Economia

Fechamento do São Judas é
muito mais que uma notícia

DANIEL LIMA - 11/12/2015

O fechamento do Restaurante São Judas Tadeu, estrela maior da Rota do Frango com Polenga, não é uma notícia qualquer. Aliás, não deve ser apenas uma notícia -- como o foi com direito a manchete de primeira página do Diário do Grande ABC. Não confundam manchete com manchetíssima. Manchete é um titulo de primeira página com menos impacto que manchetíssima, que é a manchete das manchetes.


 


O São Judas Tadeu, da Família Demarchi, poderá ser uma das bases de uma tese de mestrado, além de render muita matéria jornalística quando se pretender descrever a trajetória de sucesso e de fracasso da Província do Grande ABC. Entendam sucesso como a arte desenvolvimentista de gerar mais e mais classe média sustentada, sem artimanhas consumistas dos tempos do presidente Lula da Silva. E entendam fracasso como a inapetência geral de enfrentar e minimizar agruras econômicas e sociais.


 


Por mais que se cristalizassem deficiências administrativas e gerais, o São Judas Tadeu vai fechar em janeiro porque se tornou grande demais numa região que se apequenou economicamente.


 


Sonho de grandeza


 


Provavelmente a grande mídia traduzirá o encerramento das atividades do São Judas Tadeu de maneira mais apropriada que o Diário do Grande ABC. É impossível desatrelar o destino daquele estabelecimento comercial do sonho de grandeza de uma região que vive cada vez mais apertada entre o desencanto e o descalabro. Deixar de vincular a agonia daquele negócio ao enfraquecimento econômico e institucional da região é fechar-se à realidade por desconhecimento ou mandraquismo.


 


O sonho dos Demarchi virou pesadelo. Eles falharam principalmente ao ignorar dados macroeconômicos da região que estou cansado de desfilar nestas páginas e também durante duas décadas na revista LivreMercado. A expansão do espaço físico do São Judas Tadeu e o enxugamento da cadeia automotiva na região (entre outras atividades fabris), a partir de repactuação dos quadros funcionais das montadoras, foram movimentos conflitivos. Aumentar o potencial de atendimento a comensais em contraste com o contínuo demitir de trabalhadores industriais foi, certamente, uma barbeiragem da qual só se deram conta os proprietários quando o custo fixo passou a incomodar e a comprometer a rentabilidade e os investimentos.


 


Bolo competitivo


 


É claro que não se deve apenas ao refluir econômico da região a derrocada do Restaurante São Judas Tadeu. Fatores comportamentais e sociais também infligiram doses de castigo. A região criou durante a última década, década e meia, um sem-número de novos empreendimentos gastronômicos de razoável qualidade e sempre mais bem localizados e com diversidade de cardápio. Todos contribuíram para dividir um bolo de potencial de consumo comprovadamente em retração.


 


A acessibilidade ao São Judas tornou-se cada vez mais improdutiva porque a Anchieta está longe de caracterizar-se como rodovia. Virou mesmo uma avenida sempre congestionada.  Às sextas e sábados, dias de maior movimento da Rota do Frango com Polenta, grandes áreas no entorno daqueles restaurantes sofrem com o caos no trânsito. 


 


Se a esses vetores – e a outros sobre os quais estou com pouca paciência para perscrutar – se somarem eventuais desarranjos administrativos e financeiros, não restaria mesmo saída ao Restaurante São Judas Tadeu senão demitir os últimos 90 funcionários.


 


Muita especulação


 


O burburinho sobre o fechamento do São Judas Tadeu não se esgotou com a notícia do Diário do Grande ABC. Há diversas versões não publicadas a estimular a imaginação de quem, mais que surpreso, está decepcionado com o fim de um dos símbolos de grandeza que a Província do Grande ABC exibia ao mundo.


 


Num contexto de escândalos do PT de Lula da Silva, amigo pessoal de vários membros da Família Demarchi, não faltariam supostas conexões. Tudo a partir de ramificações descobertas pela Polícia Federal e Receita Federal de que terrenos da Família Demarchi viraram negócios de amigos próximos de Lula da Silva. Antigos campos de futebol soçaite do chamado Polentão ganharam os céus em forma de torres de apartamentos de empreendimentos capitaneados pelo entorno do então presidente da República.


 


Agora, inadvertidamente ou não, juntam-se pedaços de um suposto mosaico de negócios estranhos. Uma versão que parece sem pé nem cabeça. Por mais que um dos vértices da equação tenha pé, cabeça e muitos membros. 


Leia mais matérias desta seção: Economia

Total de 2006 matérias | Página 1

08/04/2026 GILVAN ENFRENTA UMA GUERRA DE 65 DESAFIOS
07/04/2026 QUEM VAI PAGAR OS DANOS DO RODOANEL?
26/03/2026 REDUÇÃO DE IMPOSTOS É MESMO BOA NOTÍCIA?
25/03/2026 É IMPROVÁVEL GILVAN PERDER PARA PAULINHO
18/03/2026 MENOS RICOS E CLASSE MÉDIA NESTE SÉCULO
17/03/2026 PIB INDUSTRIAL: UM DESASTRE NO SÉCULO
12/03/2026 PIB PÓS-LULA DESABA 32% NO GRANDE ABC
11/03/2026 CLUBE SINDICAL ESTÁ PERDIDO NO TEMPO
09/03/2026 CLUBE ECONÔMICO TAMBÉM É FRACASSO
05/03/2026 DEMARCHI E O VEXAME DOS 100 MIL EMPREGOS
19/02/2026 EMPREGO INDUSTRIAL VAI CHEGAR À META?
04/02/2026 OSASCO E VIZINHANÇA GOLEIAM GRANDE ABC
03/02/2026 LULA ZERA ESTRAGO DE DILMA APÓS NOVE ANOS
29/01/2026 NÃO RIAM: COLÔMBIA É A GRANDE SAÍDA REGIONAL
22/01/2026 METRÔ PODE REPETIR DANOS DO RODOANEL
19/01/2026 UM SINDICALISTA COM A CABEÇA NO PASSADO
15/01/2026 IPTU AVANÇA SOBRE FORTE QUEDA DO ICMS
13/01/2026 IPTU EXAGERADO INIBE ECONOMIA REGIONAL
12/01/2026 GALPÃO E PÁTIO NÃO MUDAM GRANDE ABC