ABC é a chamada desindustrialização. Os manifestantes do Reage ABC, apesar de todos os pecados que cometeram na organização do evento e pós-evento, representam classe duramente impactada pela queda do PIB Industrial da região ao longo dos anos.
Empreendedores esquecidos
Ao lembrar que aquele Contexto ABC foi publicado em 30 de agosto, verifica-se que aquela mobilização está inserida no trimestre que acaba de ser apurado pelo IBGE. Ou seja: já havia ali sinais claríssimos de que, quando fosse anunciado o PIB do trimestre julho-agosto-setembro, o estrago seria generalizado.
A Imprensa regional praticamente ignorou aquela manifestação tanto no dia em que os 300 foram às ruas quanto depois. Existe o que chamaria benevolamente de descompromisso com as forças econômicas produtivas da região. A mídia regional não tem capacidade de filtrar informações e de construir um cenário que espelhe a situação em que vivemos.
O sindicalismo sempre bem articulado e persuasivo domina a pauta. Inclusive ao vender como solução o que não passa de grande embromação, no caso o PPE, Programa de Proteção ao Emprego. Que de fato protege o emprego e mesmo assim temporariamente de algumas poucas empresas sob influência direta do sindicalismo em busca de bandeiras para se vender responsável.
Cantando a caçapa
Escrevi em 30 de outubro passado nestas páginas que o PIB da região vai registrar o tetracampeonato no final de 2017, quando será anunciado o PIB dos Municípios de 2015. “Vou dizer mais: será o maior buraco deste milênio. Esta temporada está de lascar e impacta todos os setores econômicos da região, principalmente o carro-chefe da indústria automobilística que espalha efeitos deletérios a grande parte do tecido econômico, com fundas implicações orçamentárias” – escrevi.
Se acham que estou chegando somente agora à conclusão de que poderemos registrar dois dígitos de mergulho do PIB nesta temporada, leiam o que escrevi naquele artigo que mal completou 30 dias: “Calculo que, por baixo, por baixo, nosso PIB de 2015 vai cair por volta de 10% quando dezembro de 2017 chegar. Naquela data, o IBGE anunciará os estudos de PIB dos Municípios referentes a 2015. Cair 10% numa temporada é um chute na canela em noite de geada, mas é isso que nos aguarda. O noticiário do jornal Valor Econômico dá cores definitivas ao fracasso automotivo de 2015: os 12 meses do calendário gregoriano não passarão de 10 meses de vendas do calendário automobilístico” – escrevi em 30 de outubro.
Reproduzindo trechos
A eventuais leitores que entendem que minhas previsões não passam de chutometria, porque sou jornalista, não economista, reproduzo mais alguns parágrafos daquele artigo: “A perspectiva de que o PIB industrial da região neste ano baterá com facilidade a queda registrada e já conhecida em 2012 é o raciocínio mais lógico. Naquele ano, o PIB da indústria de transformação da Província sofreu perda de 11% em relação ao ano anterior. São Bernardo catalisou o desastre, porque registrou baixa de 23,34%. Por causa do estrondo de São Bernardo, o PIB Industrial da Província registrou perda de 15,82% em 2012, quando comparado a 2011. Alguém acredita que teremos números diferentes quando o IBGE apontar o gatilho estatístico em nossa direção?” – escrevi.
O estado de penúria intelectual que impacta a Província do Grande ABC é revoltante. Não há um secretário sequer da área de Desenvolvimento Econômico com experiência, autonomia e bom senso de chamar a mídia e apresentar panorama minimamente próximo da realidade de seu Município nestes tempos desastrosos. Mais que isso: quem afirmar por desconhecimento que não existe nas prefeituras locais um quadradinho sequer reservado à pasta de Desenvolvimento Econômico acertará na mosca, porque o fato de existir mas de não funcionar tem o mesmo significado de inexistir.
Saídas locais existem
E não me venham com o papo furado de que num contexto de crise nacional como a que vivemos são limitadíssimas as possibilidades de aplicação de medidas locais. Tivesse o Clube dos Prefeitos o sentimento de regionalidade que, por exemplo, caracteriza a farra do boi orçamentário da Fundação do ABC, pátria de todos os grupos políticos, a mobilização seria automática.
A diferença entre uma situação e outra é que dá muito trabalho organizar a economia regional de modo a que reduza as durezas do prélio nacional, enquanto a Fundação do ABC é um convite aos arreglos partidários -- uma calamidade administrativa que não resistiria a uma boa e fundamentada investigação.
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08/04/2026 GILVAN ENFRENTA UMA GUERRA DE 65 DESAFIOS