O Diário do Grande ABC destacou na manchetíssima (manchete das manchetes de primeira página) de hoje que uma consultoria internacional em recursos humanos apontou falta de mão de obra qualificada na região. O jornal errou na abordagem e a consultoria nos estudos. O jornal errou na abordagem porque confundiu as bolas. E a consultoria errou nos estudos, mesmo acertando, porque não se trata de novidade alguma. Parece complicado tudo isso, mas vou explicar.
O resumo da ópera é que recursos humanos locais em postos nobres nas indústrias, no comércio e nos serviços são exceção à regra na região pelo simples fato de que fomos forjados a apertar parafusos durante décadas a fio. Passamos períodos longos de deslumbramento industrial sem nos dar conta de que levaríamos para o relacionamento extra-fábrica o automatismo emburrecedor de linha de montagem. Mas esse é outro assunto.
Diz a manchetíssima do Diário do Grande ABC de hoje: “Para 96% da classe empresarial do ABC, falta mão de obra qualificada”. Na linha fina -- espécie de complementação do título -- segue o enunciado: “Gestores de recursos humanos sofrem para encontrar na região executivos com experiência e fluência em segunda língua”. O texto da chamada de primeira página da manchetíssima é o seguinte:
Empresas do Grande ABC têm encontrado dificuldades para recrutar na região mão de obra qualificada para postos executivos. A deficiência fica explícita no resultado de estudo realizado pela consultoria internacional Robert Ralf com exclusividade para o Diário. Noventa e seis por cento dos gestores consultados pelos pesquisadores disseram ser desafiador encontrar profissionais capacitados para ocupar cargos de comando nas sete cidades. Maiores problemas são falta de experiência na área, defasagem no segundo idioma e larga oferta de interessados com perfil operacional. As vagas de gerência são as mais complicadas de serem preenchidas, de acordo com o estudo. Especialistas em recursos humanos atribuem boa parte da responsabilidade aos próprios candidatos, que deveriam se preparar mais – escreveu o jornal.
Explicando o problema
Antes de fazer uma análise rápida sobre o conteúdo do Editorial do jornal, onde se expressa a posição da publicação, e depois de consumir a reportagem na página interna, resumida na chamada de primeira página, listo algumas das razões para o que chamaria de resultado compulsório do estudo.
Primeiro – Ao chegar muito próximo a 100% de posicionamento dos empresários entrevistados sobre a deficiência de recursos humanos em áreas mais nobres de atividades econômicas, o estudo ratifica o que já era de conhecimento público e também de outros trabalhos: não temos massa crítica para alcançar o mínimo de competitividade qualitativa para ocupar esses postos.
Segundo -- A cultura fabril tornou a região refém do que chamaríamos de apertar de parafusos. É verdade que, desde a abertura econômica, no início dos anos 1990, a região passou por grandes transformações em cada chão de fábrica, com a inserção de tecnologias de ponta, métodos e processos de última geração, sobretudo nas grandes e médias empresas. Mas, em larga margem, tudo se deu de modo a automatizar a produção com mais eficiência e produtividade. O apertar do parafuso tradicional cedeu espaço à modernização da linha de montagem sob o pressuposto de atenção a detalhes, não necessariamente a vislumbres do intelecto. Máquinas modernas substituíram cacarecos materiais e humanos. Fabricávamos carroças, lembram?
Terceiro -- A cultura fabril da região levou as grandes e médias empresas, sobretudo do setor automotivo, a recrutarem na vizinha e mais bem dotada Capital os elementos profissionais que executariam funções mais nobres no cronograma. Gente com cérebro de plástico para dar diretrizes ao pessoal inflexível do chão de fábrica.
Quarto – A demanda por profissionais no setor de treinamento técnico na região sempre se concentrou em escolas criadas sob encomenda para atender áreas operacionais. Ao longo da história, poucas instituições de ensino, particulares e públicas, voltaram-se às chamadas atividades-meio das empresas. Havia e segue o conformismo de que quadros mais avantajados em intelectualidade e execução de tarefas nobres vêm da Capital recheadíssima de escolas consagradas.
