A prometida fábrica de estrutura dos caças suecos Gripen que São Bernardo alardeou aos quatro cantos quando a maré política e econômica era favorável ao PT e ao ex-presidente Lula da Silva, pode mudar de endereço. Como o projeto está praticamente congelado em São Bernardo, cercado de muita opacidade, típica do prefeito Luiz Marinho, o governador de Goiás, o tucano Marconi Perillo, entrou em campo para mudar o endereço do investimento.
A notícia foi publicada em jornais de Goiânia no final de semana e, se de conhecimento da cúpula petista em São Bernardo, deverá ter causado estragos. E prováveis reações de quem já comemorava um título e se viu atropelado na reta de chegada. Os escândalos petistas devem ter muito peso na investida do governador goiano. Quando um time se enfraquece, aparecem adversários aos borbotões.
Muito pouco se fala ainda sobre as razões de os caças suecos eventualmente mudarem de ares, mas não estão fora de análise os escândalos petistas no Petrolão. Trabalha-se com a possibilidade de a Administração Luiz Marinho enredar-se nos descaminhos da Petrobras. Há burburinho intenso nos corredores do poder em São Bernardo sobre os efeitos da Operação Lava Jato na região. O financiamento eleitoral de campanhas petistas locais passou pelos cofres da Petrobras e da fila indiana de fornecedores mais que suspeitos.
OAS muito próxima
A prisão de dirigentes máximos da OAS na Operação Lava Jato fez acionar de novo o alarme de que há riscos enormes à gestão Luiz Marinho. Dois presidentes da OAS, em tempos diferentes, ganharam xilindrós como endereços compulsórios do modelo de negócios que comandavam junto à Petrobras. A OAS mantém em São Bernardo, em estado vegetativo, obras bancadas pelo PAC (Programa de Aceleração de Crescimento) cujos trâmites licitatórios foram contestados pelo Tribunal de Contas do Estado.
O Diário do Grande ABC explorou o assunto durante duas semanas inteiras, mas depois não voltou com esclarecimentos. O deputado federal Alex Manente, de relacionamento clandestino com petistas da região, prometeu à época das denúncias do jornal que acionaria o Ministério Público Estadual, mas não deu mais notícias. De qualquer forma, as irregularidades eram tão expressivamente escandalosas que a Operação Laja Jato jamais poderia perder a oportunidade de investigá-las.
Não existe confirmação de que a Saab, empresa sueca responsável pela parceria com o Brasil, já teria acionado mecanismos preventivos para retirar o time de campo ante a possibilidade de vir a ser chamuscada pela proximidade implícita do negócio com a direção petista de São Bernardo. Até as garças que restaram na Represa Billings sabem que Luiz Marinho foi o principal agente de sensibilização do contrato com os suecos.
Marinho contou com um fiel escudeiro, o ardiloso advogado Edson Asarias, que, embora não conste oficialmente da lista de assessores do titular do Paço Municipal, mandou e desmandou durante o período de escolha do fornecedor internacional dos caças às Força Aérea Brasileira.
Advogado polivalente
Edson Asarias é polivalente porque também representava a Inbra, empresa com sede em Mauá que teria acordado parceira acionária com a Saab até que se chegasse a um impasse mais que justificado: a Inbra pretendia ser sócia de um investimento superior a US$ 150 milhões sem colocar um tostão na parceria. Esse modelo de capitalismo unilateral não era de conhecimento dos suecos até que teriam ouvido a proposta. Como os suecos não brincam em serviço, o mal-estar se seguiu à sinalização de que aquelas condições não correspondiam aos pressupostos negociados.