Quinto – O Complexo de Gata Borralheira sempre atuou de forma incisiva e pragmática no tecido econômico da região. A maioria dos profissionais mais valiosos das empresas não resiste à tentação de dirigir-se à Capital cinderelesca para dar vazão ao sonho de mobilidade social. Pratas da casa geralmente não têm valor. Frequentar cursos especializados em consagrados estabelecimentos de ensino da Capital é algo excepcional para o currículo. Muitas vezes, para se chegar a uma multinacional localizada na região, é preciso dar volta e ter o valor reconhecido.
Sexto – Com a desindustrialização -- entendida no conjunto de aspectos que a caracterizam e que não pode ser negada durante breves períodos de alta na produção do setor automobilístico -- estamos perdendo mais e mais cérebros não só para a Capital muito mais dinâmica e contemporânea economicamente, mas também para outras localidades fora da Grande São Paulo. Um quarto da população economicamente ativa da região trabalha na Capital. Boa parte desses profissionais se encaixaria no conceito de qualidade de mão de obra que a consultoria internacional está à cata. A tendência é de que aumente esse efeito na medida em que ficamos presos ao quadradismo automotivo cada vez menos importante no contexto nacional.
Sétimo – Não contamos – e o então prefeito Celso Daniel cansou de chamar a atenção sobre isso – com setor terciário de ponta. Concorremos diretamente com a Capital e sofremos reveses permanentes. As áreas de marketing, finanças, hotelaria, varejo, gastronomia, desenho, artística e tantas outras requerem profissionais qualificados e com experiência, os quais São Paulo tem de sobra. Somos essencialmente um território industrial com viés de baixa competitividade nacional e um setor terciário de sobrevivência. É impossível que, num ambiente como esse, vicejem mesmo que nichos preciosos de executivos prontos a assumir cargos importantes nas companhias locais. Até porque são raras as companhias locais que não mirem a Capital como a salvação da lavoura da demanda por esses profissionais. A lei de sobrevivência do capitalismo não permite generosidades.
Mito do operariado
Acho que esgotei de forma bastante sintética os principais pontos explicativos do buraco negro profissional que assalta a Província do Grande ABC. Cabe, agora, um reparo ao Editorial do Diário do Grande ABC, notadamente sobre o que chamou de mito da qualificação da mão de obra local supostamente desfigurado pela consultoria internacional. O mito em questão jamais pairou sobre a geografia regional nos nichos de executivos de áreas nobres. Traduzindo: é consenso histórico que sempre recorremos a cérebros externos para dar conta do recado regional no conjunto de hierarquias além do chão de fábrica.
O mito cultivado por interesse sindical e que chegou a ganhar foro de verdade insofismável trata da qualificação da mão de obra produtiva da região. A propagação dessa definição sindical sempre confundiu cultura fabril com qualidade de mão de obra. Até que veio a abertura econômica e os investimentos ganharam diversas áreas do Brasil. Pode-se constatar, então, o até então escondido contraponto do fulgor da cultura fabril, no caso os vícios da produção fabril em forma de custos mais elevados e ações hostis ao capital, promovido pelo mundo sindical. Outras geografias emergiram com preparação de mão de obra facilitada pela introdução em massa de novas tecnologias -- sem a desvantagem de engajamento trabalhista muitas vezes excessivamente opositor ao capital.
A solução para o problema de recursos humanos desplugados da demanda de grandes e médias empresas da região encontra obstáculos que vêm do passado e que precisam ser retirados. Será um processo lento, doloroso, que implicará em mudanças na morfologia produtiva da Província do Grande ABC. Temo que perdemos irrecuperavelmente essa possibilidade. Envelhecemos como estrutura econômica sem obter a vantagem de adquirir experiência para readaptar-se aos novos tempos.
Gafanhotos sociais
Somos uma Província que a cada dia que passa, mais recebe notícias de que áreas cerebrais das empresas tomam o caminho de volta à Capital e de outros territórios. Foi assim outro dia com a Pirelli em Santo André, e está sendo assim com outros empreendimentos que precisam competir para não perecer. A concentração de riqueza intelectual e técnica em determinados bairros, como se dá nas grandes capitais, como São Paulo, energiza os indicadores econômicos para enfrentar governos dilapidadores da esperança de crescimento.
E olhem que não citei algo que merece um texto à parte: o ambiente politico-partidário-institucional desta Província é um convite à deserção de qualquer tipo de profissional. Os gafanhotos sociais são imbatíveis no processo de aniquilamento do que um dia chamaram de sociedade organizada e há muito não passa de sociedade congelada.
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