Também teriam incomodado à direção da Gripen algumas nuances sobre a personalidade funcional do advogado Edson Asarias. Tem-se como certo o que poderia ser chamado de trapaça institucional que colocaria Edson Asarias no palco de escamoteamentos. Amigo de Luiz Marinho, a ponto de compartilharem roteiros semelhantes de viagens ao Exterior para conhecer de perto o portfólio da empresa sueca, Edson Asarias teria agido com tamanho desprendimento que a direção da Saab imaginou que se tratasse de alguém cuja expressividade passasse por caminhos resguardados pelo cronograma da Prefeitura de São Bernardo. Mal sabiam os suecos que Edson Asarias era ponta de lança oficioso da Inbra e da própria Administração Luiz Marinho.
Governador em vantagem
Há tantas informações nebulosas sobre a fábrica dos caças Gripen em São Bernardo que, nestas alturas do campeonato, o que parece mais factível mesmo, dada à imobilidade geral, é que o governador Marconi Perillo tenha dado um drible da vaca em Luiz Marinho e também em Lula da Silva, a quem o prefeito de São Bernardo recorreu para transformar o investimento numa suposta nova Era econômica da região. O sonho de não depender demais da bitola mais que manjada da indústria automotiva parece desvanecer.
Talvez o principal equívoco da gestão Luiz Marinho nas tratativas que culminaram no anúncio de que a fábrica de estruturas do Gripen seria mesmo em São Bernardo tenha sido desprezar o futuro ou mais propriamente o contexto futuro. Ao dar como favas contadas o investimento em São Bernardo, mesmo com muitos questionamentos sobre o quadro societário, a gestão Luiz Marinho pode ter incorrido em falha imperdoável – ou seja, deixou de monitorar o ambiente macropolítico e macroeconômico do País, dormindo no berço esplêndido do provincianismo regional.
Como se sabe, o ambiente nacional não está para amadores e tampouco para profissionais que entendiam ser a Petrobras um poço sem fundo que abasteceria PT e aliados até que o controle geral do País permitisse algo como uma coalização partidária controladora de tudo e de todos. A reviravolta proporcionada pela Operação Lava Jato colocou muitas certezas em situação de duvidas e muitas dúvidas em posição de certezas reversas.
O capital politico de Luiz Marinho, até então visto como candidato natural ao governo do Estado em 2018, começou a virar água após a acachapante derrota petista para a presidência da República com Dilma Rousseff no ano passado. Chefe da campanha petista entre os paulistas, Luiz Marinho viu o partido somar uma única vitória, na industrial Hortolândia, entre os mais de 600 municípios do Estado, na disputa pelo governo do Estado. E na corrida à presidência da República, Dilma Rousseff apanhou feio do tucano Aécio Neves.
Lava Jato chegando
O resultado eleitoral não teria efeito tão devastador ao prestígio partidário de Luiz Marinho se Lula da Silva, antigo protetor, não vivesse maré de desconforto e se a Operação Lava Jato não estendesse ramificações a essa Província. Sabe-se que mais dia menos dia vão estourar escândalos que reduzirão ainda mais os baixíssimos níveis de aprovação ao PT.
O governador Marconi Perillo não é bobo nem nada e já trabalha para deixar Luiz Marinho chupando o dedo. Os argumentos do governador goiano são bastante convincentes, não bastassem as barbeiragens petistas na região. O governador esteve na semana passada com o ministro da Defesa Aldo Rebelo para apresentar proposta de viabilizar um complexo aeronáutico em Anápolis, com apoio do Ministério da Aeronáutica. O tucano tem negociado a possibilidade desde o início do ano de forma muito reservada, segundo o noticiário goiano, por causa do envolvimento do ex-presidente Lula da Silva com os interesses de São Bernardo.
Se em São Bernardo não existe praticamente nada de forma explícita que leve alguém a acreditar que será possível estruturar um polo da indústria de defesa aérea, porque o que prevalecem são montadoras de veículos, as vantagens que Goiás oferece são palpáveis: proximidade com a base aérea e o novo aeroporto de cargas de Anápolis, além de infraestrutura para a fábrica e incentivos fiscais. Os escândalos petistas entram nessa conta como adicional de periculosidade político-partidária.
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08/04/2026 GILVAN ENFRENTA UMA GUERRA DE 65 DESAFIOS